Capítulo 23


Ao início de dezembro, Fernando havia liberado cerca de uma dúzia de pessoas da equipe para prestar provas e vestibulares. Foi um verdadeiro alívio, pois eu já começava a sentir o peso das provas.

Allana estava muito pior. Parecia prestes a bater na primeira pessoa que lhe perguntasse alguma coisa. Fernando e Sol pareciam capazes de controlar seus ânimos com certa elegância, o que o resto de nós agradecia sempre que era possível.

Após as benditas provas, Fernando retomou os planejamentos e treinos com ainda mais intensidade. Com um pouco de esforço, conseguimos finalizar tudo antes da grande festa que Catarina estava montando na casa.

Aparentemente a festa era uma tradição que Fernando gostava de seguir. Era a mistura de uma coisa chamada Alvorada de Aram e Natal e era feita na noite do Solstício de Verão.

Ao chegar para a festa eu fiquei em choque pela decoração. Do dia para a noite a casa inteira havia virado um paraíso natalino. A decoração cara e elegante havia voltado e no canto da sala havia uma enorme árvore de natal. Alguns convidados circulavam pela sala em finos trajes. Havia ternos e vestidos longos além de túnicas, armaduras de gala e outras roupas que nunca havia visto.

Ao subir para a Sala Vazia, ela havia virado um salão de baile ainda maior do que no dia que aprendi sobre encanto. Era uma sala muito alta com lustres de cristais pendendo do teto e um elegante piso de mármore branco.

No fundo da sala, em um lugar de honra, havia pendurado na parede um curioso trabalho de arte. Era um círculo perfeito feito inteiramente de incandescentes penas vermelhas, laranjas e amarelas. Ele parecia iluminar o local com uma luz quente e dourada. Eu não conseguia olhar para ele por muito tempo. Subitamente entendi que era uma homenagem a Aram, o deus do sol. Abaixo do aro havia um altar baixo onde havia dezenas de oferendas.

A sala estava cheia de gente e música. Nas laterais havia várias mesas e no centro uma pista de dança que já estava ocupada.

Entre várias pessoas um anjo se iluminou. Era Catarina. Ela usava um longo vestido branco e no cabelo loiro, um adorno que parecia uma auréola. Embora estivesse linda, a expressão era de nervosismo.

“Você está bem?” Fui até ela.

Seu olhar encontrou com o meu e ela abriu um sorriso. Ela sinalizou algo que entendi como ‘encontrar’ e além disso, soletrou um nome que não entendi. Seus sinais estavam muito rápidos e erráticos e para piorar, não fazia nenhuma expressão que não fosse nervosismo.

Quando ela percebeu que não havia entendido, ela apontou para alguém. Era Marcelo, seu ex-namorado.

“Ok. Entendi.”

Quando ele a viu e veio em nossa direção, ela se despediu com um aceno displicente e foi para o outro lado do salão.

“E o que achou?” Fernando apareceu atrás de mim.

Ele trajava um fino e bem cortado terno e vinha de braços dados com Marisol, que usava um longo vestido azul com pequenos detalhes em cores quentes. Além disso, várias joias coloridas e um turbante que tinham um ar africano.

“Está tudo lindo!” Admiti. “Você se superou.”

“Não posso levar o crédito. Com tantas coisas da Ômega3, essa festa seria impossível sem Catarina.”

“Sendo assim, será para ela o meu apreço. É de fato, uma festa memorável.” Alguém nos abordou.

Parecia ter apenas uns trinta anos, porém seus olhos aparentavam ter séculos. O homem usava um belo terno azul marinho com uma gravata borboleta e trazia na mão uma taça de Martini.

Era muito bonito e sua expressão era serena. Ele tinha a pele morena e os olhos muito escuros. Embora sorrisse com os lábios, não sorria com os olhos.

“Como sempre, é um deleite ser convidado, Fernando. Poucas pessoas mantêm essa tradição. Ami bem sabe que, se pudesse, minha mãe teria se livrado dela séculos atrás.”

“É sempre um prazer tê-lo como convidado.” Fernando se curvou um pouco. “Cauã, permita-me apresentá-lo a Dom Tabaréu.”

Lembrava-me quem ele era. O deus dos sonhos. Filho de Jaci e Iaé. O deus que roubou a magia para os mortais.

Agora que prestava atenção, ele não poderia ser nada que não um deus. A forma de se portar, era única. Um mortal não conseguiria andar com uma postura tão perfeita.

Além disso, ele desprendia uma energia avassaladora. Era como se ele me chamasse para adormecer. Diante de seus olhos eu começava a sentir sono e meus olhos pesavam. Começava a sentir dificuldade de não apenas permanecer acordado, mas também de pé.

Fernando, discretamente, me beliscou com força no braço, me trazendo de volta a realidade.

“É um prazer conhecê-lo.” Estendi a mão.

O deus olhou para minha mão e sorriu sem retribuir o gesto.

“Cauã Volture de Aguiar...” Me olhou com interesse. “Espero que esteja preparado.”

“A única coisa para a qual não estou preparado é para dançar. Eu vim com os sapatos errados para a ocasião.”

Ele riu da minha petulância.

“Eu gostei de você.”

“Eu sou uma pessoa agradabilíssima. Minha mãe me adora.”

Ele tomou um gole de seu drink. Percebi que não era uma azeitona mergulhada na bebida, mas uma esfera brilhante que borbulhava devagar.

Dom Tabaréu pegou o palito e comeu a pequena estrela.

“Você desperta em nós um certo.... interesse. Esperamos grandes coisas de você, Cauã. Não nos desaponte.”

A taça em sua mão desapareceu e ele olhou para Fernando.

“Suponho que ainda saiba dançar?”

“Acredito que seja o tipo de coisa que não se esquece de verdade.” Fernando sorriu e o acompanhou até a pista de dança me deixando com Sol.

“Ele é uma pessoa estranha.” Disse.

“E qual deus não é?” Ela deu de ombros. “E eu tomaria cuidado com esse aí. Não duvido que ele queira te incluir na lista de conquistas mortais dele.”

“E é uma lista grande?”

Fernando fez um sinal para a banda que se montava num canto. Eles começaram a tocar um animado tango que ele e Dom Tabaréu se puseram a dançar.

“Se incluir eu e Fernando...”

Olhei para ela com um sorriso cínico.

“Dom Tabaréu sabe ser... cativante.” Ela sorriu me estendo o braço.

“Bom, ele até que é charmoso.” Admiti lhe tomando o braço e indo de encontro a Allana.

Quando olhei de novo para a pista de dança, Catarina estava muito mais tranquila e alegre. Ela dançava uma valsa tranquila com Marcelo.

Embora a dança não combinasse com a música, ambos pareciam absolutamente felizes.