Capítulo 14


Minha mãe havia adorado o presente de Allana. Aparentemente ela sabia da ideia e até ajudou a escolher o modelo. Eu e ela passamos a noite tocando nossas músicas favoritas, ela no piano e eu no violino.

Quando ela foi dormir eu continuei com meu pequeno concerto. Passei a noite em claro provando do meu mais novo vício.

Na primeira chance que tive voltei para ver Fernando. Parei de frente para o portão e toquei o interfone. O clique me indicou que alguém havia atendido, porém ninguém falou nada.

“Ah sim! Sou eu, Cauã!”

O portão se abriu e eu atravessei o jardim da frente. Na porta, Catarina já estava me esperando.

“Sinto muito, esqueci...” Disse um tanto constrangido.

Ela sorriu e fez um sinal que parecia ser um ‘não se preocupe’.

“Vim falar com o Fernando, ele está em casa?”

Ele me indicou a sala e sinalizou para que esperasse e então subiu para o segundo andar. Eu sentei no sofá enquanto apreciava a decoração. Sobre a mesa de centro havia vários livros sobre música, teatro e magia. Devagar peguei o do topo.

O título do livro era ‘Uso da Magia na Distorção da Realidade’.

Fiquei muito animado, porém meu ânimo logo morreu ao perceber que não era nada além de um livro de fotos. Como diabos eu posso ver magia se a foto não se mexe?

Uma ou outra era de Fernando e algumas de Catarina. Além deles, também havia uma de Marisol. As fotos eram absolutamente lindas, porém era difícil dizer o que estava acontecendo.

“Gostou do livro?” Fernando apareceu descendo as escadas.

Ele estava bem mais despojado do que da última vez que o vira. Agora usava uma regata preta com um símbolo de uma nuvem e um raio em prata e dourado. Estava de bermudas jeans sujas de tinta e descalço. Ainda usava os anéis e pulseiras. Além das que já tinha antes, também usava no alto do braço, acima e abaixo dos joelhos e no tornozelo. Começava a achar que não era por estética.

“Eu estava esperando outra coisa.” Admiti. “Um manual de instruções, por exemplo.”

Eu voltei para a foto de Marisol. Ela usava uma armadura tribal africana e estava com o cabelo muito longo, usando dreads adornados com peças douradas. Trazia um escudo e uma lança, em volta dela, várias leoas.

“Não sabia que você conhecia a Sol.”

“Ah sim... Somos velhos amigos. Ela é um amor de pessoa.” Então, deu de ombros. “Além disso, Brasília é um ovo. Todo mundo se conhece. Chamo isso de Convergência Brasiliense. É a teoria de que a cidade só tem três pessoas. Eu, você e um amigo em comum!”

Fernando parecia se divertir com sua teoria. Ele então se sentou ao meu lado pegando o livro.

“Eu adoro essas fotos.” Suspirou. “Bons tempos. Foi Catarina que tirou grande parte delas.”

“Jura?”

Ele abriu o livro em uma das últimas páginas e me mostrou a foto. Quase não o reconheci de cabelos pretos. A foto era ele e Catarina em finos trajes de festa em uma posição que deixava a entender que ambos estavam dançando balé.

Fernando, todo de preto, se misturava ao fundo escuro como uma sombra. Catarina, toda de branco, se destacava como um anjo. Abaixo da foto havia um pequeno texto sobre a autora, que era Catarina. Além disso, uma frase em letras garrafais: “O encanto no silêncio das palavras não ditas”

“Você fica bem de cabelo preto.”

“Eu lembro do pesadelo que foi isso. Catarina demorou um mês para me convencer a tingir de preto.” Ele riu. “Demorou meses para voltar a cor natural.”

Ele então olhou para mim com uma expressão de irritação.

“E o que está fazendo aqui?”

“Eu... vim treinar.”

“Bom, gostaria que tivesse avisado. Nosso horário é bem preciso.”

Fiquei um tanto constrangido.

“Espero não estar atrapalhando.”

“Sim, está. Mas não tem problema. Minha aula já acabou.” Fez sinal para que eu o seguisse.

Ele me guiou para um corredor ainda no térreo. Ele entrou no fim do corredor a esquerda para um belo escritório.

O pé direito era duplo e a minha direita, do chão até o teto, havia apenas livros. A minha esquerda, um painel que mostrava uma tempestade ao luar. Atrás da longa mesa que ficava no fim do aposento, uma parede de vitrais mostrando duas figuras dançando em meio a uma tempestade.

Ele se sentou atrás de sua mesa e me indicou uma das cadeiras. De uma gaveta ele pegou vários papéis e livros, além de uma prancheta. Pegou uma caneta igual à que eu havia ganhado de aniversário e se pôs a escrever.

“Catarina mora aqui?” Perguntei.

“Já tem algum tempo.” Ele me disse. “Ela terminou um relacionamento de muito tempo e estava sem lugar para ficar. Acabou vindo para cá e ficando.”

“Eu achei que vocês eram namorados.”

Ele me olhou com uma expressão de estranhamento.

“Isso até me soa errado. Não, Catarina é minha melhor amiga.” Ele voltou a escrever em seu caderno. “Além do mais, eu sou gay. E então, com o que começamos?”

“Eu não sei, o que sugere?”

Ele me estendeu um gráfico plastificado. Aparentemente devia fazer isso com muita frequência.

“Para nós, Encantadores, é importante estudar magia como um todo já que podemos fazer os três tipos principais.” A imagem eram três símbolos em círculo que se encontravam no centro e se expandiam para fora em mais símbolos e nomes.

“Ok, eu tenho magia!”

Ele olhou para mim com uma sobrancelha erguida.

“Eu sei fazer aquele negócio das flores! Que você fez!”

“Ah sim. Um truque bem simples. Isso é magia de realidade.” Anotou outra coisa em seu caderno. Percebi que estava fazendo uma lista abaixo do meu nome. “E arte? Você faz algo?”

“Eu sou músico e canto.”

“Ok. Legal. Mais alguma coisa?”

“Eu tenho sonhos estranhos com lugares, coisas e pessoas estranhas.” Respondi sem pensar.

Ele me encarou com seus olhos claros. Foi a primeira vez desde que havíamos nos conhecido que ele genuinamente parecia intrigado.

“Você conseguiria descrever algum?” Perguntou.

“Bom... O que eu mais tenho é de uma árvore, uma palmeira. Mas já não tenho a algumas semanas.”

“Quando teve esse sonho pela última vez?” Perguntou.

“Já tem algum tempo...” Parei para pensar. “Foram alguns dias antes de uma amiga minha entrar numa batalha com outros herdeiros...” Fiquei um pouco preocupado. “Algum problema?”

Sua expressão voltou a um sorriso.

“Nada demais. Por enquanto. Vamos voltar, sim?”

“Ok...”

“Para magia estou pensando em alguns feitiços de combate, feitiços artísticos e obviamente, encanto.”

“Ainda não entendi o que é esse encanto que tanto falam.”

“É um conjunto de feitiços vocais, motores e visuais que interagem com o psicológico e o emocional do alvo.” Explicou. Não imaginava que magia pudesse ser tão técnico.

“E funciona?”

Ele parou de escrever e olhou para mim de um jeito estranho. Seus olhos se curvaram em uma expressão de questionamento.

Para mim, ele parecia ter feito uma pergunta que era muito difícil de responder. Envolvia muitos sentimentos que a muito tempo não sentia, histórias que não queria reviver e memórias que já não fazia questão de lembrar. Ainda pior, me senti culpado por não senti-los, não revivê-las e não lembra-las.

Quanto mais ele me olhava, mais eu desesperadamente desejava responder aquela pergunta que nunca havia sido feita. Parecia que não conseguia chegar a uma resposta satisfatória e minha mente não conseguia se calar. Simplesmente não parecia possível.

Minha mente vagueou para os sentimentos anestesiados e lá ficou, junto com as histórias que considerava esquecidas e reviveu memórias que para mim estavam mortas.

Quando consegui desviar os olhos, percebi que estava chorando. De um aparador próximo a ele, serviu uma xícara de água quente e me preparou um chá. Senti-me grato por ele estar de costas, me deu tempo o suficiente para botar a cabeça no lugar.

“Não é nenhuma lança... Mas já me salvou várias vezes.”

Eu tomei um gole e esperei um pouco em silêncio. Fernando não pareceu se incomodar.

“Ok... Vamos trabalhar três vezes por semana. O que acha?”

Assenti em silêncio.

“Nós começaremos semana que vem, fechado? Dará tempo para você se preparar.”

“Tudo bem.”