Capítulo 11


Ambos me levaram para a área externa da casa onde havia uma bela área gourmet. O jardim atrás da casa era ainda mais impressionante do que o da frente. Haviam ainda mais flores e árvores, além de várias estátuas de belas pessoas.

Uma coisa me chamou a atenção. Além dessas estátuas, também havia aqueles monstros feitos de pedra. Diferente do que havia encontrado, eles eram feitos de mármore branco e estavam parados em pedestais, como se estivessem esperando para se mexerem. Muitos tinham vinhas e outras plantas subindo por seus corpos.

Além dos jardins, havia uma grande piscina.

Os dois serviram a mesa com vários doces, salgados, sucos e um bule de água quente. Eles conversavam descontraidamente. Percebi que não precisavam de muito para se comunicar. Ele falava normalmente enquanto ela conseguia responder apenas com poucos gestos e muitos olhares.

“Acho que depois dessa pequena introdução, podemos falar mais abertamente.” Fernando encheu uma xícara de água e colocou um saquinho de chá.

“Catarina é como nós?”

“Sim, ela é uma herdeira e uma Encantadora.”

“Ok... Herdeiros de uma deusa...”

“Sim, nós somos.” Ele tomou um gole. “Jaci, a deusa da lua, do amor e do encanto. Patrona dos artistas e das artes. Mãe dos Encantadores. Não literalmente.”

“Nossa, isso soa bonito.”

“E é. Jaci é... Difícil de explicar. As histórias falam de uma deusa extremamente poderosa que ajudou a moldar a existência e a humanidade. E, quando essa história de herdeiros começou, ela gerou... Nós, os Encantadores.

“E os outros deuses?”

“Bom, cada um criou o que achou que a Criação precisava. Os mais comuns são Guerreiros, Curandeiros, Domadores de Feras e Guias.”

“E o que nós fazemos... exatamente?”

Fernando e Catarina se entreolharam.

“Nada, basicamente. Jaci nunca nos deu uma missão, então só vivemos nossas vidas.”

“Só isso?” Perguntei. “Depois de ver minha amiga em ação, eu imaginei algo bem mais... impactante.”

“Acredite, nós temos nossa própria forma de poder. Além disso, nossa história é muito interessante.” Comentou. “Imagine os maiores artistas, os melhores cantores, pintores, escultores do Brasil. Todos Encantadores. Semana de Arte de 22? Jaci estava lá.”

“Isso... Na verdade é bem legal.” Admiti. “Mas... Por que existimos? Não só Encantadores, herdeiros em geral...”

“É uma pergunta complexa. Deuses tinham objetivos para herdeiros quando eles foram criados. Guerreiros nasceram para lutar e proteger, além disso, servir Dom Caiçara. Curandeiros para ajudar aqueles que não estão bem. Quando eles foram gerados, parecia um pensamento lógico. Os deuses não podiam tomar conta de tudo e de todos, daí os herdeiros. Mas nós nunca tivemos um objetivo claro.”

Catarina gesticulou alguma coisa.

“Eu adoro essa citação.” Ele admitiu respondendo.

“O que ela disse?”

“Encantadores nasceram do delírio febril de uma deusa louca.” Citou. “Adaptação livre.”

“Então não temos razão para existir?” Perguntei confuso.

Fernando bufou cínico.

“E alguém tem?”

Catarina pegou em minha mão e sorriu. Ela se virou para Fernando e gesticulou por algum tempo.

“Ela mandou dizer: Nossa razão para existir é encantar. É a voz que canta, os pés que dançam e as mãos que criam. Como a lua, iluminar a escuridão da noite.”

“Que bonito.”

“Ela tem um talento especial para isso.” Fernando sorriu para a moça. “Você precisa ler os poemas dela, são ótimos.”

Eu me servi de uma xícara de café. Demorei-me um segundo neles. Ambos eram poderosos de uma maneira que não imaginava ser possível. Eles eram diferentes de Allana e doutor Leonardo; mas só por que não estavam armados ou preparados para uma batalha, não queria dizer que eles eram fracos.

Pela primeira vez entendi o conceito de a caneta ser mais poderosa que a espada. Ambos pareciam implacáveis e totalmente confortáveis com quem eram.

“E onde eu me encaixo nessa história toda?” Perguntei.

“Bom... Eu acho que todos devem ter uma chance de se expressar. Serem quem são e quem desejam ser. Dentro dessa cidade, eu encontro todos os Encantadores que consigo e mostro a eles o nosso caminho. Nossa história.” Ele começou. “Alguns não acreditam e partem para sempre. Alguns aprendem o que lhes é conveniente e se vão. Mas os que ficam... Ficam.”

“E eu?”

“Bom, você quer ficar ou quer ir embora?” Perguntou como se fosse óbvio.

“Se eu for...”

“Muito provavelmente nós nos veremos de novo porque é a sina dessa cidade, mas não teremos qualquer ligação.”

“E se eu ficar?”

“Tudo que você quiser aprender... Tudo que estiver ao nosso alcance. É seu.”

“Por quanto?”

“Quanto tempo? Provavelmente uma vida inteira. Igual a um instrumento musical, treinamento constante pelo resto da vida.”

“Quanto dinheiro!”

“Dinheiro? Que coisa mais enfadonha! Aqui nós vivemos de encanto!”

“É, claro. Boa sorte pagando aluguel e gasolina com encanto.”

Ele riu de mim enquanto comia uma torta de morangos.

“Tenho outros meios de ganhar dinheiro. O que me dá liberdade para poder treinar vocês.”

“Treinar o que?”

“Bom, varia do que você pode fazer. Catarina vai te ensinar a arte do encanto, se tiver alguma magia, eu vou te ensinar alguns feitiços básicos. Se for um artista, feitiços de arte. E para ajudar numa briga... Feitiços de defesa.”

“Essas coisas existem?”

“Claro, o que achou que ia aprender? A tocar triângulo?”

Por um segundo tudo aquilo foi demais. Até senti medo. Achei que o máximo que ia conseguir fazer era fazer árvores florescerem, mas ele estava me oferecendo demais.

“Não quero ser grosseiro nem desprezar sua oferta, mas, por que tudo isso só por mim? Você nem me conhece.”

“Bom... Primeiramente ‘isso tudo’ não é só para você. Faz parte do nosso projeto. Mas para ser sincero, eu tenho algum contato com os deuses e Dom Caiçara mandou que eu tomasse conta de você.”

Senti-me um pouco desconfortável.

“E se eu começar... E quiser parar?”

“Você tem esse direito.” Ele me disse. “Mas você jamais conseguirá parar.” Avisou-me.

“Por que?”

“Alguma vez você já escutou uma música e achou que jamais conseguiria viver sem aquilo? Escutou até que se cansasse, mas continuou a ouvir? Ela te trazia memórias boas e más e ela era o jeito de se expressar para o mundo?”

“Sim...”

“Magia é o vício da alma. Assim como a música.”