Capítulo 20


No dia seguinte, havia alguém esmurrando minha porta com força. Achei que seriam as tais pessoas poderosas que tanto falavam. Para minha surpresa era apenas Allana com uma expressão irritada.

Ao abrir a porta ela entrou sem cerimônia me bombardeando com perguntas e profanidades. Então ficou irritada e me deu um soco no braço.

“Por que está querendo estragar minha missão?” Perguntou irritada.

Droga. Detestava quando Fernando estava certo.

“Primeiro... Ái. Segundo, não quero estragar sua missão. Só quero ajudar.”

“Você ajudaria muito mais aqui, onde é seguro!”

“Eu consigo me cuidar sozinho.” Disse como se fosse óbvio.

“Claro. Acredito.” Aquilo a fez rir.

Ela passou por mim e se jogou no sofá.

“Vim tentar te convencer a não ir.”

Aquilo me partiu o coração um pouco.

“Nós estamos pesquisando e planejando essa missão tem muito tempo... Nossos inimigos estão dispostos a muita coisa para nós parar. Você viu! Primeiro os sequestradores e depois aquele golem!”

“Então por que você pode ir se é tão perigoso?”

“Essa é uma pergunta retórica, não é? Eu fui treinada a vida inteira para isso... Eu fui criada, feita e moldada para isso. Desde que essa história começou, eu batalhei muito para conseguir essa nomeação. E eu tenho medo que você possa se machucar.” Admitiu.

Nós ficamos em silêncio por um segundo. Ela parecia nervosa.

“Sabe o que eu percebi? Eu conheço tudo sobre você mortal, mas o que há para saber sobre a Allana herdeira?”

Ela sorriu ao ouvir aquilo.

“Você está tentando mudar de assunto?”

“Está funcionando?” Ela riu. Não importava o que dissesse, eu sabia que ela achava graça do meu sarcasmo.

“Eu sou filha das icamiabas.”

“As guerreiras?”

“Exato. Existem homens icamiabas, mas eles não assumem lugar na linhagem. Eles só aprendem o necessário para passar as tradições. Eles não participam.”

“Então seu pai é um icamiaba?”

“Precisamente. Ele e a mãe dele, a vó Lu, me ensinaram as tradições. Mas quando vamos comemorar uma festa, ele não vai.”

“Ele não se sente excluído?”

“Ele diz que as festas são chatas. Que só aprendeu por que não quis arriscar de me deixar de fora da linhagem. Ele diz que foi muito mais gratificante me ensinar a lutar do que me ensinar a esculpir muiraquitãs.”

Por um segundo me senti um tanto chateado. Eu não apenas não sabia quase nada da minha herança como não sabia nada da minha linhagem.

“Vó Lu me ensinou tudo que há para saber sobre a linhagem e papai me ensinou sobre nossa herança. Ele me ensinou o que é ser uma Guerreira, o que é ter o sangue da guerra.”

“Bom... Se você está tão preparada para essa missão, não tenho com o que me preocupar, não é?” Sorri cínico.

Ela ficou um silêncio por um segundo.

“Não é tão fácil assim... Eu queria que fosse, mas não é.”

“Não se preocupe, vai dar tudo certo.”

Ela não parecia convencida. Allana ainda me encarava com certo medo no olhar.

“Eu acho que você está se preocupando demais! Pelo que me consta, você sempre apareceu quando eu precisava!”

“É, mas isso não é quando a gente era criança e os meninos maiores implicavam com você!”

Embora parecesse irritada, ela sorriu ao dizer aquilo.

“Bom saber que os tempos em que eu apanhava no pátio da escola te trazem alegria.”

“Não é isso! É só... Esse tipo de coisa... Essas missões. Deixam você nostálgico. Sol fala que é por que a gente tem medo de não voltar.”

Ela riu de algo.

“Lembra quando nós éramos crianças e os garotos maiores mexiam com você por que você era muito menor que todos nós?”

“Eu não diria muito menor...”

“E eu lembro que era sempre uma bagunça por que você revidava e nenhum professor acreditava que você tinha alguma culpa e sempre saía ileso!”

Enquanto ela ria das histórias eu pensei em Catarina. Quando ela me ensinou sobre encanto.

“Não lembro dessas coisas. Especialmente das ruins. Na minha cabeça elas parecem histórias de outras pessoas.” Ela se calou ao ouvir aquilo. “Sabe do que eu lembro?”

“Do que?”

“De que eu sempre podia contar com você, independente do que fosse.” Ela voltou a sorrir ao ouvir aquilo. “E você sempre me defendeu quando eu precisei.”

Aquilo nos atirou de volta ao silêncio.

“E é por isso que eu quero ir. Eu acho que vou ser útil. Acho que vou poder ajudar. Vou poder te ajudar.”

“Eu não sei se vou poder te proteger dessa vez.” Ela me disse. “Para ser sincera, eu não sei se eu conseguirei me defender.”

“Acho que enquanto estivermos juntos, a gente consegue qualquer coisa!”

Ela me olhou com uma carranca.

“Isso não é especial de natal!” Ela se irritou. “Nós estamos indo para campo em uma missão super perigosa!”

“Ora, se você não está especialmente amarga hoje.”

Ela se levantou enfática.

“Você me deve um lanche!”

“Por que? Eu não fiz nada!”

“Porque além de eu ter que conseguir cumprir a missão, eu terei que assegurar que você volte vivo! E isso é stress demais na minha vida!”

“Acho muito justo.”