Capítulo 10


Fernando disse que precisávamos voltar para sua casa. Que assuntos como esses eram melhor discutidos em lugares menos públicos.

Ele tinha um belo carro esporte da mesma cor dos seus olhos. Era todo estilizado e parecia muito caro. Ele saiu do parque e dirigiu até o Lago Sul, onde dizia que morava.

“Você perguntou o que somos...” Quando deu fim à nossa conversa banal, até seu tom se alterou. “O termo mais apropriado seria herdeiro.”

Nós entramos em uma rua em que conseguíamos ver o lago. No fim, havia uma grande mansão que ocupava os dois lotes no fim da rua.

“De que?”

“Deuses, obviamente.” Disse cínico.

Nós entramos pelo portão e estacionamos na garagem. Ao voltar para o jardim da frente, conseguia ver a casa em sua magnitude. O jardim era enorme, imaginei que Vitória iria ter gostado.

A porta da frente era enorme e pegava dois dos três andares da casa. Ao lado dela havia um pequeno tanque revestido de mármore cheio de plantas aquáticas. O que fechava a grandiosidade da fachada era uma grande parede de vidro azulado ao lado da porta e por fim, uma parede alta revestida com azulejos Athos Bulcão.

O interior era ainda mais bonito. A casa era impecável. A sala era cheia de móveis elegantes, obras de arte e decoração cara.

“Você trabalha?” Perguntei.

“Pode-se dizer que sim.”

“Ok... Herdeiros de deuses...”

“Os deuses tinha uma relação muito próxima com mortais. Eles conviviam conosco quase como iguais. Com o tempo ele ficavam amigos de pessoas específicas e davam a elas poder.”

“E como funciona isso?”

“Nada de mais.” Deu de ombros. “A maioria dos herdeiros foram criados sem qualquer motivo real. Imagine que você tem um amigo e quer dar um presente para ele. Os deuses nos deram poder.”

“Então não teria nada a ver com semideuses?”

“Semideuses... Isso é outra história totalmente diferente. Vamos voltar a isso depois. Mas não, herdeiros não precisam nascer de deuses. Você pode nascer um herdeiro por seus pais serem, pois é genético, ou se tornar um a qualquer momento. É só aceitar o presente de um deus.”

Ele subiu as escadas para o segundo andar e me chamou para acompanhá-lo.

“Estima-se que todos os deuses tenham gerado ao menos uma linhagem de herdeiros. Alguns geraram mais e outros menos. Alguns pararam de gerar herdeiros enquanto outros continuam até hoje. Cada deus deu a seus herdeiros poder além dos sonhos de um mortal. Com o tempo fomos conhecendo uns aos outros e nos juntando.”

“Então eu e você somos herdeiros do mesmo deus?” Perguntei.

“Deusa. E sim.”

“Então seríamos... Tipo, parentes?”

“Definitivamente não.” Respondeu como se fosse a pergunta mais ridícula que tivesse ouvido no dia. “Somos no máximo, frequentadores do mesmo clubinho.”

Ele parou de frente para uma porta fechada.

“E nós somos herdeiros de quem? Caiçara falou algo sobre a lua.”

“Bom... Com o tempo percebi que começar falando sobre deuses é perda de tempo. No momento, o que importa é saber que nós somos chamados de Encantadores.”

“Encantadores? Um nome um tanto... Brega.”

“Um pouco, mas você aprende a gostar.”

Ele segurou a maçaneta e sorriu.

“E ainda mais importante é você saber o que é ser um Encantador.”

Ele abriu a porta de forma um tanto teatral.

Era um amplo quarto vazio. Era pintado do chão ao teto de preto e não haviam janelas, além disso, era muito frio. O mármore negro do piso deixava toda a sala com um ar bastante macabro.

Fernando me chamou a atenção com um estalar de dedos. Agora conseguia ver os poucos móveis da sala. Um grande sofá preto que se camuflava no ambiente. Ao lado dele, um grande amplificador, uma mesinha de centro e um piano, todos pretos. Eu me sentei ao seu lado e o encarei. Ele olhava para algo dentro da sala, algo que eu não via.

“O que é isso?” Perguntei curioso.

“Bom, você pediu por magia.”

Subitamente começou. Havia sim, algo no centro da sala. Algo, mesmo que possa parecer estranho, havia me passado despercebido. Era uma bailarina de pele de porcelana e cabelos dourados que surgiu do vazio e que sem qualquer música, se pôs a dançar.

Ela usava um vestido e sapatilhas pretas que em um movimento se misturavam a sala, mas que no momento seguinte voltava a emergir em vultos. Eu não conseguia distinguir nada além de sua silhueta e movimentos. Ambos eram envolventes. Aos meus ouvidos, eu escutava apenas o meu coração.

A forma começou a clarear, literalmente. O leve vestido que usava começou a se tornar branco. Centenas de pequenos pontos de luz apareciam pelo vestido. Eles se dividiam e expandiam em ainda mais estrelas. Em um longo rodopio de vários giros as estrelas se espalharam como tinta. A mancha escura que ela era se iluminou em um branco angelical.

Ela parou por um segundo e olhou para mim. Ela sorriu e voltou a dançar. Em um delicado movimento se ergueu para a ponta das sapatilhas que agora luziam em um forte dourado. Ela fez um pequeno movimento deslizando para o lado deixando um rastro de luz dourada.

Cada passo, cada movimento, cada rodopio preenchia a sala de flutuantes estrelas prateadas e douradas que se desprendiam de seu vestido. O chão estava preenchido de formas, linhas e traços de pura luz que as sapatilhas produziam. Me vi de pé chegando mais e mais perto.  Meu coração batia ainda mais alto.

Ela então parou. O sorriso dela era lindo. Depois de tanto esforço, ela nem ofegava. Ela fez uma expressão de divertimento olhando para o chão. Percebi que estava no meio da sala, interrompendo a dança. Meus passos manchavam de roxo as linhas douradas.

“Eu sinto muito!” Me afastei envergonhado. “Não foi minha intenção!”

Ela fez “não” com o dedo e girou ambos os indicadores perto das têmporas.

“Isso foi lindo...” Fernando apareceu ao meu lado.

Ambos começaram a conversar de um jeito único. Fernando falava com ela com palavras, porém ela respondia com gestos e expressões faciais. Ele a elogiava e apontava alguns erros de desempenho no feitiço dela. Ela parecia não concordar, mas acabou sorrindo.

“Cauã, essa é Catarina Helena Silva Strauss.” A apresentou para mim. Ela franziu a testa e lhe deu um soco no ombro. “Isso significa ‘não use meu nome do meio.’” Riu. “Catarina Strauss. Catarina, esse é Cauã.”

Ela segurou a barra da saia e se curvou um pouco.

“É um prazer te conhecer. Você dança muito bem, é lindo.”

Ela sorriu para mim e então, com velocidade, voltou a sinalizar para Fernando.

“Claro, eu adoraria.” Respondeu tanto com as mãos quanto com palavras. “Um lanche de fim de tarde seria ótimo.”