Capítulo 1 - 16 Anos Depois


Eu me sentia flutuando pelo espaço, não sentia meus membros e nem minha própria consciência. Por um segundo pude jurar que não era nada além de uma única partícula flutuando sozinha ao acaso.

Subitamente meu corpo se reformulou como um quebra cabeça de um milhão de peças. Mesmo que sentisse que pudesse ver, estava cego pela claridade da luz refletindo na névoa que me cercava.

Logo, quando a névoa começava a dissipar, uma paisagem surgiu diante de mim. O chão sob meus pés descalços era de terra batida e eu parecia me afogar na umidade. O sol escaldava minha pele e a claridade continuava a me incomodar.

Já não me era estranho estar ali. Havia algum tempo que meus sonhos convergiam para cá. Já não tinha mais medo, só curiosidade.

Eu estava em uma imensa clareira. No chão nada crescia, nem grama nem ervas daninhas. A única coisa que havia por ali era uma enorme palmeira. A árvore me era um mistério, era muito maior do que deveria ser. Alto, já perto da copa, haviam centenas de pontos pretos que lhe cobriam os finos ramos.

A árvore estava no centro da clareira que deveria ter quase um quilometro de comprimento. Muito distante dela, uma densa floresta crescia. A muralha verde se erguia do chão e eu não conseguia ver nada que estivesse atrás dela.

Andei até a árvore. Ela devia ter séculos ou até milênios de idade. Conforme ia me aproximando, o chão parecia pulsar preguiçoso. Ao tocar-lhe o tronco senti o pulsar mais forte e poderoso. Parecia um batimento cardíaco solitário. Aos poucos tudo começou a pulsar junto, até mesmo eu. Tudo entrou em uma sintonia harmônica e primitiva.

Névoa voltou a surgir a partir do chão. Ela era tão espessa que quando me cobriu os pés, eu já não conseguia vê-los, e quando me cobriu por completo, voltei a cegueira. A claridade era muito intensa e comecei a sentir meu corpo se desfazendo. Eu me dissolvia na neblina, fazendo parte da vibração.

Eu comecei a ouvir alguém falando algo, porém não entendia o que era e nem via quem falava. Aos poucos uma forma aparecia, ainda envolta em névoa. Eu continuava escutando a voz, porém simplesmente não conseguia entender.

Então, subitamente, acordei. Sem gritos ou sem sustos. Acordei como quem acorda de um sono de muitas horas, completamente descansado e alerta. De vez em quando isso acontecia sem motivo aparente.

Minha mãe havia me ensinado o que fazer quando eu tinha esses tipos de sonhos. Levantei de minha cama e peguei a caixa do meu violino. Pé ante pé fui até a cozinha.

Na área de serviço, onde minha mãe havia feito um verdadeiro jardim, sentei entre um pé de camomila e a máquina de lavar. Baixinho comecei a tocar algumas das minhas músicas favoritas. Em segundos a madrugada se preencheu com o lamento do violino.