Capítulo 18


Após um mês de aula, Fernando mandou que eu me preparasse para uma aula especial. Ele me disse para colocar minhas melhores roupas e que esperasse debaixo do bloco. Com o tempo, aprendi a não discutir com ele.

Encontrei em meu armário uma camisa e calça social, um colete preto e sapatos de bico fino. Arrumei o cabelo o melhor que pude e quando desci, ele já estava com seu carro esporte estacionado me esperando.

Pelo pouco que vi, ambos estavam impecáveis. Fernando estava mais formal que o normal e Catarina usava um vestido longo.

“E aí, o que temos para hoje?” Perguntei enquanto ele já arrancava com o carro.

“Nada de mais! Uma pequena reunião entre amigos.”

Catarina fez que não, então fez um sinal que entendi como “briga”.

“Vai ser super legal!” Fernando sorriu.

Ele dirigiu até um ponto no Lago Norte. Ele entrou em uma rua sem saída, onde parou em frente a uma mansão simples, porém elegante.

Nós paramos na rua e quando saíram do carro eu consegui vê-los por inteiro. Fernando havia abandonado o estilo punk. Assim como eu, usava um colete preto com risca de giz branca. Por cima, um sobretudo que parecia muito leve. Do lado esquerdo do peito, o brasão da nuvem com o raio e abaixo, o da lua.

Catarina estava absolutamente deslumbrante. Usava um vestido preto longo com detalhes prata costuradas no corpete. Também trazia um xale preto solto nos braços.

Sem cerimônia entramos pelo portão aberto. Pela quantidade de carros na rua, a casa parecia completamente cheia.

“Nossa aula hoje é sobre porte.” Ele me disse. “Devemos saber como nos portar na presença de nossos primos selvagens. No momento estamos representando nossa classe e a própria Jaci. Não nos faça passar vergonha. Não diga nada e pareça bonito.”

Catarina tomou seu braço e ambos entraram na casa com uma imponência assustadora. Ao entrar, todos fizeram silêncio. Minha ansiedade começou a gritar para que eu fosse embora e eu estava considerando obedecê-la.

Todos olhavam para nós, porém não conseguiam tomar qualquer atitude.

Logo percebi que não eram Encantadores. Eram enormes, altos e fortes. Todos estavam armados com armas brancas ou de fogo. Usavam o que pareciam armaduras e outros aparatos de proteção.

Fernando e Catarina não disseram nada, apenas foram casa adentro sem hesitar. Eles entraram em um corredor e andaram até chegar em um aposento de portas duplas que, mais uma vez, foi aberto sem o mínimo de cuidado, mas com muita classe.

Todos na sala se sobressaltaram ao nos ver. Havia um único rapaz de pé. Seu rosto se tornou vermelho ao nos ver.

“Beto, meu amigo!” Fernando abriu os braços sorrindo.

“Fernando...” Suspirou irritado. “É Roberto para você. E não sou seu amigo e você não deveria estar aqui.”

“Nossa, que recepção fria...” Fingiu ofensa. “Você já foi melhor nisso.”

“Fora! Isso não concerne à você nem aos seus...” Gesticulou para mim e Catarina.

Fernando e Catarina pareciam se divertir muito com a situação.

“Uma reunião dessa magnitude na minha cidade e presidida por um velho amigo e você esperava que eu não fosse ficar sabendo?”

Todos na sala pareciam irritados. O tal de Roberto fervia de raiva.

“E quem foi que lhe contou sobre a reunião?” Perguntou. “Terei a cabeça dele em minha mesa pela manhã.”

“Parece que você esquece que sua patente é inferior a minha.” Fernando afirmou com frieza. “Além do mais...Sempre parta do pressuposto que eu sei de tudo.”

“Ainda assim...”

“Se quer tanto saber!” O interrompeu. “Foi Takeda, é claro.”

Roberto perdeu a cor da face.

“Não acho que vá conseguir a cabeça dele.”

“Essa reunião é particular.” Falou um pouco mais respeitoso. Percebi que o nome ‘Takeda’ era forte.

“Ok, não se preocupe.” Sacou o celular. “Ligarei para Takeda agora mesmo. Ele me disse que provavelmente estaria tremendamente ocupado durante a reunião, mas sei que ele vai me atender. Aí veremos de quem será a cabeça perdida pela manhã.”

“Não será necessário ligar para Capitão Takeda.” Agora ele parecia até assustado. Fiquei curioso para saber quem era ele para inspirar tanto medo só pela menção de seu nome.

“Para você é General Takeda.” Dessa vez Fernando falou com uma expressão mortal.

Roberto se resignou com a derrota para Fernando e mandou que nos sentássemos.

“Então... Nos atualize!” Fernando sorriu.

“Eu te odeio tanto...” Suspirou. “Nossos espiões confirmaram. Paba está fazendo incursões contra o Relicário de Yasa’i. Aparentemente ele não sabe onde é, mas tem bons palpites. Ele está chegando perto da real localização.” Roberto continuou.

Não entendi nada que ele havia dito.

“Nós criaremos cinco incursões para os mais prováveis locais do Relicário de Yasa’i. Apenas uma chegará ao destino final e resolverá o problema.”

Ele expôs um mapa do Brasil com cinco pontos marcados em vermelho. Um em Manaus, um em Brasília, um em Campos do Jordão, um em Recife e o último em Santa Catarina.

“Nós formaremos cinco expedições com dez times. Alfas e Ômegas. Alfas vão para campo e Ômegas farão o suporte.” Linhas vermelhas foram traçadas sobre o mapa.

“Quem é Yasa’i e o que é um relicário?” Sussurrei para Fernando enquanto Roberto mostrava outros mapas.

“Yasa’i é basicamente o deus das florestas. Relicário é o lugar onde ele está... guardado.” Disse como se não achasse palavra melhor.

“Para despistar ainda mais os espiões de Paba, faremos incursões cruzadas.” Roberto disse. “O time de Brasília, o Alfa3 irá para Manaus, enquanto eles irão para Santa Catarina e assim por diante.”

“E qual o objetivo?” Alguém perguntou.

“Vamos achar a Árvore da Vida e vamos reforçar a barreira protetora. Apenas uma equipe irá de fato achar o relicário. As outras só chegarão em postos avançados para manter as aparências. Porém, antes mesmo das equipes erradas chegarem em seus objetivos, a correta já terá terminado a missão.”

Algo em minha cabeça pipocou.

“A árvore?” Perguntei. Fernando concordou mas fez sinal para que me calasse.

“E os Ômegas?” Fernando questionou.

“Suporte tático. E os Ômegas que estão perto do relicário irão se preparar para a chegada dos Alfas.”

Fernando parecia satisfeito. Para mim que não tinha a mínima noção estratégica parecia um ótimo plano.

“Alguma pergunta?”

Levantei a mão. Todos me olharam com surpresa, até Fernando. Em sua expressão eu conseguia ler tanto “Vá em frente” e “Não me envergonhe”.

“A equipe de Brasília vai saber que serão eles a encontrar a árvore?” Perguntei. Fernando precisou segurar o riso, pois Roberto voltou a ficar vermelho. “Afinal... Seriam eles a correr mais perigo...” Minha voz foi morrendo.

“Fernando, agora você anda espalhando informação sigilosa para os seus ‘alunos’?” Disse com bastante desdém na última palavra.

“Claro que não. Não existe motivo plausível para eu dividir uma informação tão importante com alguém tão irrelevante.”

Olhei para ele assustado. Irrelevante era uma palavra um tanto forte.

“Então o que?” perguntou irritado.

“Você esquece que Encantadores são cheios de surpresas.” Ele sorriu.

Roberto suspirou coçando os olhos.

“Vocês... Me enjoam.”

Enquanto Fernando e Roberto começavam a discutir com menos polidez, percebi alguém acenando para mim. Estiquei o pescoço e me assustei ao ver Allana. Ao lado dela, Marisol.

Ela usava aquele vestido que parecia uma armadura e o cabelo preso em um rabo de cavalo. Parecia muito animada com toda a situação.

“Chega!” Roberto gritou. “Vamos continuar essa reunião. Precisamos definir quem fará parte do time Alfa e Ômega.”

Sol bateu as longas unhas no tampo da mesa. Ela parecia pronta para uma boa briga. Até a expressão que tinha no rosto era mais dura.

“A indicação se mantém. Allana Moreira, herdeira de Cacira, filha das Icamiabas. Em apenas um mês já desmantelou duas incursões de mercenários de Paba contra ela.” Sol disse com uma pontada de orgulho na voz. “E essa indicação tem aval direto de mim e de Takeda.”

Todos pareceram um tanto impressionados.

“Além dela?” Roberto perguntou.

“Um rapaz chamado Rafael. Não tem base. É um nômade que roda o Brasil em missões aleatórias. Foi especialmente recomendado por Ya’Wara.” Allana disse. “Ele nos encontrará em Cuiabá para partimos para Manaus.”

“Perfeito.” Roberto disse. “Nós precisamos chamar pouca atenção, então um time pequeno será suficiente. Precisamos de mais um.”

Eles estavam discutindo e sugerindo nomes aleatórios, porém não parecia haver outro. Enquanto isso meu estômago dava mortais para trás. Eu havia acertado, sabia onde ficava a tal árvore. Eu podia ajudar.

Cheguei perto de Fernando e lhe disse no ouvido.

“Eu quero ir.” Disse.

Ele me olhou como se fosse louco.

“Isso é coisa de guerreiro. Não viemos participar, só viemos irritar Roberto.”

“Eu sei onde está a árvore! Eu não sei como explicar, mas eu acho que tenho alguma ligação com ela! Eu acho que meus sonhos são sobre isso! Eu posso ajudar!”

Fernando pareceu ponderar aquilo. Ele parecia nervoso. Estava realmente cogitando essa possibilidade.

“Eu quero sugerir meu Encantador. Cauã Aguiar.” Disse por fim.

Todos olharam para nós. Alguns até riram. Allana começou a fazer que não com a cabeça. Parecia com medo. Sol fez uma expressão de confusão e interesse. Ela abriu um sorriso de dentes brancos e longos.

“Um Encantador? Em campo?” Roberto perguntou.

“Algum problema?” Fernando disse. “Pelo que me consta, quem te salvou em missão foi um Encantador.”

Roberto fechou a cara de novo.

“De jeito nenhum vou deixar um Encantador ir nessa missão. Perigoso demais. Se os boatos são verdade, tem muita gente barra pesada atrás de nós. Além disso, não permitirei que essa missão dê errado por causa de um de vocês!”

Sol bateu com o punho na mesa. Ela nem parecia com a mulher doce e gentil que estava na minha festa de aniversário. Ela não tinha apenas vestido a armadura, ela havia incorporado aquele papel com perfeição, conforto e elegância.

“Deixem que fale!” Disse solene. Ninguém parecia disposto a ir contra ela. “Fernando tem a maior patente nessa sala e tem direito de sugerir um guerreiro! Ou Encantador. E se ele for a melhor pessoa para essa incursão, eu própria darei meu aval a ele. E tenho certeza que Takeda concordará.”

“Marisol, obrigado.” Ele se levantou. “O garoto tem alguma ligação com Yasa’i. Ele vai poder achar a árvore a quilômetros. Além do mais, eu conheço o feitiço que protege os santuários, só alguém dotado de Magia de Criação pode invocá-lo. Magia que nenhum de vocês ou seus guerreiros possuem.”

“Você está pedindo um absurdo. Além disso, você não está nos trazendo nada para ajudar nessa reunião.”

Senti eletricidade fluindo de Fernando para mim.

“Eu me ofereço para fazer parte da equipe Ômega de Brasília.” Ele disse sério. “Todos os meus recursos estão à disposição dessa missão.”

Se fez silêncio. Até a tal Marisol parecia impressionada.

“Todos.” Aquela parecia ser a moeda de troca mais forte de Fernando. Todos pareciam animados e interessados. “Eu mesmo armarei todas as expedições se necessário.”

Roberto ponderou sobre aquilo.

“Capitã Allana?”

“Sim?”

“Você foi nomeada para chefiar a Alfa3. Está disposta a ter um Encantador em sua missão?”

Allana olhou para mim com o lábio inferior entre os dentes. Parecia muito nervosa. Ela ficou um longo tempo em silêncio.

“Se... Ele está disposto a ir. Não vejo por que não.”

“Então está decidido.” Roberto disse. “Que comecem os preparativos.”