Capítulo 27


Já faziam muitas horas que estávamos naquele carro. Eu simplesmente não aguentava mais. Minha mente divagou para a flauta de Cacira. Eu a tirei da mochila encantada para estudá-la. Embora já tivesse feito, não me cansava de repetir minha constante inspeção.

Era um trabalho absolutamente lindo. Ela era de prata com detalhes em azul escuro. Na lateral havia uma gravação de ponta a ponta com nove fases da lua, sendo a central, a lua cheia, uma safira redonda.

A flauta não tinha chaves, apenas buracos. A única coisa que era diferente de uma flauta de verdade era que perto do bocal havia um estranho botão, também uma safira. A única coisa que ele fazia era fechar todos os buracos de uma vez.

“Sol?” Chamei.

“O que foi?”

“Fernando disse algo sobre Cacira... Sobre se adaptar à realidade. O que isso significa? De verdade.”

“É uma ótima pergunta. Primeiro entenda que muito do poder de um deus varia da própria existência.”

Eu olhei para ela pelo retrovisor. Acho que minha expressão de confusão foi tão grande que ela começou a rir. Embora estivesse tendo aulas com Fernando, tópicos teóricos ainda eram muito complexos para mim. Além de tediosos.

“Vamos de novo. O deus da guerra tira o poder dele da violência, da guerra de da barbárie. Enquanto isso, a deusa do amor tira seu poder dos amantes, das canções e das declarações.”

“Ok, agora sim faz sentido.”

Ela riu de novo.

“Muitos desses aspectos derivam de nós, humanos. A guerra e o amor, por exemplo. Isso quer dizer que nós continuamos alimentando a força desses deuses... O problema é quando nós paramos de acreditar neles.”

“O que acontece?”

“Bom, é a grande questão que estamos enfrentando. O que acontece quando os mortais não geram o poder que os deuses precisam? Eles são esquecidos.” Aquilo me arrepiou a espinha. “Eles deixam de existir em forma física. Deixam de interagir com o mundo.” Ela explicou.

“Os que não são esquecidos se modernizam por que a energia que geramos é moderna.” Allana completou o raciocínio.

“Então Cacira sobreviveu por causa de todas as guerras que aconteceram?”

“Basicamente... Mas não apenas isso. O que mantém Cacira de pé é o desejo do homem por violência. Pela batalha e pelo combate.” Sol continuou.

“Ok... Mas por que ele está tão estranho?” Allana perguntou. “Eu conheço essas histórias desde criança e nenhuma delas dizem que ele está... Daquele jeito.”

“Você nunca havia conhecido Cacira, não é?” Allana negou a pergunta. “Eu já. Ele não está exatamente estranho, só entediado. Pelo que Fernando me contou, ele está assim a pelo menos uns sessenta anos.”

“Ok, então quer dizer que em algum momento ele não esteve.”

“Sim, claro. O problema de Cacira é que ele é alimentado por uma energia altamente poderosa que ainda existe em grande quantidade, mas que não é... comum. Ele é basicamente um guerreiro sem uma guerra para lutar. Está entediado.”

“Quando foi a última vez que ele pode ser... Ele. Inteiramente.”

“Bom... Fernando estima... 6 de Junho. 1944.”

Aquele número ficou rodando em minha cabeça, porém não me lembrava o que era.

“Ele estava lá?” Allana se espantou.

“Não só ele. Cacira arrastou Ya’wara e Beraba-Cunun. Além deles, Aracema estava muito disposta a lutar. Ela, porém, não estava no front.”

“Isso foi durante a guerra, não foi?” Perguntei.

“Sim, foi o Dia-D. O Desembarque na Normandia. Existem alguns registros históricos de um soldado que foi a batalha com uma lança na mão. E enquanto ele estava no front com os outros, Aracema estava em outros cantos.”

“Então ele ainda vai para batalhas?” Perguntei.

“Ele é a guerra. Onde tiver combate ele estará lá. Fernando me contou... Segunda Guerra Mundial, Canudos, Farrapos, Guerra do Paraguai...”

“Agora entendi.” Allana concluiu. “Um deus entediado é capaz de fazer loucura.”

“O que leva um deus a se modernizar?” Questionei.

“Varia muito. Dever a cumprir com a criação... Pessoas ainda adorando-os... Existem vários motivos. Existem alguns que não tem motivo para estarem acordados, mas outros deuses o mantém acordados.”

“O pai de Fernando está acordado?” Perguntei.

“Ah sim. Beraba-Cunun. Ele é o melhor amigo de Cacira. Mesmo que quisesse ser esquecido, Cacira não deixaria. Os dois aprontam juntos pela existência há alguns milênios.”

“E a mãe da sua linhagem?”

“Sim... Aracema. Firme e forte. Ela nunca vai ser esquecida. É teimosa demais. Além disso, é muito venerada.”

“O que ela estava fazendo enquanto Cacira e os outros estavam no front?”

“Pelo que falam estava se preparando para a Liberação de Paris, além de ajudar os soviéticos com os campos de concentração. Ela tem algo que é difícil de explicar... Enquanto Cacira é capaz de gerar soldados, ela consegue gerar rebeldes. Lutadores da liberdade. Ela inspira esperança.”

“Como a deusa dos animais consegue isso?” Perguntei. “Afinal... Esperança não é um sentimento humano?”

“Ora, ela é humana, não é? Mas ela também é um animal.” Deu de ombros. “Ela é ambas as coisas. Ela não deixa de ser um animal por ser humana, tampouco deixa de ser humana quando é um animal. Ela é ambos da forma única que ela é.”

“E qual a história dela?”

“Fernando não te ensinou isso? Ela é uma deusa muito importante. Ela é uma das mais velhas do panteão.”

“Eu não estava prestando atenção.” Respondi sério. Ela e Allana riram.

“Bom, ela nasceu na Primeira Era da Criação. Nos tempos antigos, Aracema recebeu o título de ‘As Asas da Liberdade’ por que ela não residia com os outros deuses, não se afiliava em guerras e vivia uma vida livre na natureza.” Sua expressão endureceu. “Mas esse título só se tornou real quando a modernidade se instaurou.”

“O que aconteceu?”

“Escravidão e extermínio. De humanos e animais. Ela devotou a existência dela a libertação. Não importava onde isso a levasse, ela estava pronta para lutar.” Ela então riu. “Ela gosta de dizer que além de incentivar as várias leis contra escravidão, ela também incentivou a Princesa Isabel a assinar a Lei Áurea.”

“Ela parece legal.”

“Ela é um amor. É uma mãe. Mas mais importante que isso... Ela nos deu força, nos deu esperança! Ela nos deu presas e garras para não precisarmos nos submeter! Ela ensinou a nós, Domadores, a única maneira de viver. Viver livre. Livre para ser quem é, para amar quem quiser. Para ir e vir. Livre para existir e criar. Porque é melhor morrer de asas abertas do que viver em uma gaiola.”

Deixei que aquela história assentasse em minha cabeça. Aracema com certeza era alguém que gostaria de conhecer.

“Sol?”

“Diga.”

“Quando voltarmos, posso ter aulas de história com você? As suas são bem mais legais que as do Fernando.”