Capítulo 5


Havia demorado alguns dias até que minha mãe permitisse que eu voltasse para a escola. Ninguém parecia ter se incomodado com meu sumiço. Não me importei com isso, a única pessoa que me interessava era Allana. Ao me sentar em meu lugar, por algum motivo, ela estava sentada do outro lado da sala.

Ela me deu um aceno e mandou um beijo, porém nada além disso.

Durante o dia inteiro ela havia conseguido se esquivar de mim. Durante todas as aulas, trocas de professores, laboratórios e até durante o intervalo. O único momento que consegui encurrala-la foi durante a saída. Ela não estava mais de óculos.

“Ei! Você parece ótimo!” Ela sorriu. Parecia que não havia nada de errado. “Bom para você!”

Ela desviou de mim e continuou andando.

“O que está acontecendo?” Perguntei.

“Nada de mais, alguns problemas em casa, Vó Lú está doente, no hospital, coitada. E eu estou com uma baita cólica.”

“Então você vai mesmo mentir sobre o parque?” Perguntei.

“Mentir sobre o que?” Pareceu surpresa.

“Sobre aqueles caras, o cachorro e os olhos vermelhos!”

Ela pareceu genuinamente confusa e até preocupada.

“Cauã... Os velhos olhos vermelhos enganam...
Por que se preocupar por tão pouco?
Por que chorar
Se amanhã tudo muda de novo?(3)”

“Para com isso!” Aquilo sim me irritou. “Aceito você mentir e até me evitar, mas só eu faço citações musicais!”

“Acho que você bateu a cabeça forte demais...” Fingiu preocupação.

“Eu não bati a cabeça!” Disse alto.

A expressão de divertimento se dissipou em resignação.

“Olha para mim, ok?” Soou séria. “Nós estávamos no parque, você caiu do skate e bateu a cabeça no chão. Eu e meu pai te levamos para o hospital. Essa é a verdade. Não houve fogo, cães, sequestradores ou mesmo uma luta. Entendeu?”

“Eu não falei de fogo.”

“Fogo? Quem falou sobre fogo? Você tem tomado seus remédios?” Voltou a preocupação.

Por um segundo duvidei de tudo que havia acontecido. Talvez fosse verdade... Eu podia ter alucinado tudo. Quando voltei a mim, ela já havia ido embora.

Sem ter mais o que fazer, voltei para casa. No caminho, tentei listar o que me lembrava do parque. Embora não fizesse sentido, seguia uma sequência lógica. Eu me lembrava dos fatos com alguma precisão... Mas já não conseguia dizer se era ou não verdade.

No caminho, me vi parado na calçada esperando para atravessar a rua. O tráfego estava pesado e completamente parado, imaginei que já podia ter atravessado, mas minha cabeça doía de tentar ligar pontos que talvez não existissem.

Do outro lado da rua eu avistei uma floricultura. O letreiro era branco, dourado e rosa, e se lia “Vitória Régia”. Havia várias plantas coloridas do lado de fora da loja. Do lado de dentro vi alguém que passava entre os vários vasos pegando flores aqui e ali.

Imaginava que eu podia me atrasar um pouco para o almoço.

Atravessei a rua e entrei na loja. O aroma era forte e intoxicante e as plantas tinham cores muito vibrantes. Algumas daquelas flores eu nunca havia visto.

Vitória não havia me visto, estava arrumando algo na bancada da loja, na mão tinha algumas flores e pela sua fisionomia, parecia irritada. Ela, porém, estava deslumbrante. Usava um vestido branco que estava impecável. Além disso, não usava maquiagem e o comprido cabelo preto estava amarrado em um coque frouxo que era segurado por uma rosa de talo longo.

Parecia muito mais despojada que quando a conheci no Jardim Botânico. Além disso, muito mais bonita. Fiquei perdido em um segundo naquele êxtase que era cor, aroma e beleza.

Seus olhos se encontraram com os meus e ela abriu um enorme sorriso.

“Achei que não te veria mais!”

“Estive um pouco ocupado.”

“Por favor, um segundo, não quero te sujar!”

Ela rapidamente lavou as mãos em uma pia atrás do balcão. Enquanto ela se arrumava, eu fui analisar as flores que estavam no vaso e no balcão. Parecia haver uma pilha de rejeitadas e uma de aprovadas. Pareciam estar nesse vaso a várias horas.

“O que está fazendo?” Perguntei.

“Nada de mais. Me contrataram para fazer arranjos para uma festa de quinze anos.” Deu de ombros. “Mas lidar com clientes é muito difícil.”

“Qual o problema?”

“Bom... Não sei se você sabe, mas cada flor tem um significado. E eu quis expressar o que é uma festa de quinze anos em flores. Lilás para alegria juvenil, cravo branco para inocência e lavanda para cuidado.”

“Não entendi... Qual o problema?”

“Bom... A mãe da garota não gostou. Disse que ficou muito tétrico. Quer rosas. Rosas para todo o lado. E o que para combinar com elas? Outras rosas! Rosas brancas, amarelas... Azuis...” Aquilo pareceu insulta-la até a alma. “Quem gosta de rosas azuis?”

Para mim ela se tornava ainda mais bonita ao falar de flores com tanta paixão. Era como se ela colocasse todo seu amor, carinho e atenção em cada gesto que envolvesse seu trabalho.

Tive que sorrir, era bonito ver alguém falar tão sério de algo que sempre achei tão banal quanto flores. Era como um universo inteiro que se abria diante de mim.

“Então ofereci para ela rosas amarelas, cravos amarelos e gerânios.” Deu de ombros. “Ela também não gostou.”

“E o que esses significam?”

Ela me lançou um sorriso cínico.

“Ciúme, rejeição e estupidez.”

Aquilo me fez rir de verdade.

“Acho que terei que me contentar com rosas.” Enfiou uma outra flor no vaso. “O que acha?”

Antes achava que o arranjo era muito bonito, porém depois de ver as tantas flores na bancada amarradas em centenas de diferentes combinações de cores e padrões, um simples vaso de rosas era... desapontador.

“Bonito.”

Ela percebeu que eu não havia gostado.

“Também não gostei. Me parece tão banal...” Deu de ombros. “Mas sou suspeita para julgar. Não gosto de rosas.”

“Jura? Eu gosto.”

“Eu não gosto de espinhos. É um preço alto demais a pagar por beleza frívola.”

Aquilo bateu fundo. Nunca havia pensado naquilo. Ela por outro lado apenas analisava o vaso.

“Suponho que não possa ganhar todas.”

“Se quiser, podemos arrumar flores de plástico. Sabe o que dizem, As flores de plástico não morrem.(4)”

“Por favor, não...” Riu. “Flores de plástico são piores que rosas azuis.”

“Então me diz uma flor que você goste.”

Ela parou para pensar.

“Adoro tulipas e lírios.” Disse. “Girassóis e jasmim. Mas o que eu mais gosto...”

Ela foi atrás do balcão e pegou algo que estava em uma prateleira baixa. Diferente das belas flores na mesa, era um simples vaso de plástico com alguns dentes de leão crescendo.

“Você plantou dentes de leão?”

“Por que não?” Riu. “Além do mais, tem uma velha lenda que diz que soprando os ramos e rezando, o vento levará seu pedido para os céus. Eu acho isso bonito.”

“De fato, muito bonito.”

“Sabe outra coisa que eu gosto? Ipês. Quem sabe não vemos alguns quando você me convidar para sair.”



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