Capítulo 32


A longa viagem de carro já havia se tornado muito cansativa. Rafael e Allana passaram o caminho inteiro conversando. Eles pareciam até se afeiçoar um pouco. Eu, por outro lado, já estava pronto para ir para casa se pudesse.

Minha mente divagou para minha mãe e Vitória. Eu gostaria de mandar mais mensagens para elas, porém Fernando disse que era perigoso demais. Tínhamos que viajar o mais incógnitos possível.

Chegamos em Comodoro logo no final da noite. Ficamos em um pequeno hotel que não pareceu estranhar nossa chegada tão tarde.

Nosso quarto era apenas uma cama e um sofá. Seria o suficiente para dormirmos até o dia seguinte.

Rafael e Allana fizeram as rotinas de vigia até a manhã seguinte. Eu acordei com Allana assobiando.

“Escutem vocês dois.” Disse séria. “Fernando acabou de me atualizar. O barco da Alfa5 foi atacado perto da Ilha da Queimada Grande e a Alfa4 teve problemas técnicos ainda em São Paulo. Para manter o padrão de movimentação, vamos passar o dia aqui.”

“Mas... Você acha isso seguro?” Rafael perguntou.

“Não é a melhor opção, mas pelos padrões que estão se apresentando, não vamos passar nenhum problema. Só precisamos ficar atentos. Não sairemos desse quarto e faremos todas as refeições aqui. Entendido?”

“Sim, senhora.”

A manhã se arrastou preguiçosa e sem graça.

Agora que havia lido o manual de instruções, eu havia aprendido o que a mochila era capaz de fazer. Ainda não fazia sentido, mas havia aprendido a usá-la. Estava começando a aceitar que havia certos aspectos dessa existência que não valiam a pena serem entendidos.

Uma das coisas que ela tinha era um inventário que dizia tudo que ela guardava. Várias das coisas Fernando havia deixado para mim.

Puxei a palheta que Sol havia me dado do braço e saquei o violão da mochila encantada e comecei a tocar distraído. O instrumento havia sido um dos presente de Fernando para mim. Ele havia guardado na mochila uma seleção de instrumentos mágicos que ele achou que seriam úteis. Além da flauta, havia esse violão e um outro violino, além de várias outras coisas.

Rafael amolava um machado de batalha enquanto Allana estudava os mapas que Fernando havia mandado para ela.

“Ei, Encantador.” Rafael me chamou. “Como entrou nessa? Aposto que deve ter muito poder para conseguir uma vaga nessa missão.”

“Eu... Na verdade acabei caindo sem querer.” Dei de ombros. “Tenho alguma ligação com Yasa’i e me ofereci para vir. Acho que posso ajudar.”

“Achamos que deva ser uma daquelas heranças apagadas. Um antepassado deve ter sido um herdeiro de Yasa’i. A herança acabou mas a ligação ficou.” Allana explicou.

Ele pareceu satisfeito com a resposta. Não disse nada enquanto voltava a amolar o machado.

“E você? Qual sua história?” Allana perguntou para ele.

“Nada demais. Família de Pescadores, herdeiros de Iguatemi. Minha mãe morreu quando eu tinha uns treze anos. Vivi com meu tio até ter uns dezesseis. Daí virei nômade. Trabalhando para quem quisesse me pagar.”

“E então encontrou Ya’Wara?”

“Exato. Nós fizemos uma missão juntos lá pelas bandas de Imbé, no Rio Grande do Sul. Daí ela precisou de mim de novo para um trabalho com tubarões em Recife e acabamos virando amigos.”

“Quem é Ya’Wara mesmo?” Perguntei.

“Você não sabe quem é Ya’Wara?” Rafael perguntou chocado.

“Eu sou meio novo nisso... Meu treinamento estava sendo mais em magia. Ainda não aprendi tudo sobre os deuses. Sinceramente não fazia muita questão. E quando essa missão começou, não tive tempo de ver tudo. Eu lembro que ela tem algo com mães e que é amiga de Cacira.”

“Sim, Ya’Wara é uma deusa guerreira.” Allana disse. “Mas é mais conhecida como deusa da maternidade. Protetora das mães, moças grávidas e coisas do gênero. Além disso, tem o título de mãe de todos os herdeiros. Ela é quem juntou todos nós para deter Paba. Ela faz isso tem... mais de um século. Todos os herdeiros a veneram.”

“Eu tenho uma pergunta.” Rafael abandonou o machado. “Se você é novo nisso... Você já teve a Epifania?”

Allana também pareceu interessada.

“O que é isso?”

“É difícil de explicar, cada um vivencia de um jeito. Mas é a primeira vez que seu patrono aparece para você. E isso abre uma nova gama de possibilidades. Geralmente acontece quando se é criança ou adolescente com uma grande festa. Mas se você nunca teve ninguém para te mostrar o caminho...”

“Isso parece... Muito legal.”

“Eu ainda lembro da minha... Pintada com o sangue do inimigo caído... Vestida com os trapos das bandeiras de exércitos vencidos... Coroada por Cacira com os ossos flamejantes de heróis mortos... ”

Rafael olhou para ela com uma expressão séria.

“Você me dá muito medo.”

“Esse brilho é meu e ninguém vai tirar.9” Cantei para ela.

“Exato.” Sorriu. “E como foi a sua?”

“Eu nadei em um rio.”

Allana franziu a testa.

“Como assim?”

“Iguatemi, deusa dos rios... Eu só nadei em um rio com ela.” Deu de ombros. “Mas lembro de ter caído de uma cachoeira e me dissolver em espuma...”

“Ora, se não é nossa pequena sereia!” Allana riu dele.

“Ok! O que eu preciso fazer? Para ter isso.”

“Varia de cada linhagem. Os Guerreiros costumam fazer uma festa com tambores de guerra e um corte para pintar o corpo com sangue.”

“Nossa, que... legal...” Rafael disse um tanto sarcástico.

“O que vocês fazem?”

“Considerando que não somos bárbaros... Nossa cerimônia é deitar em água corrente e com o tempo acabamos entrando num tipo de transe de afogamento.”

“Por que isso realmente é muito melhor...” Disse sarcástico. “E aí, o que tenho que fazer?”

Os dois se entreolharam nervosos.

“Eu não faço ideia como acionar a Epifania de um Encantador...” Allana disse. “Só aprendi a provocar em Guerreiros.”

“E eu em Pescadores.”

Por um segundo fiquei um tanto desapontado. Realmente era algo que eu queria tentar.

“Quer saber, vou ligar para Fernando agora. Ele saberá o que fazer!” Allana disse.




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IZA - Esse Brilho é Meu

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