Capítulo 13


Admito que desde Fernando e Catarina eu havia me afastado um pouco de Allana. A certeza dela sobre o assunto me assustava um pouco. Eu precisava pensar um pouco sobre toda a situação sozinho.

Ela, porém, não estava se importando com minha pequena crise existencial, pois após alguns dias de silêncio ela foi bater em minha casa logo ao fim da tarde.

“Se veste, vamos sair.”

“Eu tenho opção?”

“Claro! Você pode vir por bem ou eu te carrego para fora.” Ela sorriu.

“Admito que estou tentado a favor da segunda opção...”

“Você tem cinco minutos! Vamos logo!”

Não argumentei muito, troquei de roupa e peguei minha mochila. Ela falou algo sobre encontrar alguns amigos e gostaria que eu fosse junto.

Nós atravessamos minha quadra e em menos de dez minutos estávamos chegando a um pequeno café na 109. As mesas eram do lado de fora e parecia cheio. Havia várias mesas com poucas pessoas e uma com várias que era basicamente metade do movimento do café.

Ao nos verem, todos cumprimentaram Allana com entusiasmo.

Era a mais estranha mistura de pessoas que já havia sentado em uma mesa para lanchar. Perto da ponta todos usavam quimonos surrados e pareciam ter acabado de sair de um treino. Depois deles, alguns usavam roupas de grife e estavam muito bem arrumados. Em seguida, alguns rapazes e moças que pareciam prontos para uma trilha. Na ponta mais distante, uma moça usando um jaleco branco. Juntos eram treze pessoas.

A única pessoa que conhecia era Marisol que estava sentada na ponta. Eu, na verdade, só a conhecia de vista. Sabia que era mestra de Allana e professora na academia onde ela treinava.

Sol sorriu ao nos ver e indicou duas cadeiras, uma de cada lado da sua. Sol sempre fora bonita, mas hoje estava arrumada para uma festa. Ela usava um vestido de cores quentes que contrastava com a pele muito escura. Seu cabelo havia sido recém raspado e na lateral da cabeça havia formas geométricas raspadas ainda mais. Não usava maquiagem além do batom vermelho nos lábios grossos e lápis nos olhos expressivos.

Quando me sentei, ela colocou uma pequena caixa na minha frente.

“Feliz aniversário, Cauã.”

Eu olhei para ela e para todos na mesa. Fiquei um tanto constrangido em dizer que não era meu aniversário.

“Eles sabem que não é hoje.” Allana me disse rindo da minha expressão.

“Allana nos disse que você acabou de descobrir que é um herdeiro e que seu aniversário está chegando! Pensamos em juntar alguns amigos para comemorar as ocasiões.” Marisol sorriu.

“Nossa, isso foi muito legal... Eu agradeço mesmo.” Tive de sorrir, era mesmo um gesto bem legal. “Então, todos vocês são herdeiros?”

Todos assentiram em uníssono.

“Eu lembro quando descobri que era um herdeiro, minha mãe quase teve um ataque do coração.” Um dos rapazes de quimono disse. “Meu pai nunca contou para ela e um dia viajamos para a praia e acabei no mar brincando com meia dúzia de tubarões.” A história arrancou risadas de alguns na mesa.

“Minha mãe estava torcendo para eu ser Encantadora. Ninguém esperava que eu fosse puxar o pai do meu pai que era Domador.” Uma moça do outro lado da mesa disse. Ela estava usando um jaleco branco e tinha o brasão da veterinária no braço esquerdo.

Subitamente todos começaram a falar de suas próprias histórias. Embora algumas fossem confusas ou inesperadas, todos pareciam felizes com suas heranças.

Enquanto escutava uma das garotas com roupas de grife, lembrei do presente de Sol. Quando peguei a caixa, ela me incentivou a abrir. Não era nada além de uma palheta de violão. Embora parecesse altamente resistente, também era bastante flexível. Ela era de um roxo perolado muito escuro e tinha uma lua prateada pintada.

“É uma palheta encantada.” Ela pegou a palheta de minhas mãos e a colou no meu braço como um adesivo. Em um segundo ela foi absorvida pela minha pele. Ela ficou lá, como uma tatuagem. Na verdade, sendo roxo, parecia mais um hematoma. “Sempre que quiser, sempre à mão.” Com delicadeza, ela puxou a peça como um adesivo. Parecia com o que Allana havia feito com o machado.

“Obrigado, é um presente bem legal!”

“Nós também temos algo!” Um rapaz disse levantando a mão. Ele estava junto com uma moça que com certeza era sua irmã. Ambos eram parecidos demais para ser qualquer outra coisa. “Eu sou Marcos e essa é minha irmã, Marcela. Somos Artesãos, herdeiros de Tabaréu.” Explicou. “Dom Tabaréu chama de A Caneta do Imperador.” Entregou-me uma caixa estreita e longa. A caneta era azul marinho com os detalhes em prata. O bico era de pena e a marca perto da ponta era uma lua e uma estrela. “Ela não apenas não te deixa cometer erros de ortografia, mas corrige textos se você deixá-la sobre o papel.”

“Eu só não aconselho tentar escrever em outra língua. A caneta surta e é tinta para todo lado.” Marcela completou.

Eu peguei a caneta e testei no papel que cobria a mesa. Eu propositalmente escrevi uma palavra errada. A caneta começou a vibrar e quando eu a soltei, ela riscou a palavra e a escreveu, com a minha letra, corretamente.

“Obrigado! Eu gostei bastante! É um presente super legal!” Guardei a caneta. “Quem é Tabaréu?”

Ninguém pareceu estranhar minha ignorância.

“Dom Tabaréu é deus dos sonhos.” Marcela disse. “E ele é filho de Jaci!”

“Eu também tenho um presente!” Allana disse por fim. “Não é um clássico como o que você tem, mas acho que vai gostar.” Botou na mesa uma caixa de violino.

Por um segundo fiquei sem palavras. Sabia que Allana e a família tinham o hábito de presentes extravagantes para amigos próximos, mas um violino era demais.

Eu abri a caixa e me deparei com uma verdadeira obra de arte. Ele era completamente preto fosco. Gravado no espelho, em prata, estavam desenhadas nove fases da lua, sendo a cheia, o centro.

Testei as cordas com o polegar e a cada nota, pura energia viajava entre meus dedos e as cordas. O ar reverberava com sons solitários.

Como se não houvesse ninguém comigo, me pus a preparar o instrumento. Quando estava pronto, o ajustei no ombro e deslizei o arco sobre as cordas tocando uma nota longa.

Senti uma descarga de adrenalina que nunca havia sentido antes. Meu sangue pareceu correr com violência enquanto meu coração batia como um tambor. Senti a cabeça leve e por um segundo eu me senti poderoso. Poderoso como nunca antes.

Enquanto a nota morria, eu entendi o que era. Não era adrenalina, era magia.

Quando aquela sensação acabou, me vi desejando por mais. Eu precisava desesperadamente sentir aquilo de novo. Toquei outra nota. A sensação voltou com ainda mais força.

Não era violento e doloroso como quando controlei o monstro de pedra. Nem era sensível e frágil como quando fazia flores desabrocharem. Era forte, denso, encorpado. Arrepiou-me a espinha e me trouxe lágrimas aos olhos. Finalmente entendi o que Fernando queria dizer. Magia era meu novo vício. Assim como a música havia sido minha vida inteira.

Eu pousei o violino na caixa e tomei as mãos de Allana.

“Foi o melhor presente que já ganhei. A festa e o violino. Muito obrigado.”

“Que bom que gostou.” Ela sorriu.