Capítulo 26


Finalmente era dia da partida. Faltava apenas uma única coisa a fazer. Uma cerimônia que Fernando e Sol disseram ser imprescindível.

Na Sala Vazia havia todas as pessoas do Alfa e Ômega 3, além de alguns outros curiosos. Vi num canto Catarina e Marcelo um tanto próximos. Eles pareciam mais confortáveis perto um do outro.

Catarina havia encantado a sala de novo. O piso era de pedra portuguesa preta, vermelha e branca que desenhavam belos padrões geométricos pelo chão. Ainda estávamos entre quatro paredes, porém não havia mais teto, o vento externo soprava forte o suficiente para nos arrancar do chão.

No centro da sala havia uma enorme fogueira que devia ter labaredas mais altas que três ou quatro metros. Além da fogueira, bandeiras presas nas paredes e ao chão em mastros altos bruxuleavam ao vento. Os brasões eram uma lua prateada em um fundo azul e asas de vespa vermelhas no fundo preto.

Allana estava com Sol, ambas trajavam armaduras completas.

Toda a cena parecia meio macabra, porém eu me senti muito bem.

“Deuses, não esperava fazer isso de novo.” Fernando deu de ombros. Enquanto conversávamos, Sol veio até nós com um sorriso de animação.

“Quantos anos fazem que você não passa por isso?” Ela perguntou para Fernando.

“Alguns.” Admitiu. “E sabemos como aquilo terminou.”

“Não se preocupe. Tenho certeza que Cauã se sairá bem.” Ela piscou para mim.

“Vamos começar, o caminho é longo e temos muito o que fazer.” Fernando sugeriu.

Sol voltou para Allana enquanto Fernando se preparava. Batendo as palmas juntas, ele chamou atenção com um estrondo de trovões.

Todos se aproximaram da fogueira.

“Aos que se lançam aos ínvios caminhos do destino, nós os honramos.” Fernando se aproximou da fogueira.

Eu e Allana pegamos nossas bandeiras.

“Diante do Início, o Fogo Sagrado e Guardião da Casa, nós pedimos por proteção. Que sua chama ilumine até o mais escuro dos caminhos.” Continuou.

Dentro da chama, eu via algo. Era Caiçara, esperando. Ele parecia muito feliz em estar ali. Ainda usava roupas despojadas e suas tatuagens brilhavam intensamente.

Fiz o que Fernando me ensinou. Levei minha bandeira até a fogueira a finquei dentro das chamas. Senti o fogo lamber meus braços e mãos. Não me queimei, na verdade, pareceu encher meu corpo de bom calor.

Lembrei do que tinha que fazer. Pedir proteção, força e coragem. Os olhos de Caiçara brilhavam mais do que as chamas que o cercavam.

Eu e Allana nos afastamos da fogueira devagar.

Uma lavareda vermelha se soltou da fogueira. Ela voou até meu braço direito e se transformou em uma fina e longa tira de couro marrom que se enrolou em meu braço. Junto com a pulseira, uma marca vermelha apareceu em meu antebraço. Parecia uma única chama solitária queimada em minha pele.

“Aos guerreiros que de peito aberto se atiram aos perigos da jornada... Eu lhes desejo sorte.” Caiçara sorriu. “Jamais esqueçam que enquanto o fogo continuar aceso, sempre haverá esperança.”

Caiçara sorriu para nós e foi consumido pelas chamas assim como as bandeiras. Não sabia se havia acabado, porém Allana parecia satisfeita. Eu por outro lado comecei a sentir uma pontada de medo.

“Ainda dá para desistir.” Ela me disse.

“O medo bateu, foi?” Sorri para ela.

“Vamos, pequenos, já está na hora de ir.” Sol nos guiou para fora.

Toda a comitiva se dirigiu para a frente da casa de Fernando onde um enorme jipe vermelho sangue nos esperava.

“Onde conseguiu esse carro?” Sol perguntou para Fernando.

“Padrinho Cacira me emprestou. Contanto que vocês devolvam, ficará tudo certo.”

“Não posso prometer nada.” Ela deu um sorriso cínico.

Fernando me puxou para o lado enquanto Sol e Allana enchiam o carro com as malas.

“Você ainda tem tempo para ficar.” Ele me disse.

“Vocês estão combinando entre si para me fazer desistir?”

“Não posso dizer que não estou preocupado.”

“Relaxa, vai dar tudo certo. Allana estará comigo.”

Ele remexeu nos bolsos do sobretudo e tirou um apito feito de prata.

“Para emergências.” Ele me entregou. “E quando digo emergência, eu quero dizer uma das sérias. Allana vai saber como usar.”

“Obrigado. Alguma dica extra?”

“Volte vivo.” Sorriu.

“É uma ótima dica. Muito obrigado. Vou guardar essa para o resto da minha vida.”

Eu botei minha mala no carro e entrei no banco de trás.

Enquanto saíamos via o quão preocupado Fernando estava.

“Não se preocupe, pequeno, vocês se sairão bem.”