Capítulo 9


No dia seguinte fui encontrar o cara do cartão. Seu nome era Fernando Marinho. Ele havia marcado um encontro em um lugar afastado e isolado do Parque da Cidade.

Às 15:00 estava me aproximando da Praça das Fontes. O lugar estava em ruínas. O piso de pedra portuguesa estava completamente estragado e as plantas já quebravam o cimento para crescer.

As fontes que davam o nome ao lugar estavam desativadas e já exibiam as marcas de tempo e negligência. Todo o lugar estava abandonado à própria sorte e aos vândalos.

Era um lugar muito grande, então precisei procurar um pouco. Não parecia haver ninguém ali além de mim.

A partir do silêncio, porém, uma bela melodia surgiu carregada pelo vento. Era encorpada e muito forte. Era um violino solitário.

Segui o choro do violino para um pequeno círculo de árvores. Ali a grama crescia alta e havia algumas flores. Os troncos das árvores eram marcados com vários riscos feitos a faca. Vários tinham o nome de pessoas em corações. A única coisa que me passava pela cabeça era a quantidade de pessoas que saiam em encontros e carregavam facas.

Finalmente o avistei. Estava de costas para mim, sentando em um banco de concreto. Ele tocava muito bem... Mas eu era melhor.

A música subitamente parou. O músico se curvou para botar o violino na caixa e com um chute a fechou. Então se virou para mim com uma expressão vazia.

O tal Fernando parecia um fã de rock mais dedicado à moda do que à música. Sua camiseta preta tinha a caveira coroada do Capital Inicial. Apesar de não parecer muito mais velho que eu, seu cabelo era completamente branco; o corte era baixo, com as laterais raspadas.

O que mais me chamou a atenção foram os olhos. Eram de um azul elétrico anormalmente claro.

Fernando se levantou e veio até mim. Estava usando coturnos de couro e uma calça jeans escura. Ele usava muitos acessórios, todos combinando. Cada dedo tinha um fino anel. Um bracelete em cada pulso e mais dois pares em cada braço, um logo acima do cotovelo e outro logo abaixo.

“Você deve ser Cauã.”

Com um gesto me convidou a me sentar de frente para ele.

Ele abriu uma mochila de lona que estava aos seus pés e tirou duas latas de Guaraná.

“Está com sede?” Perguntou.

“Não vou recusar.” Abri a lata sem muita cerimônia e dei um longo gole.

Ele abriu a lata e deu um gole curto. Percebi que entre seus dedos e a lata pequenos arcos de energia se formavam.

“E aí, o que tem para mim?” Perguntei.

“Direto ao ponto?”

Dei de ombros. Não havia muita saída de onde eu estava. Além do mais, minha curiosidade era muito maior. E já dizia minha avó: Ladeira abaixo, todo santo ajuda. Ou nesse caso, deus.

“Você tem religião?”

“E por que isso seria relevante?”

“É difícil desmentir uma vida inteira de ensinamento religioso.” Ele riu.

“Não, não sou muito religioso.”

“Isso ajuda um pouco. Bom, imagine que esse mundo e tudo que existe foram criados ao longo de muito tempo por seres de imenso poder. Seres imortais dotados dos poderes da Existência, Realidade e da Criação.”

“Não é muito diferente do que já sabia.”

“Agora imagine que esses seres ainda estão vivos e ainda alteram nossas vidas com alguma significância.”

“Os tais deuses...”

“Quem diria que no final das contas seríamos nós a estarmos certos, não é?” Riu.

“Então você está me dizendo que foram deuses brasileiros que foram responsáveis pela criação?”

“Teria algum outro motivo para esse mundo ser essa bagunça?”

Um raio caiu muito perto de nós e um trovão estourou alto. Fernando levantou as mãos em rendição por um segundo. Olhei para cima e não havia uma única nuvem no céu.

“O ponto é que eles ainda estão vivos e ainda interagem conosco.”

“Ok... Faz sentido.”

“Jura?” Ergueu uma sobrancelha impressionado.

“Não. Na verdade acho que vocês são todos doidos.”

“Um não exclui o outro.”

Parei um segundo para admirar a paisagem. Embora o que ele dissesse fizesse um certo sentido, era contra minha lógica.

“Eu quero ver algo.”

“Tipo o que?”

“Magia.” Disse decidido. “Não me importa quem tenha criado o que. A única prova que eu preciso é magia.”

“Bom, isso é fácil.”

Ele pegou seu violino. O instrumento era muito bonito. Era todo metálico e com partes que pareciam ser cristal. Ele tocou um acorde forte, puxando o arco para baixo. O som das cordas foi acompanhado pelo som de eletricidade.

Raios azuis fluíam pelas cordas e pelo arco, desciam pelo corpo de Fernando e se dissipavam pelo chão.

Enquanto ele tocou uma curta e chorosa melodia, uma brisa varreu o pequeno bosque. O vento parecia acompanhar a música e, aos poucos, dezenas de flores se abriram nas árvores. Flores brancas, vermelhas, roxas e rosas. Muitas delas não estavam na época certa.

“Isso foi...”

“Eu sei.” Bateu em um dos galhos baixos com o arco do violino.

Ele voltou a tocar. Agora uma música muito rápida, cheia de paradas e acordes fortes. A música era intercalada com o som de eletricidade que ele produzia. Os raios fluíam por seus braços e estalavam nos anéis e pulseiras.

O vento varreu as árvores e as flores caiam pela brisa. Elas dançavam em um redemoinho de cores e se espalharam pelo chão, criando um colorido tapete aos nossos pés. Subitamente a música cessou.

“Lindo.”

“Obrigado.”

“Considere-me convencido.”

“Que bom. Assim minha vida fica bem mais fácil.”

“E então, o que é tudo isso. O que são eles?” Uma pergunta melhor me cruzou a mente. “O que somos nós?”

“Essa parte é difícil de explicar. Vamos precisar dar uma volta para isso.”