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narrado pelo Rei de Copas

IV - O Hierofante


Normalmente eu era o primeiro a levantar, porém hoje foi Edgar a me acordar com chacoalhadas gentis, porém urgentes.

“O que?”

“Vic, tem algo errado. Freya está atrás de você... Mandou várias mensagens.”

Eu peguei meu celular e dei uma olhada rápida pelos textos. Algo havia dado errado em uma previsão.

“Abre para mim o jornal e veja se tem alguma notícia sobre a mansão. Vou ligar pro Edu.”

“Não precisa... Olha só. ‘Previsão da Casa dos Videntes estava errada; AlphaTec vai a falência.’”

“Errada?” Peguei seu celular para ler a notícia. “Não faz sentido.”

Freya me ligou de novo.

“Que foi?” Atendi o celular.

-Pelas barbas de Odin, vocês dormem até que horas?- Perguntou irritada.

“O que você quer?” Respondi irritado.

-Eu preciso de você na Casa! Eu ouvi boatos e vamos precisar agir rápido.-

“Tá. Vou me arrumar e passo aí.”

Eu pulei para fora da cama e fui até o closet.

“Me prepara um lanche. Eu vou para a mansão imediatamente.”

Eu me vesti rapidamente e preparei minha bolsa. Na cozinha, Edgar já tinha arrumado alguns sanduiches. Eu peguei a comida e depois de um curto gole de café eu lhe dei um beijo e fui pegar meu carro para ir até a mansão.

“Peça para Carina reorganizar minha agenda. Anote todos os que deveriam ser atendidos e eu ligarei para eles pessoalmente.”

“Certo. Fique bem, ok? Boa sorte.” Edgar parecia nervoso.

Disparei pelo trânsito até a casa de Freya que não morava muito longe. Não demorou muito para chegar lá nem para achá-la.

Freya Eriksen, a quem chamavam de Valquíria, não apenas era mais alta que nós como costumava usar botas de salto para acentuar essa característica. Gostava de roupas escuras combinando com metais prateados. O longo cabelo loiro vinha amarrado em várias tranças na lateral da cabeça e o resto penteado por cima do ombro. Também usava um sobretudo de couro preto e gola de pele falsa.

Ela estava tão absorta na massa de papeis que lia que só me viu quando buzinei. Ela segurou a caneta com a boca e entrou no carro. Os grandes olhos azuis pareciam irritados.

“Dormiu bem?” Perguntou cínica.

“Não é problema meu que você acorde com o sol.”

“Você verificou os papeis do caso da AlphaTec?” Perguntou-me sem rodeios.

“Eu literalmente acabei de acordar.”

“Uma amiga na Casa me mandou os documentos da empresa e eu já fiz e refiz os cálculos. Eles não estão errados.”

“Quem fez a previsão?”

“Gustavo. E Gustavo não erra.”

Ela passava entre tabelas numéricas e textos rúnicos. Fazia longas anotações em português e rúnico ao lado de longas contas matemáticas.

“Porque eu estou aqui?”

“Por que vamos precisar de toda a ajudar que pudermos arrumar! As runas me mostraram um futuro que pretendo impedir que aconteça.”

“Claro, porque isso sempre dá certo.”

Nós chegamos na mansão e mesmo pela entrada de veículos foi possível ver a aglomeração na frente do prédio. Nós paramos o carro na garagem e quando chegamos ao átrio central ele não podia estar mais normal.

O átrio central da mansão era tão suntuoso quanto um castelo. O altíssimo teto pintado com as constelações era sustentado por belas colunas de mármore. Havia uma estátua esculpida por Aureus no centro do aposento e atrás dela uma escada subia para os andares superiores. Atrás de nós ficavam as imensas portas de entrada e nas laterais, os corredores para a Ala Leste e Oeste.

O movimento parecia normal, como se nada tivesse acontecido. Adolescentes passeavam distraídos com braços cheios de livros enquanto funcionários carregavam bolas de cristal, maços de papel e outras quinquilharias de uma ala para outra.

Freya, que ainda carregava um monte de papeis, fez o caminho até a sala de Edu. Ela entrou sem bater e de um jeito tão ruidoso que ele quase caiu da cadeira.

“Cadê Gustavo?”

Edu parecia um pouco preocupado. Diante de Freya ele teve dificuldade de organizar as palavras.

“Achamos melhor que ele ficasse em casa. Já que... Você sabe.”

“Não, não sabemos.” Disse seco. “Já que o que?”

Edu suspirou exasperado.

“A falência da AlphaTec foi uma catástrofe. Não podemos arcar com essa culpa.” Embora tenha dito aquilo com confiança, claramente era uma frase que fora ensaiada de antemão.

Freya foi até a mesa dele e bateu os papeis que carregava na mesa.

“Você entende de aritmancia, Edu... Não minta para mim. Eu sei que você sabe que Gustavo não errou. A previsão estava certa e os cálculos dentro da margem de erro apropriada. Se a empresa faliu foi porque apostaram no cavalo errado.”

Edu levantou e correu para fechar a porta. Agora ele parecia desesperado.

“Eu não sei o que fazer! Sim, é claro que Gustavo não errou! Todos podemos ver. Os revisores olharam o documento e atestaram que está correto. Mas minhas mãos estão atadas!”

“Claro que não estão! É só dizer a verdade. Gustavo não errou e os resultados estão de acordo com as tabelas. A margem de erro era grande, mas todas as visões empresariais têm margens de erro largas! Além do mais...”

“Não é isso...” Pareceu empalidecer um pouco. “Hassan não quer arcar com a culpa.”

“O que quer dizer?” Perguntei.

Ele chegou perto de nós e respondeu com a voz quebrada.

“Acho que Hassan vai culpar Gustavo.”

“O que? Como assim!” Freya soou muito alta.

Edu tentou silenciá-la e nos pegando pelo braço levou-nos até as cadeiras que ficavam na frente de sua mesa.

“Se todos estão confirmando que Gustavo estava certo, quer dizer que foi um erro da Casa dos Videntes. Se Gustavo que errou...”

“Não! Ele não pode fazer isso! Todos sabemos que Gustavo não errou! E nós podemos provar!” E puxou suas anotações da mesa de Edu.

“Eu sei que sim! Qualquer um de nós pode, mas não podemos ir contra Hassan nem contra a Casa.”

“Edu, isso não faz sentido!” Argumentei. “O parecer de Gustavo apontou a margem de erro! Isso isentaria ele e a Casa de qualquer culpa!”

“Ainda assim... Hassan não quer o peso de ter quebrado uma empresa tão grande quanto a AlphaTec.”

“E aí? Nós vamos deixar Gustavo afundar sozinho?”

O silêncio de Edu era resposta suficiente.

“Eu não acredito!” Freya estava visivelmente irritada.

“Como você pode estar tão tranquilo com isso?”

“Eu não estou, mas não sabemos o que fazer!”

“Que tal assumir a culpa?”

“Vocês assumiriam?” Edu também ficava cada vez mais irritado.

A pele clara de Freya se tingiu de vermelho.

“Se todos chegamos no mesmo ponto não é um erro de Gustavo nem um erro geral. Ninguém tem que assumir culpa se a empresa apostou e perdeu na margem de erro e você sabe disso.”

“E o que mais podemos fazer? A Casa não passa por uma situação tão catastrófica assim há décadas! Nós falimos uma das maiores empresas de tecnologia do país!”

“A empresa faliu sozinha! Todo mundo sabe que visões corporativas não são à prova de balas! O parecer de Gustavo tinha só 80% de chance de êxito! Eles faliram porque foram idiotas!”

Ele se calou exasperado por tempo demais.

“Olhem, se vocês não podem ajudar, é melhor que se vão.”

A expressão de Freya era puro choque.

“Se você espera que eu vá mentir para tirar a corda do pescoço do Hassan e botar na do Gustavo você está delirando. Você se tornou um dos cães de Hassan.”

Ele pareceu frágil diante dela.

“Victor?” Olhou para mim em busca de ajuda.

“Freya está certa. Você sabe muito bem o que essa culpa significaria para um de nós. A Casa conseguiria absorver, mas um único vidente, sozinho, estaria acabado. E eu não vou ter essa culpa na minha mente.”

“Vamos, eu já fiz o que eu tinha para fazer aqui.” E mais uma vez atirou os papeis contra Edu, criando uma chuva de anotações.

Nós voltamos para o átrio central com Edu em nosso encalço. Ele tentava acalmar os ânimos e falava baixo. Embora tentasse passar despercebido, chamou a atenção de todos ao nosso redor.

“Chega!” Freya urrou. “Nós terminamos por aqui.”

Muitas pessoas começavam a cochichar umas para as outras nas extremidades do átrio.

“Algum problema por aqui?” A voz de Hassan retumbou ainda mais alto que a de Freya.

No topo da escadaria estava Hassan e sua assistente. Ele nos olhou com um semblante pesado. Como se soubesse que não íamos nos submeter a ele. Sem sombra de dúvidas ele sabia que não iriamos concordar com aquilo, porém não parecia se importar.

Freya o encarou com ódio no olhar. Deu as costas para ele e fomos embora. Nós voltamos para o carro e ficamos estacionados em silêncio.

“E agora?”

“Para Asami.”

Nós fizemos o caminho para a casa de Asami em silêncio. Freya parecia altamente irada e prestes a explodir. Eu parei na frente do portão e logo entramos.

A recepcionista tentou impedir a entrada de Freya, porém ela viu minha expressão e decidiu que aquela não era uma briga que iria querer comprar. Ela entrou sem cerimônia no que parecia uma aula de arranjos florais.

Todos se sobressaltaram com a nossa entrada. Nós nos sentamos nas poltronas ao lado da porta para esperar, porém Asami percebeu que algo estava errado.

“Bom... Me parece uma emergência. Que tal encerrarmos por aqui e nós faremos uma aula bônus no fim de semana!” Soou muito gentil e educada.

Todos perceberam a tensão na sala e foram embora rapidamente, deixando uma grande bagunça para trás.

“Ok, o que está acontecendo?” Ela nos perguntou soando muito mais ríspida. “O que vocês aprontaram?”

“Você não viu as notícias?”

“Notícias? Não, por quê? O que aconteceu?” Agora soava muito nervosa “Não vi nada. Acordei atrasada, tinha uma aula cedo e vim direto para cá.”

“A AlphaTec faliu e Hassan vai culpar Gustavo.” Disse.

A expressão dela foi ao chão.

“Como assim, culpar Gustavo? Ele errou?”

“Obviamente que não. Todos sabemos que ele não erra. Mas Hassan quer jogar a culpa para outra pessoa que não a Casa.”

“Você verificou os cálculos?” Perguntou.

“Obviamente que sim.”

“E o que a Casa vai fazer?”

“Edu disse que querem divulgar que Gustavo errou e a empresa faliu por causa dele e se eximir da culpa.” Freya soou muito irritada.

“Mas... Isso vai acabar com ele! Com a carreira dele! Como pretendem convencer todos a mentir?”

“Bom, a mim não podem convencer!” Disse categórica.

Freya e Asami eram melhores amigas e tinham o mesmo espírito guerreiro, sempre pronto para uma briga. Ambas começaram a falar muito e muito alto sobre como era uma injustiça com Gustavo e como Edu havia traído um amigo e colega de trabalho. Ambas se puseram a criar planos mirabolantes de como iriam resolver a situação.

Eu, por outro lado, já estava cansado e pronto para dar o dia por encerrado mesmo que eu só estivesse acordado há apenas algumas horas.

“Vocês parecem estar prontas para a briga. Eu vou voltar para a minha casa, pois toda essa comoção me deu uma baita dor de cabeça. Eu vejo vocês depois.”

Fiz o caminho de volta me preparando para achar minha casa abarrotada de gente. Porém eu a encontrei na mais santa paz. Nem Carina estava lá. O silêncio era estranho e pouco característico.

Encontrei com Edgar na sala de televisão onde ele assistia às notícias. A reportagem era Hassan em alguma coletiva de imprensa.

“Cadê todo mundo?” Perguntei.

“Achei melhor cancelar tudo... As notícias não estão boas, não é?” Ele me fitou com uma expressão preocupada. “O que aconteceu?”

“Uma baita confusão. Escuta, você ainda lembra de aritmancia?”

Ele não entendeu, mas assentiu. Nós fomos para nosso escritório e eu imprimi duas cópias dos documentos da AlphaTec que Freya havia me mandado hoje cedo. Em silêncio sepulcral nós começamos a rever os cálculos. Fazia algum tempo que não trabalhava com aritmancia e precisei baixar da prateleira alguns livros velhos, mas eventualmente chegamos a solução. Gustavo estava certo; a previsão estava certa.

Edgar tirou seus óculos de leitura e os colocou sobre a mesa.

“Então... Você vai me contar o que aconteceu?”

Eu respirei fundo e lhe contei tudo. Embora parecesse triste, não estava surpreso.

“Vic, eu sei que não vai gostar do que eu tenho para dizer, mas aqui vai. A Casa dos Videntes sempre foi assim. Eles sempre puniram erros dessa maneira. A diferença é que dessa vez, o erro foi muito grande.”

“Eu sei que você tem suas reservas contra a Casa...”

“Sim, eu tenho. Hassan não é a pessoa boa que todos o pintam e agora você viu. Ele vai atirar Gustavo aos leões. Não importa o que você ou Freya ou quem mais queira dizer, o futuro de Gustavo já foi escrito e ele cairá sozinho.”

“Eu prefiro não acreditar nisso.”

Ele sorriu ao ouvir aquilo. Ele pegou minhas mãos num gesto gentil e respirou fundo.

“Eu te amo de todo o coração, mas não aposte sua lealdade na Casa. Se necessário for, eles passarão por cima de você.”

Ele me soltou e levantou da cadeira.

“Você parece com fome. Que tal almoçar?”

“Parece ótimo, obrigado.”