Capítulo 16


Alguns dias depois da minha primeira aula de magia eu voltei a mansão para aprender sobre encanto. Admito que estava muito curioso sobre essa matéria.

Quando cheguei Catarina estava me esperando na sala de estar. Ela sorriu para mim e apontou para uma caixa sobre a mesa. Ela me entregou um cartão me desejando feliz aniversário.

“Obrigado! Não precisava!”

Na caixa havia um livro chamado ‘A Arte do Encanto’ e além dele, um belo relógio de pulso com um design inspirado nas fases da lua. Eu fiquei paralisado diante do relógio.

“Eu não posso aceitar! É muito caro!” Devolvi o relógio para ela.

Ela sorriu de um jeito gracioso e me deu uma piscadela. Então fez um sinal para que eu a seguisse. Eu tentei convencê-la a ficar com o relógio, porém ela me ignorava solenemente.

Nós voltamos para a Sala Vazia e meu queixo caiu. Ela havia sido transformada em um salão de festas. O piso era um mármore muito bonito e no centro do salão havia uma pista de dança de madeira. Ao redor dela, várias mesas. Uma música triste e macabra era tocada em um piano em um dos cantos da sala.

Além de nós havia dezenas de manequins que se moviam sozinhos. Eles trajavam finas roupas e realizam tarefas um tanto mecânicas. Um tocava o piano e todos os outros estavam sentados nas mesas ou dançando uma valsa robótica.

Quem os tinha feito, embora tenha feito questão de deixar claro que eram manequins, também havia deixado suas feições perfeitas. No caso, estavam todos entediados.

Catarina me entregou alguns cartões escritos com uma caligrafia fina e delicada. Ela parou de frente para mim e levantou o indicador, então bateu no primeiro cartão.

“Ok! Entendi! Cartão Número 1 – Aprenda Libras.”

Senti o rosto corar, ela, porém sorriu. Levantou dois dedos.

“Ok... Segundo cartão... Encanto é uma poderosa magia que trabalha com emoção.” Li em voz alta. “Esses manequins são receptáculos para emoção. Até que nós os preenchamos, eles são cascas vazias.”

Ela foi até um dos bonecos e fez uma expressão de raiva e um sinal com o punho sobre o peito.

“Raiva!” Ela assentiu.

Ela tocou no boneco. Os detalhes em seu corpo e roupas, que eram brancos, se tornaram vermelho escuro. O boneco se levantou com o rosto franzido e com um golpe, bateu na mesa com força. Ele então se levantou, quebrou um prato e se atirou contra uma parede, se desmontando.

Afastei-me assustado, pois não esperava aquela reação.

Ela levantou três dedos.

“Três... Nós podemos amplificar ou suprimir qualquer emoção existente. Nós, porém, não somos capazes de criar nenhuma emoção que o alvo já não possua.”

Catarina levantou o mindinho e o levou perto do rosto em uma expressão triste. Então tocou em outro boneco. Ele também se iluminou em vermelho. Esse, porém, começou a chorar.

Então tocou em dois que subitamente se puseram a brigar. Em pouco tempo ela havia tocado todos os bonecos. Ou eles estavam chorando, brigando, se despedaçando ou coisas piores. Vi um batendo em outro com a perna desmembrada de um terceiro.

Ela levantou quatro dedos.

“O encanto é a arma mais poderosa do mundo porque a emoção é a coisa mais poderosa do mundo. Com ele, não há ninguém forte o suficiente para nos parar. Nossos inimigos estão aos nossos pés...” Aquilo me entristeceu um pouco. Não queria ser uma arma.

Ela então me pegou pela mão e me sentou ao piano. Me incentivou a tocar algo. No piano havia uma partitura para ‘Mais uma vez (7)’.

Logo na primeira nota ela se pôs na ponta dos pés. Delicadamente ela caminhou para o meio do salão. Todos os bonecos pararam para olhar para ela.

Ela se pôs a dançar com extrema elegância. Catarina nem parecia tocar o chão. Ela flutuava pelo salão tocando os bonecos. Eles se erguiam e a seguiam para a pista de dança. Os bonecos se abraçavam, apertavam as mãos e vários começaram a dançar com ela ao som do piano.

Ela deixou a pista e, ainda dançando, veio até mim. Ela pousou as mãos sobre meus ombros. Lágrimas me subiram aos olhos quando senti a magia correr pelas minhas veias.

Era diferente do que Fernando havia feito comigo. Era bom, era gostoso. Senti o lado bom dos sentimentos que há muito tempo não sentia. As histórias que não queria reviver me foram contadas com beleza e alegria. Lembrei com graça de todas as memórias que um dia não fiz questão de lembrar.

Junto com tudo isso, me lembrei de todos os momentos com minha mãe. As viagens que fizemos, os verões na praia e das vezes que ela falava do meu pai com tanto amor. Lembrei-me de Allana, os domingos no parque, nossas aventuras e tantas horas gastas em livrarias e lojas de música.

Lembrei-me de cada música que toquei com alegria. Lembrei-me que essa vida tinha um lado bom. Um lado muito bom.

Eu parei de tocar chorando de felicidade. Ela fez um último sinal fechando a mão sobre o coração.

“Amor?”

Ela assentiu orgulhosa. Então contou cinco dedos.

Peguei o último cartão.

“Mas no fundo... Encantar é fazer a vida melhor.”

Eu deixei os cartões sobre o piano e lhe dei um abraço. Ela o retribuiu com uma força aconchegante.

Ela me levou para a pista de dança onde comecei a praticar alterar os sentimentos dos bonecos. Eu precisava de um controle muito grande das minhas próprias emoções para poder convencê-los a sentir o mesmo. Em um momento, eu coloquei raiva demais em um dos bonecos e ele simplesmente despencou no chão tendo espasmos.

A cada emoção que eu tentava, Catarina me ensinava o equivalente em Libras. Ela parecia tão feliz em eu fazer questão de aprender que quando eu fui embora, até me deu um livro sobre o assunto.



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Renato Russo - Mais Uma Vez

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