Capítulo 12


Meus dedos flutuavam sobre as teclas do piano, porém minha cabeça estava muito distante dali. Eu pensava em Fernando e Catarina e como eles tinham a chave para eu aprender tudo que sempre quis.

Em nossa sala de música, eu tocava um concerto solitário e um tanto confuso. Embora Fernando estivesse batendo forte em minha cabeça, havia outra coisa lá. Uma coisa que para mim, era muito mais importante.

“Ora, se não temos alguém apaixonado.” Minha mãe entrou no quarto.

“Apaixonado?” Eu ri. “De onde tirou isso?”

“Toque de novo.”

Sinceramente não lembrava muito bem o que estava tocando, apenas deixei aquele sentimento fluir de novo. Voltei a tocar.

“Ponho os meus olhos em você
Se você está
Dona dos meus olhos é você
Avião no ar.(5)” Minha mãe começou a cantar.

Sorri em silêncio enquanto continuava a tocar.

“Um dia pra esses olhos sem te ver
É como chão no mar.” Continuei.

“Liga o rádio à pilha, a Tv
Só pra você escutar
A nova música que eu fiz agora
Lá fora a rua vazia chora...” Cantamos juntos.

“Nunca tinha imaginado essa música no piano mas ficou linda.” Ela se sentou ao meu lado e tocou mais um acorde aleatório. “Então... Quem é?”

“Não sei ao certo.” Disse. “Uma garota que conheci, trabalha aqui perto.”

“E essa jovem teria um nome?” Perguntou.

“Vitória.” Parei um segundo. “O que eu levo para alguém que trabalha numa floricultura?” Perguntei.

Minha mãe parou de tocar e me encarou por um segundo.

“Ótima pergunta. Nunca pensei nisso.” Ela me disse. “Acho que não erraria com uma boa caixa de chocolates! Seu pai sempre me trazia caixas de chocolate... Ele costumava comer metade no caminho para casa, mas...”

Tive que rir. Gostava muito de ouvir sobre meu pai. Era uma coisa boa, já que minha mãe gostava de falar dele.

“E quais seriam seus planos para hoje?” Ela me perguntou.

“Eu estava pensando em ir vê-la de novo...” Disse um pouco.

“Então pegue R$ 20 reais da minha bolsa antes que eu saia para o trabalho e compre a tal caixa de chocolates.” Disse me dando um beijo na testa. “Só não coma nenhum antes de chegar lá!”

Eu troquei de roupa e peguei o dinheiro que minha mãe havia me dado e fui até a floricultura. No meio do caminho, parei para comprar a caixa de chocolates.

Quando cheguei, Vitória estava trabalhando em outro arranjo. Estava usando um vestido florido branco e rosa, os cabelos estavam soltos e ela tinha uma coroa de pequenas flores das mesmas cores do vestido.

“Está ocupada?” Bati na porta.

“Cauã!” Ela sorriu. “Não estou! Pode entrar!” Apontou para a caixa que carregava. “Espero que não sejam para mim.”

Ela pegou a pequena caixa que lhe estendi e pegou um dos doces. Seu sorriso se iluminou ainda mais.

“É delicioso.” Ela sorriu. “Que tal pegar um?”

“Não ia, mas já que insistiu!”

Mais uma vez entrei em transe ao olhar nos olhos dela. Percebi que isso iria acontecer sempre.

“Sabe, você adivinhou muito bem! Também tenho algo para você!” Ela foi para trás do balcão.

“Não precisa me dar nada!” Eu tentei negar.

“Não seja bobo! Depois dessa gentileza acho que é muito mais que justo!”

Ela colocou no balcão de mármore um pequeno vaso feito de plástico. Por um segundo imaginei que seria alguma coisa fascinante, porém eram apenas...

“Dentes de leão?” Perguntei um tanto surpreso.

“Claro! O que melhor do que um estoque particular de desejos para os deuses?” Ela sorriu. “Não são rosas, mas...”

“Eu adorei. Foi muito gentil.” Peguei o vaso com cuidado.

“Qual o problema?” Ela perguntou. “Não gostou das flores?”

“Não! Não é isso! É que...” Não sabia como explicar. “Eu não sei como cuidar de plantas...” Tive que admitir.

Ela sorriu de um jeito lindo e me olhou com olhos brincalhões.

“Tenho certeza que eles não vão te dar trabalho.” Disse-me. “Regue uma vez por semana e deixe em um lugar que possam pegar luz, só isso.”

“Você faz parecer fácil!”

“É fácil! O vaso não vai fugir de você!” Ela riu.

Eu sentia um ímpeto de chegar o mais próximo que eu conseguisse dela, porém algo me impedia. Talvez fosse meu bom senso.

“Bom, se quiser ficar, posso te ensinar tudo sobre flores. Tenho uma nova encomenda e adoraria sua opinião.” Ela me disse com aquele sorriso cínico.

“Eu adoraria... Sou um ótimo aluno.”

Ela me pegou pela mão e me levou para o balcão.



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Cássia Eller - Luz dos Olhos

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