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Prólogo


“Temos um acordo?” O homem no espelho perguntou.

Embora já tivesse a resposta, ela entalou na minha garganta. Era demais.

“Sim.”

“Então é hora de começarmos, não é?” Sorriu.

Era a terceira noite em dois meses que vinha até esse lugar. A primeira vez éramos inimigos, a segunda, estranhos. Agora muito me parecia que havíamos nos tornado relutantes velhos amigos.

Eu peguei minha bolsa e tirei de lá uma longa e afiada estaca de ferro. No momento era o máximo que seria capaz de fazer, mas tudo se encaixaria em seu devido tempo.

Eu me aproximei do espelho. Era alto com uma bela moldura de prata. Havia um conjunto de encantamentos gravados na superfície. Não sabia exatamente o que significavam, mas era capaz de entender o básico.

Em um movimento seco, golpeei a placa com toda a força que tinha. O espelho trincou no ponto onde eu o acertei, porém não se quebrou. A estaca havia afundado vários centímetros para dentro e aos poucos se dissolveu em pó de ferro que caiu pelo chão como areia.

Uma névoa verde densa começou a vazar do ponto onde a estaca acertou. Ela caia preguiçosa e preencheu todo o chão do pequeno aposento. Rapidamente a névoa se desfez e aos poucos o buraco no espelho começou a cicatrizar e com um estalo, se restaurou.

Eu me espantei diante daquilo, jamais havia visto um Espelho Negro se quebrar e se refazer de tal maneira. Provavelmente era um dos feitiços na placa.

“Está feito.” O homem no espelho sorriu e desapareceu.

Antes de ir embora eu me detive mais alguns minutos anotando as marcas no espelho. Embora já tivesse tentado decifrá-las, foi apenas um capricho. Agora a tarefa assumia uma nova dimensão.

Eu peguei minha mochila e saí da sala. Fechei as portas e com dificuldade recoloquei o cadeado de volta no lugar. Ao fechá-lo, grossas correntes apareceram ligando-o aos puxadores das portas.

Eu atravessei a ponte sobre o vazio e voltei até a seção reservada. Era perto de duas horas da manhã e não havia ninguém na biblioteca nem em seus jardins. A mansão também estava vazia e silenciosa. Os residentes estavam dormindo e não deveria haver ninguém nos corredores além dos seguranças.

Evitando atenção indesejada, eu me esgueirei pelos corredores escuros. Voltei até a sala de Hassan e me pus diante do quadro de Arthuro Crux; o primeiro diretor da Casa dos Videntes.

“Voltei.” Disse a ele.

Eu tirei a macabra bola de cristal da bolsa e a figura no quadro assentiu com a cabeça. Fez um gesto me convidando a entrar. Eu atravessei a tela como se não estivesse ali e cheguei em um claustrofóbico aposento que cheirava a poeira.

Se eu ganhasse uma moeda por todas as vezes que eu falasse com um ser dentro de uma moldura, eu teria duas moedas. O que não é muito, mas é estranho que tenha acontecido duas vezes.

Recoloquei a bola em seu pedestal e sai do quarto pela mesma tela que entrei. Dei ao Professor Arthuro uma última reverência, a qual ele retribuiu, e sai da sala em silêncio.

Mais uma vez me esgueirando pelos corredores, deixei a mansão ainda no escuro da noite.