Capítulo 15


Após alguns dias, eu havia retornado para a casa de Fernando e Catarina para minha primeira aula. Minha mãe havia adorado eu conhecer novos amigos artistas e estava incentivando minhas novas aulas, mesmo que não soubesse do que eram.

Fernando havia me dado uma lista do que trazer para minha primeira aula. Nas costas trazia meu violão e carregava o violino que Allana me dera. Fernando me recebeu na porta e me levou para a sala onde conheci Catarina. Eles chamavam de A Sala Vazia

“E o que trouxe aí?” Perguntou.

“Só um violão e um violino.”

“Não sabia que tocava violino.” Indicou a caixa menor.

“Eu toco muitas coisas! O piano, violão e o violino são minhas especialidades.”

“Posso?” Estendeu a mão.

Eu entreguei a ele a caixa e ao abrir, ele analisou com um sorriso no rosto.

“Eu conheço isso.” Sorriu. “É da grife de instrumentos encantados de Jaci. Meu padrinho que construiu.”

“Jura? Quem é seu padrinho?”

“Cacira.” Ele dedilhou as cordas e sua expressão foi de deleite. “Eu adoro essa linha... Onde comprou?” Perguntou.

“Eu ganhei de presente de uma amiga.”

“É um baita presente! Qual a ocasião?”

“Meu aniversário.”

Ele me olhou interessado então sorriu.

“Quando?”

“Na verdade é hoje.”

“Ora, que legal. Meus parabéns.” Sorriu. “Vamos começar?” Catarina apareceu na sala com seu vestido preto. Ela trazia pranchetas e entregou uma para Fernando.

“Ok, vamos começar.” Fernando anotou algo em sua prancheta. “Introdução a magia: Existem três tipos principais e todas as outras derivam delas. Primeiro, Magia de Realidade. Lida com todas as coisas que existem e que não tem vida e animais. Segundo, Magia de Existência, lida com tudo que existe e tem vida. Por fim, a mais poderosa e rara é a de Criação. Apenas deuses e alguns outros seres detém esse tipo de poder.”

“Ok, o que mais?”

“Sendo um Encantador, é certo dizer que seu domínio sobre magia de existência é grande, afinal encanto é magia de existência. Porém, não sabemos sua capacidade para dominar magia de realidade e é isso que vamos fazer hoje.”

“Como?”

“Essa sala é encantada para reagir a esse tipo magia. Assim poderemos entender como a sua funciona.”

Catarina parecia muito curiosa.

“Faça alguma coisa.” Fernando me disse.

“Como o que?”

“Magia é intrínseco a você. Se você convive com ela desde criança, você sabe o que fazer. Você pode usar um instrumento ou só sua voz. Só deixe fluir... Como um brisa.” Se afastou deixando a sala para mim.

Parecia fazer sentido. Posicionei-me no centro da sala e respirei fundo. Tentei acalmar o coração que batia como louco. Sentia o estômago embrulhar.

“Vento, ventania, me leve para as bordas do céu
Pois vou puxar as barbas de Deus
Vento, ventania, me leve para onde nasce a chuva
Pra lá de onde o vento faz a curva. (6)” Cantei timidamente.

A sala pareceu reagir. Um mosaico de padrões curvos iluminou o chão em vários tons de azul, prata e branco. Mesmo na sala fechada eu senti uma brisa fria varrer o aposento. Meu coração continuava a bater forte, só que dessa vez, de pura excitação.

“Me deixe cavalgar nos seus desatinos
Nas revoadas, redemoinhos
Vento, ventania, me leve sem destino!”

Em uma das paredes, cinco enormes janelas se abriram como mágica deixando um forte vento entrar. A sala inteira se iluminou em ainda mais branco, azul e prata.

Fernando estava certo. Esse era meu novo vício.

“Vento, ventania
Me leve para qualquer lugar!
Me leve para qualquer canto do mundo
Ásia, Europa, América!”

Os padrões nos mosaicos subiram pelas paredes e pelo teto formando ainda mais desenhos e padrões.

Fernando veio até mim. Seus pés deixavam pegadas rosas no piso. Ele bateu os dedos contra os mosaicos e foi inspecionar a janela. Parecia satisfeito.

Ele bateu as palmas das mãos e em um alto som de trovões, a sala enegreceu. Os mosaicos se dissolveram e as janelas se fecharam e foram engolidas pelas paredes mais uma vez. Tudo era silêncio.

Catarina tinha um largo sorriso enquanto Fernando parecia contente.

“Foi muito bom. Ótimo domínio vocal. Meu pai adora essa música.”

“Esse quarto tem janelas?” Perguntei avoado.

“Sim e não. Esse quarto é encantado para reagir a magia de realidade. Você fez as janelas se abrirem. Mas se quisesse, poderia ter derrubado a parede ou feito móveis aparecerem. Magia de Realidade, basicamente.”

“E aí? Como eu fui? De magia?” Perguntei animado.

Fernando torceu o nariz.

“Você tem uma certa qualidade... Fauvista.” Disse.

“É assim que você fala que foi ruim?”

Ele riu de mim.

“Sua magia é selvagem, indômita. Você não quis criar nada disso. As coisas se criaram a partir do que você cantou. O que quer dizer que você não controla sua magia, você só a libera.”

“E então? O que fazer?”

“Nós vamos mobiliar essa sala.” Sorriu.

“Desculpe?”

“Esse é um dos melhores exercícios para isso, afinal, é literalmente magia de realidade. Por exemplo...” Em um movimento de mão uma poltrona Barcelona se formou atrás dele. Ele se sentou elegante com um sorriso no rosto.

“Ok! Entendi! Mas... Você criou a cadeira, não foi? Isso não é Magia de Criação?”

“Não. A cadeira já existe, eu só transmutei a energia mágica da sala em uma forma que me é familiar. Criar algo é literalmente fazer algo totalmente novo surgir do nada.”

 “Ok. Deixa eu tentar.”

Levei as mãos às têmporas e fechei os olhos. Comecei a mentalizar uma cadeira. Não queria nada de complexo, só um banquinho de três pernas.

Ao abrir os olhos, havia na minha frente, desenhado no chão, um banquinho. Porém, estava tão mal desenhado que mais parecia um peixe.

“Tente de novo.” Fernando riu.

Tentei de novo me concentrando ainda mais. Pensei em um banquinho feito de madeira. Ele tinha três pernas altas e um assento circular. Quando abri os olhos o banquinho estava formado. Sorri para Fernando um tanto orgulhoso. Quando me sentei, o banco se desmontou sob meu peso.

“Você lembrou de fazer os parafusos?”

“Mas é claro que não!” Respondi irritado me pondo de pé.

“Você precisava dos parafusos.”

“Por que você não me ensina de verdade?”

“Estou ensinando. Um erro ensina muito mais que um acerto. Errar é saudável e faz parte do desenvolvimento. Tente de novo.”

Nós passamos o resto do dia mobiliando a Sala Vazia. Os móveis de Fernando eram absolutamente perfeitos. Eles eram tão precisos que alguns tinham verniz e outros exibiam uma camada de pó como se estivessem ali há décadas.

Os meus móveis eram feios, mal-acabados e alguns faltavam peças. Embora eu estivesse irritado com meu desempenho, Fernando parecia absolutamente feliz com meu avanço. Ele pareceu especialmente orgulhoso de uma estante que eu havia feito. Ela parecia menos torta que as outras. Eu até havia colocado livros nela, todos vazios, entretanto.

“Eu tenho uma pergunta.” Disse terminando de construir uma cadeira de balanço. “Aquele livro na sala fala sobre isso, não é?”

“Sim, Magia de Realidade.”

“Por que Sol estava lá? Ela sabe fazer isso?”

“Sol é uma domadora. Ela é dotada de uma habilidade que está dentro da Magia de Realidade. Sim, ela poderia construir móveis ou outras coisas se estudasse isso. No entanto, ela é especialista em um tipo de magia intrínseca aos domadores, no caso, invocação.”

“O que ela invoca?”

“Basicamente animais. O que ocorre de fato é que ela pode pedir ajuda para espíritos ancestrais e se eles concordarem em ajudar, eles tomarão formas de animais e irão a luta com ela.”

“Entendi...”

“Mas chega de aula por hoje! Já trabalhamos demais!”

Olhei para a sala que agora estava abarrotada de móveis. Perto da porta Catarina ainda escrevia algo em sua prancheta.

“O que achou?”

“Eu na verdade gostei bastante. Não era exatamente o que esperava, mas...”

“Que bom! Agora se prepare que sua próxima aula será com Catarina! Vamos falar de encanto!”



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