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narrado pelo Rei de Copas

III - Os Amantes


Depois da festa nós voltamos para casa. Aureus passou um agradável domingo conosco e voltou para seu sítio fora da cidade no fim do dia. Eu e Edgar passamos o resto do dia descansando e nos preparando para a semana que viria.

Segunda-feira era especialmente atarefado para nós. Por algum motivo as pessoas achavam que esse era um ótimo momento para consultas. Talvez achassem que sendo o primeiro dia da semana, era a ocasião perfeita para começar algo novo.

Quando Edgar acordou o café já estava preparado e a sua espera na mesa. Enquanto ele comia eu estudava nosso horário.

“Dia cheio?”

“Demais... Não vamos ter descanso até o anoitecer. Agenda lotada.”

“Você percebeu o quanto nossas agendas andam mais organizadas desde que a Carina chegou?”

O encarei nos olhos já sabendo o que me esperava.

“O que você quer?”

“Eu acho que ela deveria receber um aumento.”

Voltei para a agenda.

“Isso é uma conversa ou você já tomou uma decisão?”

“Mas é claro que é uma conversa! Sua opinião é de suma importância para decidir! Não estaria perguntando se não quisesse ouvi-la!”

“Ok, então vamos conversar. O que está pensando?”

“10% ou 15%.” Sorriu cínico.

Fingi pensar por um segundo.

“Você parece ter pensado muito sobre o assunto, acredito que tomará a decisão certa e eu concordo com qualquer que seja.” Terminei meu café. “Minha primeira consulta está chegando, vou me arrumar. Ponha a bagunça na lava-louça quando acabar, ok? Te vejo no almoço.” Dei-lhe um beijo no topo da cabeça quando sai.

Como passaria o dia trabalhando, precisava de roupas confortáveis. Coloquei calças jeans e uma camisa e por cima um belo quimono preto que Asami havia me dado. Assim que terminei de me arrumar eu desci para o hall.

Nós havíamos convertido nosso hall de entrada em uma sala de espera e um dos quartos do primeiro andar na minha sala de consulta. Edgar gostava de atender na cozinha onde podia preparar suas poções e chás com mais conforto.

Carina já havia chegado e já estava preparando tudo para começar o dia. Ela era uma moça jovem e excepcionalmente inteligente. Nós nos conhecemos pois ela estava preparando uma tese sobre o impacto antropológico dos videntes na sociedade e queria nos entrevistar. Ela se tornou nossa secretária e atendente porque o salário conseguia pagar suas pesquisas e despesas e as horas permitiam que ela escrevesse sua tese em paz.

E Edgar estava certo, nossa vida ficou muito mais fácil depois que ela chegou.

“Bom dia, Victor!” Comprimentou-me feliz demais para uma segunda de manhã.

“Carina, como está?”

“Estou muito bem, obrigada.”

“Fico feliz em ouvir isso. Liana está chegando e ela não se atrasa, estarei na minha sala, sim? Assim que ela chegar você mande que entre, por favor?”

Minha sala não era muito grande, mas tinha minha cara. O piso era de madeira escura e as paredes tinham um intricado papel de parede azul e dourado. No fundo havia um armário cheio de objetos que meus amigos haviam me dado ao longo dos anos. Os meus favoritos eram uma espada, uma mão feita de cristal e gravações em ouro, um conjunto de chá e um saco de runas.

As paredes exibiam telas muito bonitas e havia uma escultura em um dos cantos.

Havia também um aparador onde eu guardava minhas coisas. Tirei de lá uma toalha limpa e forrei a mesa que ficava no centro da sala. Também peguei uma grande caixa de madeira onde deixava meus baralhos de consulta.

Não demorou muito para que Liana chegasse. Ela era uma cliente de anos e uma conhecida socialite. Era dotada de uma beleza artificial e plástica, como se tivesse sido esculpida à mão. Obviamente, com tantas cirurgias estéticas, era exatamente o caso.

“Madame...” Tirei o casaco que usava e pendurei junto com o chapéu. Ela estava usando um conjunto de blazer e saia completamente preto. Parecia muito mais taciturna que o habitual. Eu puxei a cadeira para que se sentasse.

“Como está hoje? Parece preocupada.”

“Preocupada, obviamente.” Soou exasperada. Normalmente era muito mais educada.

Abri a caixa dos baralhos para que ela escolhesse, porém com um movimento de mão ela dispensou a seleção e eu escolhi meu favorito.

“A senhora gostaria de falar sobre isso, ou apenas a consulta?”

“Não pretendo ser grosseira, mas eu vou dispensar a conversa hoje, sim? Preciso apenas de uma informação.”

“Como preferir.”

Senti minha magia fluir e dando um toque no baralho, três cartas flutuaram para fora e se alinharam no centro da mesa. As imagens, antes escuras, ganharam vida e começaram a se mexer. As das pontas exibiam imagens cheias de cores e movimento enquanto a do centro as julgava com censura no olhar.

Meus olhos arderam e minha mente foi inundada por centenas de imagens que pareciam um filme acelerado. No que pareceu um segundo eu acordei do transe.

Liana parecia impaciente e bastante preocupada.

“Então?”

“Eu sinto muito, mas me parece certo que sua preocupação esteja correta. A senhora está mesmo doente. Uma breve, porém, difícil luta pela frente. Porém vejo que não tardará a ter uma recuperação completa.”

Ela empalideceu, porém parecia resignada.

“Eu agradeço a ajuda.”

Ela se levantou e eu a ajudei a recolocar seu casaco. Ela não tardou a ir embora apressadamente.

Várias das seções de divinação eram longas e demandavam vários pequenos rituais ou coisas que os consultantes traziam como objetos pessoais, documentos legais e investimentos. Algumas, como essa, eram uma rápida e desesperada pergunta para o futuro.

Algumas pessoas, como Carina, diziam que videntes desequilibravam a vida cotidiana. Essa era toda a sua tese. Embora o trabalho fosse amplamente criticado e até hostilizado por alguns membros da sociedade, a tese era certeira em sua crueldade.

Porém, me era muito claro que nossas ações eram boas. Fomos nós a guiar a humanidade para fora da idade das trevas e proporcionar uma vida mais confortável e livre de dúvidas. Era isso que nos ensinavam na Casa dos Videntes.

A manhã se arrastou entre consultas longas e curtas, presságios positivos e negativos, algumas comemorações e choros. Também recebemos alguns presentes de clientes em agradecimento.

Um entregador trouxe nosso almoço e nós três comemos na cozinha enquanto Edgar discutia com Carina seu novo aumento de 17%.

O dia não tardou a acabar e às seis horas, demos nosso expediente por encerrado. Carina foi embora e nos pusemos a lavar, à mão, todas as xícaras que foram usadas ao longo do dia. Edgar se recusava a botar a bendita porcelana na lava-louças.

Após um bom banho nós botamos nossos pijamas e terminamos o dia na sala de televisão onde vimos nossa novela e fomos dormir.