Capítulo 7


Embora estivesse cansada e provavelmente muito machucada, Allana me apoiou o caminho inteiro sem o menor problema. Ela nos levou até a sua casa que era perto de onde estávamos.

“Eu peso alguma coisa para você?” Perguntei.

“Eu acho que tenho um machado que pesa mais que você.” Riu fazendo uma careta.

“E aí, vai me dizer o que é tudo isso?”

“Difícil explicar assim... Eu preferia estar em um lugar seguro.”

O porteiro não pareceu se incomodar, de forma que não nos parou quando chegamos. Allana me atirou no sofá e foi a caminho do corredor. Ela, sem cerimônia, tirou a blusa que usava ficando apenas com um top e a calça legging.

Ela voltou com uma caixa de primeiros socorros, duas latas de refrigerante e dois frascos de vidro com um líquido verde denso.

“Bebe aí.” Me entregou um dos frascos.

Achei melhor não questionar. Dei um gole na bebida verde e antes que vomitasse, tomei um gole de guaraná para lavar o horrendo gosto amargo da boca.

“O que é isso?”

“Uma poção de cura. Vai te fazer bem.”

Allana tinha o corpo de uma atleta, ela parecia esculpida em pedra escura. Não era o corpo de pessoas que passavam o dia em academia, mas o corpo forte e definido de quem luta com monstros de pedra e sequestradores. Ela era muito forte e o corpo era coberto por cicatrizes grandes e pequenas. Agora, nenhuma das marcas mágicas estava à vista.

“Você está em forma. Faz isso com frequência?” Perguntei.

“Faz parte de uma nova rotina de treino, sabe? Um sequestro por mês mantém o corpo e a mente em dia.” Disse séria. Ela acabou sorrindo.

Ela me pegou pelo queixo e começou a limpar meu rosto com uma gaze molhada.

“Você devia se cuidar primeiro, eu não estou tão ruim.”

“É protocolo de guerreiro.” Ela disse pegando outra gaze. “Se cuida primeiro do mais frágil.”

Sem muita cerimonia enrolou um pedaço de algodão e enfiou na minha narina.

“Isso era necessário?” Perguntei irritado.

Rindo, ela pós minha cabeça para trás.

Allana então se sentou em uma poltrona ao meu lado e começou a se amarrar em bandagens e emplastros curativos. Não sabia que faziam potes de meio quilo de Gelol, porém ela tinha. Não havia visto que ela havia machucado a cabeça, porém havia cortado o lábio e o supercílio.

Ela abriu a poção e tomou tudo em um único gole. Ela pareceu absorver o gosto amargo e logo em seguida abriu sua própria lata de refrigerante, então se recostou na poltrona de olhos fechados. Até usou a lata gelada para anestesiar o rosto.

“Você está bem?” Perguntei.

“Sim.” Balançou a cabeça ainda de olhos fechados. “Acho que quebrei uma ou duas costelas, mas vou sobreviver.”

Ela parecia completamente confortável com a situação, eu, porém, estava tendo um surto silencioso. A ansiedade me apertava o estômago e fazia meu coração doer.

“Você vai me contar o que está acontecendo?” Perguntei de novo.

“Você está falando tão alto...” Reclamou.

“Não me entenda mal, mas tenho o direito de estar histérico.”

Ela riu de mim de novo. Tomou outro gole da bebida.

“Eu sou herdeira de um deus.” Disse vaga. “E pelo que eu vi você fazer... Você também é.”

Ela fechou os olhos de novo. Aquela informação pairou no ar.

“O que?!”

“Shiii.... Tão alto...”

Fui interrompido pelo barulho de chaves abrindo a porta da frente. Por um segundo entrei em pânico. Não sabia como os pais de Allana podiam reagir a ver a filha completamente avariada na poltrona da sala de estar.

O pai de Allana entrou em casa com os olhos em vários papéis e com uma maleta na mão. Doutor Leonardo era um grande cardiologista que conheci minha vida inteira. Eu e Allana crescemos juntos e ele e a esposa havia se tornado muito amigos de minha mãe. Havia sido ele a me atender no caso da falsa queda de skate.

Ele parecia bastante com Allana. Os mesmos olhos sérios, nariz largo e lábios grossos. A cabeça era raspada e tinha um cavanhaque que estava sempre muito bem aparado. Usava óculos quadrados de aro fino e sempre usava roupas muito elegantes.

“Cauã... Filha...” Passou direto por nós. Ele não pareceu se incomodar com nossa situação. Ele nem parecia ter nos visto.

Ele, porém, voltou pouco depois com roupas menos formais e um outro frasco da poção verde. No pescoço trazia um pingente feito de uma pedra verde.

Allana pegou o frasco e tomou tudo de uma vez. Doutor Leonardo sentou no outro sofá, nos analisando

“Então... O que aconteceu?” Perguntou.

“Golem de mármore. Acho que tem algo a ver com o tal sequestro.” Ela respondeu.

“Entendo...” Fez sinal para continuar.

“Nada de mais. Me machuquei um pouco, perdi o machado que a Vó me deu e... Bem.” Olhou para mim. “Cauã o derrubou.”

Ele me olhou com um certo interesse.

“Jura?” Pareceu interessado. “Essa é uma história que gostaria de escutar.”

Eu não sabia exatamente o que ele queria ouvir de mim. Eu na verdade estava achando muito estranho o fato dele estar tão tranquilo com toda a situação. Ele esperava pacientemente minha história, porém eu próprio não entendia o que havia acontecido. Seu olhar começou a me incomodar.

“Ele dominou o golem com magia.”

Doutor Leonardo pareceu impressionado.

“Isso é muito interessante. Obviamente, podemos deduzir que Cauã não é mortal.”

“Obviamente. Ele tem magia.” Allana completou.

“Isso é bastante interessante.” Disse. “Um músico dotado de magia? Não há muitas possibilidades.”

“É... Foi no que pensei.”

“O que isso quer dizer?” Perguntei.

“É algo que não é fácil de explicar.” Doutor Leonardo disse sincero. “Mas é seguro dizer... Você é ainda mais especial do que imaginávamos.”