Capítulo 21


Não muito tempo depois da reunião, houve o primeiro encontro do time 3. Diferente do que eu pensava, tudo havia sido arranjado na casa de Fernando.

A casa havia virado um posto avançado. Haviam várias pessoas que não conhecia, não apenas guerreiros. Eles estavam ou de guarda ou debruçados sobre mapas e esquemas. Eles conversavam alto e riam descontraídos. Enquanto isso, eu tentava passar o mais despercebido possível.

Eu subi para a Sala Vazia, o único lugar que seria capaz de acomodar tanta gente. O ambiente havia sido completamente refeito. Parecia uma sala de conferências. Ela estava pelo menos quatro vezes maior do que deveria ser.

O piso havia virado carpete e amplas janelas deixavam luminosidade entrar. Havia uma longa e larga mesa com várias cadeiras e no fundo, um telão. Já havia várias pessoas na sala, algumas sentadas e outras tomando café em um canto.

“Ora, se não é meu Encantador favorito.” Sol me cumprimentou. Ela usava seu vestido blindado. Nas mãos, luvas de couro preto com longas garras metálicas.

“Só não deixe Fernando escutar, ele ficará com ciúmes.” Disse a ela.

Ela riu de mim e me deu um abraço forte.

“Onde está Allana?” Perguntei.

“Está ali conversando com um Caçador.” Apontou. “Mas estou mais interessada em você. Está bem? Preparado?”

“O melhor possível. Mas gostaria de alguém para conversar e não quero te atrapalhar. Você viu Catarina?”

A expressão de Sol endureceu um pouco.

“Você não verá muito de Catarina por aqui enquanto houver reuniões de missão.”

“Por que? Aconteceu alguma coisa?”

“Bom...” Ela escaneou a sala rapidamente. “Está vendo aquele cara?”

Ela apontou para um homem encostado em um canto tomando café. Ele parecia nervoso e olhava para todos os lados. Alguém tentava conversar com ele, porém ele não dava atenção.

“Aquele é Marcelo Carvalho. Artesão, herdeiro de Tabaréu e ex-namorado de Catarina.”

“Aquele é o cara que ela namorava?” Fiquei chocado. “Que ela acabou morando aqui?”

“O próprio.”

Detive-me nele por um segundo. Era alto e bonito. Tinha um cabelo curto de um castanho avermelhado. O rosto parecia feito para sorrir, porém ele trazia uma expressão de apreensão. Ele tinha os braços cruzados e as costas curvadas. Além disso parecia um pouco doente.

“Imagino que ele não quisesse estar aqui tanto quanto ela. Só que ele é uma peça muito importante no nosso time.”

“O que ele faz?”

“Ele é nosso psicólogo.”

Todas as conversas terminaram quando Roberto e Fernando entraram no aposento. Roberto parecia irado e embora falasse baixo, podíamos ouvir todas as terríveis coisas que falava para Fernando. O Encantador, porém, parecia escutar cada palavra como uma serenata e não insultos.

“Por favor, sentem-se. Vamos começar imediatamente.” Fernando anunciou.

Ele foi direto para o estrado e ligou seu projetor. Eu me sentei ao lado de Allana e de Sol, perto da ponta da mesa.

“Antes de começarmos, gostaria de informar que a chefia da Ômega3 foi substituída. A partir de hoje, todas as ações táticas e operacionais serão encabeçadas por mim e as ações de campo pela Capitã Allana. Marisol irá intermediar as duas partes.”

Um burburinho se espalhou pelo aposento.

“Perguntas, comentários ou traumas?”

“E você espera que nós aceitemos isso?” Roberto disse alto. “Todos sabemos que você só consegue assim... indicações! Filho de alguém, amigo de alguém! Nunca por mérito próprio!”

“Alguns poderiam dizer que fazer amigos é um mérito.” Fernando debochou.

Antes que Roberto pudesse voltar a gritar, Fernando o calou.

“Vamos ser práticos, sim? Ou você senta e agrega a esse time como o excelente Caçador que você é, ou você se retira e acerta suas contas com quem quer que seja seu superior. Além de você, qualquer um que tiver problemas comigo, está convidado a fazer o mesmo.”

Sem esperar por qualquer pronúncia, se voltou para seu projetor.

“Hoje é dia 13 de Novembro.” Escreveu no quadro branco ao lado da tela do projetor. “Precisamos de uma data para a expedição. Vamos precisar de mais ou menos um mês para preparar todas as expedições. Além disso, mais uma ou duas semanas para dar tempo dos que estiverem no colégio prestarem seus respectivos vestibulares e provas de fim de ano com o mínimo de paz.”

“Isso é um absurdo!” Roberto voltou a gritar. “Estamos falando da existência como a conhecemos! Se Paba acabar com Y’asai não haverá vestibulares para serem prestados! A parada aqui é o bem maior!”

“Querido, só por que você não passou no seu, não quer dizer que eles são obrigados a se contentar com mediocridade.”

Várias pessoas na sala tentaram abafar o riso, muitos, como Sol, não foram capazes de tanto. Roberto parecia incapaz de aguentar mais um segundo daquilo. Ele levantou e se retirou.

“Graças a Jaci. Talvez agora consigamos terminar isso.”

“Ando acompanhando os calendários lunares e as cartas solares.” Uma moça loira se levantou. Usava um fino blazer e trazia o cabelo amarrado em um apertado rabo de cavalo. “Talvez o ideal seja próximo do Alvorada de Aram. O solstício de verão.”

“Por favor, continue.” A moça pareceu um pouco surpresa, mas continuou.

“Bom... A magia de Aram estará no auge perto do solstício. Isso fortalece, por tabela, Dom Yasa’i. Além do mais, ficará mais difícil para Paba e Abaçai usarem feitiços sombrios contra nós.”

“É uma excelente ideia.” Afirmou.

“Acredito que conseguiríamos aumentar nossos disfarces se nos misturarmos a caravanas de viajantes. As estradas perto de feriados estão sempre cheias e movimentadas.” Allana constatou.

“Ótimo, parece que estamos chegando a algum lugar.”

Nós passamos o resto do dia planejando nosso caminho até Manaus. Toda vez que guerreiros e caçadores falavam de medidas de proteção e outras coisas do gênero meu estômago apertava. Começava a pensar que talvez não fosse uma boa ideia.