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narrado pelo Rei de Copas

I - O Tolo


“Existem setenta e oito cartas no baralho de tarô. Os Arcanos Maiores são as mais importantes. Entre elas há O Diabo. O Diabo não são boas notícias.”

Edgar não levantou o olhar da lista que conferia.

“Esse é seu jeito de dizer que não quer Jean no casamento?”

“Você sabe que eu não gosto dele.”

“Porque você é bobo. Só porque Jean é genioso não quer dizer que seja uma pessoa ruim. Além do mais, você é tão cabeça dura quanto ele. Faça essa cara o quanto quiser, vocês dois são mais parecidos do que você quer admitir.”

Sabia que essa não era uma briga que iria vencer. Tomei um outro gole de chá enquanto ele adicionava mais nomes em uma grande lista.

Edgar Addams era, em todas as acepções da palavra, um cavalheiro. Um homem bonito e elegante, calmo em suas ações e gentil com todos; até com aqueles que uma alma amarga como a minha julgava indignos.

“Também vamos convidar Angélica.”

“Obviamente.”

Era um sábado de manhã e estávamos em uma popular casa de chá. Edgar trajava uma camisa social simples por baixo de um belo colete azul. Presente meu.

Ele parou de escrever e me encarou com seus expressivos olhos castanhos.

“O que foi?”

“Nada. Você está bonito hoje.”

“É o colete.” Sorriu.

Edgar tinha a pele negra e cabelos cortados curtos. Gostava de usar um cavanhaque que mantinha sempre muito bem aparado e embora não sorrisse com frequência, seu rosto era feito para isso.

“Vic, você já falou com Asami sobre as flores?”

“Sim. Já falei com ela. Estamos tendo uma pequena divergência sobre o tema, mas acredito que vamos chegar a um entendimento.”

“E a divergência é?” Voltou a sua lista.

“As ideias de Asami são estúpidas!” Ele riu ao ouvir aquilo

“Deixe ela fazer o trabalho dela e se concentre em aparecer e parecer bonito.”

Enquanto discutíamos os detalhes da festa, uma moça que não deveria ter mais de dezesseis anos se aproximou da nossa mesa. Ela estava nervosa e trazia nas mãos uma xícara.

“Com licença...” Ela estava completamente vermelha e parecia hesitar. “O senhor é o Chapeleiro, não é? O senhor poderia autografar para mim?” Estendeu-lhe a xícara.

“Será meu prazer.”

Edgar passou o indicador pela porcelana da xícara e gravou com magia sua assinatura. Também desenhou um coelho usando cartola.

Ele segurou a xícara sob o nariz e sentiu o aroma por um segundo.

“Framboesa com limão? É um dos meus favoritos. E se me permite...” E mirou o fundo da xícara que estava cheia de borra. Seu rosto se curvou em uma expressão séria enquanto ele estudava as imagens. Seus olhos se tornaram opacos por um segundo. A garota parecia apreensiva e animada. “Eu vejo... Sucesso! Ambição... Mas tem algo de errado aqui...”

Edgar lia as folhas de chá como ninguém.

“Minha opinião profissional: continue a estudar e você com certeza passará no seu vestibular e... Tome cuidado com algumas amizades. Já deve saber a quem me refiro.”

A garota agradeceu e segurando a xícara com firmeza, voltou para a sua mesa.

“Temos mais alguma coisa para resolver?” Perguntei.

“Deixa ver... Não. Mas preciso que você passe na alfaiataria para pegar o terno de Diógenes. Mas pode pegar quando formos vê-lo. Eu estou indo encontrar com Angélica e posso passar para ver Aureus e pegar as alianças.”

“Ótimo. Vou resolver as flores com Asami. É provável que ela também queira ir ver os convites, então é uma coisa a menos. Você irá no ritual do Edu na mansão?”

“Pretendo. Aureus virá comigo e vai passar a noite conosco.”

“Então tudo resolvido.” Joguei alguns reais sobre a mesa e saímos da casa de chá.

Ele se despediu com um beijo e entrando em seu carro, foi embora. Verifiquei a hora e me pus a caminhar até a casa de Asami. Embora fosse cedo as ruas de Nova Brasília já fervilhavam de gente indo e vindo.

Nova Brasília era considerada uma das maiores cidades do mundo. Um centro cultural, econômico e artístico sem par. Essa casa de chá ficava em um bairro muito tradicional onde a cultura japonesa era fortíssima. Os prédios eram mais baixos e a arquitetura era mais charmosa. As casas de chá e restaurantes tradicionais dividiam espaço com pequenos templos adornados com amplas áreas verdes.

A casa de Asami Minamoto era assim. No centro de um grande jardim coberto de flores e árvores retorcidas ficava uma elegante construção de pedra cinza bem cortada e madeira. Um estilo muito particular entre o tradicional e o moderno onde a natureza parecia fazer parte da casa e vice-versa.

Os portões estavam abertos e atravessando o jardim, cheguei a casa. A porta da frente era a entrada do ateliê e do dojô e já sendo esperado, entrei sem muita cerimônia. Passando pela recepção vazia cheguei ao grande salão principal.

O aposento tinha o pé direito muito alto e o chão era de madeira clara e reluzente. Essa sala era onde Asami dava aulas de artes marciais, além de arranjos florais. Isso explicava a estranha mistura onde armas e pinturas dramáticas dividiam espaço com grandes mesas e vários vasos de porcelana.

A parede do fundo havia sido recolhida e eu podia ver o jardim central que era abraçado pelo resto da casa.

“Chegou bem na hora.” Passou por mim carregando um belo arranjo.

Asami era uma mulher de beleza muito particular. De estatura baixa e elegante, ela se movimentava como uma flor que se dobrava ao vento. Era dona de uma leveza invejável e um sorriso deslumbrante.

O rosto exibia cicatrizes dos anos de treino e os olhos em forma de amêndoas eram muito sérios. Ela estava despojada usando calças jeans e um top justo por baixo de um largo quimono florido. O cabelo estava amarrado em coque preso por uma rosa de talo longo.

“Espero que não seja o arranjo do casamento. Está horrível.” Brinquei.

“Para a minha sorte, quem vai decidir é o Edgar. Caso contrário duvido que chegássemos a um acordo.”

Ela levou o vaso para uma longa mesa cheia de vários arranjos.

A despeito da bagunça sobre a mesa que estava coberta de talos, folhas, pétalas e lixo, os vasos pareciam perfeitos. Haviam quatro, cada um com uma complexa e delicada combinação de flores.

“Eu fiz um arranjo como você queria, um pro Edgar e dois que eu achei que ficariam bons.” Ela foi até o primeiro. “Esse é o seu. Como pode ver, é perfeito para um velório de mau gosto.”

“Esses são os meus favoritos.”

Piadas a parte o arranjo era muito bonito. Além das rosas negras que tanto gostava, haviam várias outras flores que eu não conhecia os nomes de tons muito densos de vermelho e roxo.

“Eu gostei muito. Mas duvido que Edgar fosse gostar.”

“Para ele eu pensei em algo mais colorido. Hortênsias azuis e rosas cor-de-rosa.”

“Ele não é particularmente fã de rosas. Mas iria gostar das cores. Que tal essa outra flor?”

Ela tirou as rosas do arranjo e pegou algumas sementes de um dos vários pequenos pratos sobre a mesa. Em um movimento de mão as sementes geminaram entre seus dedos e após alguns segundos, belas flores rosas nasceram.

“Astromélias e hortênsias. Acho que vai ficar bem bonito. Quer ficar aí enquanto trabalho? Ou tem algo para fazer hoje?”

“Vou ver os convites e depois vou para a mansão.”

“Para o ritual do Edu?” Assenti.

“Pensei que talvez quisesse ir comigo.”

“Adoraria! Eu me arrumo na sua casa e vamos direto para lá. Edu fala dessa festa já tem algum tempo, quero muito ver o que ele vai fazer. Ouvi dizer que Aureus está há semanas trabalhando em uma estátua para ele.”

Asami era, sem sombra de dúvidas, minha melhor amiga. Tê-la como parte do casamento fazia da experiência ainda mais divertida.

Nós passamos uma boa parte do dia trabalhando nos arranjos até que chegássemos a uma opção que agradaria a mim e Edgar. De missão cumprida, fomos almoçar em um restaurante ali por perto.

Assim como na casa de chá, algumas pessoas nos abordaram rapidamente. Embora a existência de feiticeiros fosse conhecida por todos, eles não tinham o mesmo status que os videntes. Nós éramos tratados como celebridades e todos nos conheciam. Ali por perto, Asami era muito respeitada e várias pessoas se curvavam respeitosamente para ela; nunca havia visto ela não retribuir um comprimento com a mesma educação que o havia recebido.

Quando o sol já estava se pondo, nós saímos da gráfica com um novo modelo de convite para Edgar bater o martelo. Nós voltamos para minha casa, um pequeno casarão na parte boêmia da cidade.

Quando eu e Edgar compramos a casa ele havia insistido em restaurar a construção antiga, porém haviam muitas novas necessidades; Salas de consulta, escritórios particulares, quarto de visitas e vários outros aposentos. No fim, eu havia ganhado e fizemos uma reforma completa.

A casa era muito bonita. Ela tinha três andares em um estilo moderno com os toques clássicos que Edgar tanto gostava. O jardim havia sido feito por Asami e a estátua de mármore branco que ficava perto do portão de entrada era obra de Aureus.

Asami foi direto para o quarto de hóspedes se arrumar enquanto eu fui para minha suíte. Edu estava arrumando essa cerimônia já há alguns meses e havia pedido nosso apoio. Hoje era um grande dia para ele.

A parte difícil foi escolher uma roupa. Obviamente iria de preto considerando que era a maioria do meu guarda-roupas, porém o convite pedia para evitar roupas pretas. Decidi por um conjunto azul marinho que o próprio Edu havia me dado de presente. Era de um tecido leve e elegante com várias estrelas e constelações bordadas em linha de prata.

Encontrei com Asami na sala de estar. Ela usava um belo vestido longo e reto com uma discreta fenda. O cabelo estava bem amarrado em um coque lateral com um prendedor com flores douradas que combinavam com o carmim do vestido.

“Você está linda.”

“Ora, muito obrigada. Você parece esquisito.”

“Não é bem meu estilo, mas admito que gostei.”

Ela passou o braço pelo meu e pegamos um carro para a mansão.