Capítulo 17


O avanço do fim do ano começava a intensificar a pressão das provas. Além das que tinha que fazer na escola, ainda tinha que estudar para inúmeros vestibulares, o PAS e o ENEM.

Fernando parecia se divertir com meu pequeno desespero estudantil. Tanto, que havia cancelado uma aula para que eu pudesse ir ao Porão do Rock. Ele disse que também estaria lá, pois era uma tradição com o seu pai e sua prima, uma tal de Ângela. Quando perguntei sobre ela, ele sorriu e disse para não me preocupar com ela, tampouco questionar sobre ela.

Eu e Allana chegamos cedo, tínhamos intenção de aproveitar o máximo de um dos nossos poucos dias livres.

Não demorou muito para acharmos Fernando e Sol. Ela sendo tão alta e ele de cabelos brancos se destacavam na multidão.

Fernando parecia outra pessoa. Por um momento consegui vê-lo como algo além de um professor. Ele sorria muito, gesticulava com movimentos angulosos e xingava bastante. Tudo isso, rindo alto.

Sol também parecia uma pessoa completamente diferente. Hoje ela também havia se entregado ao estilo roqueira. Das calças claras e rasgadas a jaqueta de couro preto. Havia vindo de salto alto, passando facilmente a marca de dois metros de altura e qualquer um de nós.

Allana logo foi se juntar a Sol, apoiando-se na amiga.

“Ora, se não é meu aluno favorito.” O sorriso de Fernando voltou ao tom profissional.

“Por favor, hoje não, Nando.” Sol o repreendeu. “Hoje é dia de festa!”

O Encantador riu e pareceu voltar ao seu tom descontraído.

“Ossos do ofício.”

“E então, Cauã? Como andam suas aulas?” Ela me perguntou interessada. “Já achou algum talento especial?”

“Na verdade, não. No momento estou tentando me concentrar em controlar magia antes de fazer qualquer coisa especial.”

Ela não pareceu satisfeita.

“E o que você acha disso, Nando? Você sempre teve um talento especial para achar gemas brutas.”

“Bom... Cauã tem um talento selvagem para Magia de Realidade. Um charme elegante para Encanto e uma preguiça desavergonhada para história.”

Não tive tempo para responder, o riso de Sol preencheu a conversa.

“Não se preocupe, Cauã, sei o quanto história é difícil.” Ela me confortou. “E eu sei do que estou falando, tive que aprender a nossa história e a Bantu. E minha avó ainda me levava para a igreja aos domingos. Imagine a bagunça que era minha cabeça!”

“Mas você também sabe a importância da história, não é?” Fernando perguntou para ela com um tom de seriedade na voz.

“Não use esse tom comigo, Nando! Você é quem tem que cativar seus alunos.”

Fernando suspirou derrotado, mas acabou rindo.

“Eu não consigo discutir com você, querida.” Sol lhe apertou a bochecha como faria com uma criança. “Se me dão licença, acho que vi um amigo, eu já retorno.”

Enquanto ele se afastava, Sol se aproximou.

“Não se preocupe com ele. Nando é rígido, mas é um bom professor. E eu seguiria o que ele diz. Ele está certo mais vezes do que eu gostaria de admitir.”

“Bom, eu gostaria que você me acompanhasse em minhas aulas. Gostaria de alguém para fazê-lo relaxar.”

“Ele já te fez mobiliar a Sala Vazia?”

“Já! Na verdade, eu achei bem legal!”

Subitamente algo me veio à cabeça.

“Sol, quem é a prima do Fernando?”

A expressão dela endureceu. Pareceu triste. Por fim, ela sorriu, embora os olhos contassem outra história.

“Não falamos sobre Ângela... Ela não está mais entre nós. Não se preocupe com ela. Além disso, não é saudável para Fernando se você continuar a fazer perguntas ou continuarmos a falar dela.”

Algo no tom dela deixou claro que era definitivo.

A expressão dela se transformou em um largo sorriso quando viu Fernando voltar.

Ele vinha conversando animadamente com outro rapaz.

Era um rapaz alto e magro. Ele era negro e usava óculos de aro grosso e um gorro vermelho, além disso, tinha um cavanhaque bem aparado. A camisa de flanela combinava com o gorro e na única perna usava uma calça jeans e no único pé tinha uma bota de bico fino.

“Marisol!” O rapaz abriu os braços.

“Muita audácia vir falar comigo com essa cara de pau quando não se dá ao trabalho de aparecer para o almoço de domingo!”

Marisol o levantou do chão em um abraço tão forte que lhe tirou o ar dos pulmões.

“Por onde você anda arrastando esse seu redemoinho, Samuel?”

“Arrastar meu redemoinho? Eu não saio de casa há semanas! Se eu não lembrar de levantar e esticar a única perna que Ami me deu, é provável que eu a perca!”

“Ok, mas o que todos queremos saber, saci.” Fernando o segurou pelo braço. “Em que pé...” Fez sua piada ser entendida. “Está o doutorado?”

“Bom, meu orientador está viajando há mais ou menos um mês, meu prazo está ali na esquina eu só chorei no banho três vezes essa semana. Está indo!” Embora risse, podia sentir uma nota de nervosismo em sua voz. “Mas não quero falar disso! Hoje é meu único dia de folga! Cadê seu pai? Ele vai tocar hoje?”

“Hoje não. Ele está em São Paulo em assuntos um tanto urgentes.”

Samuel pareceu realmente desapontado.

“Estava rezando para que ele aparecesse. Seria um ótimo show.”

“Não se preocupe, só aproveite.”

“Vamos, quero te pagar um lanche. Imagino que você não esteja comendo nada saudável esse últimos tempos.” Sol lhe disse.

Ela, Allana e Samuel se afastaram me deixando sozinho com Fernando. Admito que estava nervoso em ficar sozinho com ele em uma situação que não fosse uma aula.

“Que cara é essa?” Ele me perguntou.

“O que? Nada, não é nada.”

Ele sorriu para mim em uma expressão um tanto triste.

“Cauã, eu sou um mestre empatista. Eu consigo sentir o que você sente. No momento... Vergonha, desconforto, ansiedade e um pouco de raiva.”

“Isso é invasão de privacidade.”

Ele riu daquilo.

“Você está certo e eu peço desculpas. Mas quero que saiba que qualquer que seja seu problema, eu estou aqui para ajudar.”

Eu senti encanto em sua voz. Não era como quando ele tentava enfeitiçar algo, era seu puro desejo de ser sincero e ajudar.

“Eu só fico um pouco desconfortável... Você parece ter tudo no lugar... Parece saber tudo e ser tão confortável com quem você é! Eu me sinto um pouco inadequado.”

“Isso é porque eu gosto de ser quem eu sou. Dos cabelos brancos à magia colorida...” Abriu a mão e uma pequena bolha de luz brilhou entre azul elétrico e rosa choque.

Na minha cabeça, o assunto mudou com um clique.

“Eu sempre quis saber o porquê disso.” Fiz o mesmo feitiço. A bolha que formei era de um roxo denso e não mudava de cor.

Fernando abriu um sorriso de orelha a orelha.

“Entendi!” E saiu correndo. “Vem!”

Simplesmente obedeci. Nós atravessamos o evento e chegamos na praça de alimentação onde Samuel comia como se estivesse passando fome. Nós nos juntamos a eles sentados no chão.

“Eu disse que ele não estava comendo nada decente. Só açúcar e fritura.” Sol informou a Fernando com uma expressão de desaprovação.

“Eu não tenho tempo de cozinhar! E açúcar me faz trabalhar melhor”

“Sempre se tem tempo para se cuidar.” Rebateu a Domadora. “E não quero ouvir mais desculpas. Semana que vem vou passar na sua casa para ter certeza que você tem comida de verdade. Nada de besteiras!”

“Samuel, eu preciso de um fósforo.” Fernando pediu sentando ao lado dele.

O Saci enfiou a mão na bolsa e entregou a caixinha para o Encantador. No meio do movimento Sol interceptou sua mão.

“Você me disse que tinha parado de fumar!”

Samuel pareceu prestes a chorar.

“Doutorado...”

“Sol, agora não! Finalmente entendi como ensinar história para Cauã!”

“Hoje não! Nada de aulas nem de doutorado!” Sol bateu palmas como se chamasse atenção. “Vocês dois vão me deixar louca!”

“Você vai gostar dessa!”

Fernando pegou um dos longos fósforos e o acendeu. A chama era amarela, mas em um segundo, se tornou azul claro. Ele acendeu outro com a outra mão, essa era rosa choque.

“A magia é uma energia única. Cada pessoa tem uma forma de vê-la, entendê-la e utilizá-la. Isso se traduz em cor. Herdeiros com domínio mágico transcrevem quem são através da magia e de sua cor.”

“Agora sim eu gostei.” Sol pegou um fósforo e o acendeu. A chama se tornou muito laranja.

Meu fósforo se tornou roxo.

“E eles?” Perguntei apontando para Allana e Samuel.

“Allana é uma herdeira de Cacira. A magia deles é mais... Básica.” Sol explicou. “Tão básica que é imutável. Todo guerreiro tem a magia vermelho-sangue.”

“Samuel é um caso diferente. Primeiro, ele é um ser mágico. A magia deles é diferente. Mesmo que sejam herdeiros, a magia deles segue o padrão próprio da espécie deles.”

“E como é isso?”

Fernando sorriu de novo.

“Senta que lá vem história!” Disse alto. “Na Terceira Era da Criação a magia era algo que apenas os deuses tinham. Era uma energia infinita e capaz de praticamente tudo. Ami, o deus criador, detinha total controle dela e apenas cedia esse poder para aqueles que o ajudavam a criar o mundo. Essa é a Magia de Criação.”

Esse professor feliz e animado, sentado no chão e me contando histórias era muito mais interessante que o que me trancava em uma sala escura para discutir A História da Herança.

“Existia um receptáculo para esse tipo de magia. Precisava ser algo vivo e poderoso para ser capaz de conter tal poder. Ami criou um ser que carregaria a magia nas costas e que seria difícil de achar e pegar. Ele criou as araras vermelhas.”

“Araras? Elas são detentoras do tipo de magia mais poderoso da criação?”

“Eram. Aracema achou mais seguro que elas fossem transformadas em animais comuns, embora elas ainda tenham status de animal sagrado e divino.” Samuel me respondeu entre mordidas.

“Voltando... Tabaréu que possui poderes divinatórios viu que a magia precisava ser entregue aos mortais, mesmo que fosse proibido. Ele, então, entrou no plano mundano e foi ao covil das araras para roubar a magia dos deuses! Ele, sendo filho de Jaci e Iaé, sabia onde era o covil e sabia como burlar a segurança do lugar.”

“E onde é?”

“Agora é conhecido como Buraco das Araras no Mato Grosso do Sul.” Fez sinal para que eu me calasse. “Ele invadiu o lugar, escalou os paredões e achou uma caverna secreta feita pelo próprio Ami. Lá ele achou a magia. No caso, penas de araras.”

“Então a magia está nas penas e não nas araras?”

“Mas as penas estão nas araras.” Sol pareceu confusa. “Como isso não é a mesma coisa?”

“É isso que eu gosto de ouvir! Dúvida, discussão e debate!” Nos incentivou. “Mas vamos voltar!”

“Desculpe! Continue!”

“O animal é mágico. E a magia se manifesta na cor das penas das araras.” Explicou. “Tabaréu roubou um monte de penas e fugiu. Quando os deuses descobriram, já era tarde. Ele havia dado a magia para vários herdeiros e mandou que eles espalhassem a magia pelos quatro ventos.”

“E o que aconteceu?”

“Os mortais entenderam como usar magia e começaram a moldar a existência, a realidade e a criação assim como os deuses, mesmo que em menor escala. Cacira estava furioso. A história conta que ele estava para aplicar a justiça divina contra Tabaréu mesmo que fosse por cima de Jaci e Iaé. No fim das contas, Ami o impediu. Disse que ficou maravilhado com o que os mortais fizeram com a magia e não esperava que eles fizessem coisas tão incríveis com o presente de Tabaréu. Ele não o puniu e de presente, criou uma criatura como recompensa. No caso, as araras azuis.”

“E de onde sai a nossa cor?”

“Bom, as araras apresentam nas penas as três cores primárias e quando a magia caiu nas mãos dos mortais, a magia se moldou a quem a continha. Nossa cor é uma mistura de tudo o que nós somos e é essa cor que nos representa.”

“Mas por que você tem duas cores? E eu e sol temos só uma?”

“Isso é um caso excepcional. A cor da magia pode se alterar por diversos motivos. Ela pode, por exemplo, se tornar cinza por motivos de depressão, estresse comum e pós traumático além de vários outros problemas psicológicos ou físicos. Ou por alguma experiência pessoal; ela pode mudar momentânea ou permanentemente para a cor da magia de alguém pelo qual você esteja apaixonado. Ou por você ter tido alguma revelação ou epifania.”

“E o seu caso?”

“Bom... Eu tenho o que pode ser chamado de herança dupla. Minha magia é cor de rosa desde sempre. Mas minha outra herança, que é muito forte e poderosa, é azul elétrico. Eu posso escolher com qual delas eu faço magia e normalmente é a azul.”

Sol assoviou alto.

“E isso encerra a aula de hoje. O show começou!”