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narrado pelo Rei de Copas

II - O Sol


Eóns atrás a humanidade engatinhava no escuro. Nossos avanços eram feitos em pequenos passos, um de cada vez. Isso mudou quando os videntes apareceram; feiticeiros que além de fazer magia conseguiam ver o futuro. Nós fomos capazes de desvendar os mistérios da existência e abrir um novo caminho para a humanidade.

Há várias centros e salões para videntes desenvolverem sua arte, o maior, entretanto, é a Casa dos Videntes. A mais velha, importante e imponente escola de divinação do mundo. É dito que Nova Brasília foi construída ao seu redor e a cidade só existia por causa dela.

Dizem que antigamente ela era apenas um barraco onde as cartas eram tiradas no escuro e os búzios lidos à luz de velas. Depois virou uma pequena casa onde livros eram escondidos sob o piso. Hoje ela era uma imensa construção que mais parecia um castelo. A Casa dos Videntes ficava no centro de um imenso parque murado. Os jardins se estendiam magnânimos e a mansão emergia das flores como se tivesse sido construída por deuses.

Mesmo de longe podíamos ver a torre da biblioteca. Alta e imponente, foi a primeira construção da Casa e ao longo dos séculos foi refeita, remodelada e modernizada. Dizia-se que originalmente era o tal casebre onde os videntes escondiam seu conhecimento; hoje era uma alta torre de vidro e mármore branco.

A Biblioteca abrigava a maior coleção de conhecimento divinatório do mundo. O prédio principal foi construído logo ao seu lado e mesmo com seus cinco andares, parecia pequena diante da torre.

Eu e Asami cruzamos os jardins belamente iluminados e chegamos à mansão. Embora fosse uma visão estonteante, hoje, as atenções estavam para a praça central que ficava logo em frente ao prédio principal.

Normalmente era uma grande fonte onde a água dançava em padrões hipnóticos. Hoje, porém, havia uma estátua de no mínimo três metros. Ela havia sido esculpida em uma pedra muito preta e os detalhes eram de puro ouro e prata. A estátua tinha uma expressão doce e as mãos abertas em diferentes alturas. Correntes de búzios dourados davam voltas e mais voltas na estátua e caiam de suas mãos como cascatas.

“Aureus se superou! A estátua ficou linda!” Asami pareceu perder a respiração diante dela.

“Ora, se não é gentil!” Aureus estava logo atrás de nós. Seu nome real era Antônio, porém era o único de nós que era normalmente conhecido por sua alcunha.

O artesão usava um traje parecido com o meu, porém era branquíssimo e bordado com padrões jacquard dourados. Ele deu um forte abraço em Asami e me encarou com seus olhos espertos.

“Victor, espero que as alianças estejam do seu agrado.”

“Ainda não as vi, mas você sabe que muito me agrada seu trabalho.” Abri os braços e o abracei também.

Aureus, assim como Edgar, tinha o dom da gentileza. Ele era talvez um dos mais famosos artesões da cidade. Ficara excepcionalmente famoso pelo seu trabalho com ouro e com suas esculturas.

Ele havia nascido com uma má-formação que fragilizou sua constituição, porém sua alma era a mais bela e mais forte que já havia conhecido, além disso, era um dos homens mais sábios que já havia encontrado. Seus dois braços e uma perna eram próteses que ele mesmo havia criado. Hoje ele exibia belas próteses feitas de porcelana branca e ouro. Elas faziam um lindo contraste com sua pele negra e ele parecia reluzir como um anjo perto dos holofotes.

“E onde está Edgar?”

“Nós nos separamos logo que chegamos... Acho que o vi conversando com Jean.”

“Deixarei os dois conversarem em paz.”

Os dois riram ao ouvir aquilo.

“Vamos, acredito que está para começar.”

A estátua estava em um palco redondo um pouco mais alto que nós. As cadeiras estavam dispostas em um círculo ao seu redor. Não apenas os membros da Casa dos Videntes estavam lá, mas vários importantes membros da comunidade.

Entre as cadeiras e o palco, os músicos se preparavam para o ritual. Os três usavam roupas brancas e tinham grandes tambores de diferentes tamanhos; todos miravam o palco e estavam de costas para nós.

Edgar nos achou e se sentou ao meu lado. Estava muito bonito com um terno mandarim verde escuro com bordados dourados. Tinha um cravo no bolso.

“Angélica não pode vir?”

“Não, trabalhando demais. Mas lhe mandou um beijo.”

As primeiras batidas de tambor calaram toda a multidão. Durante alguns minutos houve apenas os instrumentos. O conjunto tocava com uma paixão envolvente. O ritmo era forte, quente e encorpado.

Dançarinos e dançarinas subiram ao palco. Usavam roupas brancas como a banda, mas também tinham chapéus kufi e panos na cabeça além de coloridos colares de contas. Os dançarinos se movimentavam ao som dos tambores com uma elegância ímpar; algumas das mulheres carregavam chocalhos cônicos dourados.

Cada passo era pontuado com trovoadas dos tambores. As saias de muitas rendas esvoaçavam junto com as vozes das dançarinas. Se me lembrava corretamente, cantavam em Yorubá e não em português.

A apresentação se seguiu por cerca de meia hora; os dançarinos não pararam por um único segundo e apesar da música passar de um ritmo mais rápido para um mais lento e retomar a velocidade, a orquestra não vacilou e as vozes não se calaram.

Quando tudo acabou, os dançarinos saíram do palco sem esperar os aplausos e restaram apenas os tambores que agora soavam uma melodia baixa e arrastada.

Subiu ao palco o Senhor Hassan, o diretor da Casa dos Videntes. Ele já era idoso e exibia uma forma física frágil, porém firme e elegante. Já não tinha cabelo e o longo nariz equilibrava óculos grossos. Tinha um sorriso gentil e recebeu os aplausos com uma reverência delicada.

“Eu agradeço os caridosos aplausos... Mas hoje a noite é em homenagem aos nossos queridos amigos e suas conchas. E nada disso seria possível sem nosso caríssimo Ifá.”

Os tambores ficaram mais fortes e os aplausos ensurdecedores. Ifá era a alcunha de Edu, que além de professor, havia se tornado, recentemente, chefe do departamento de buziomancia da Casa dos Videntes.

Edu estava especialmente elegante. Estava usando uma túnica azul claro com punho e bainha rendado. Trazia uma faixa muito colorida por cima do ombro e vários colares de grossas contas no peito. Também tinha vários colares de búzios.

Ele recebeu os aplausos e gesticulando para a estátua, pediu mais aplausos. Ele nos agradeceu pela presença e apoio e convidou a todos para a festa que iria se seguir.

Diante da estátua que ainda nos observava com olhos tão gentis, levantamos e nos espalhamos pelos jardins onde garçons passavam com bandejas de comida e bebida. Em algum lugar música dançante começou a ser tocada.

Era bom estarmos todos juntos de novo, era difícil nos encontrarmos já que todos andávamos tão ocupados.

“Eu adoraria retribuir o favor, sabe?” Aureus me disse. “Vocês sempre me hospedam quando eu venho para a cidade. Quando vocês irão passar um final de semana no sítio? Edgar me visita com frequência, mas você, Victor... Se não me falha a memória, ainda não viu meu ateliê depois da reforma.”

“Você sabe que eu adoraria, mas ando tão atarefado.”

“Tenho certeza que conseguiria achar uma brecha para mim.” Sorriu cínico.

“Eu e Victor adoraríamos passar uma semana no sítio. Estamos planejando tirar férias com a lua de mel e seria ótimo ficar com você. O que acha?”

“Fico muito satisfeito.” O artesão sorriu. “Você, Edgar, é a consciência que faltava em Victor. Rezo para que ele se torne mais como você e não você como ele.”

“Ele não é tão ruim.” Me deu um beijo no rosto. “E se eu me recordo bem da história do Ano Novo Explosivo, Asami precisou aguentar muito mais que eu.”

“Eu não bebi o suficiente para contar essa história.” Respondeu arrancando risadas do grupo.

Edu, como um bom anfitrião, estava passando pelos vários grupos e falando com todos. Eventualmente chegou em nós. Ele parecia cansado, mas absolutamente feliz.

“Foi tudo maravilhoso, você está de parabéns.” Edgar o cumprimentou. “Você devia se sentir orgulhoso.”

“Eu agradeço muito por vocês terem vindo! Significa muito!”

“E o que vocês vão fazer com a estátua?” Perguntei.

“A estátua! Aureus, você se superou! Ela ficou maravilhosa! E já tenho algumas pessoas perguntando sobre o seu ateliê!”

“É muito gentil.”

“Nós vamos levá-la para o átrio do Pavilhão Leste! Vamos precisar de uma nova iluminação, mas ficara maravilhoso.”

E assim como veio, foi embora para o próximo grupo.

“Espero não ter que esculpir búzios por muito tempo.”