Capítulo 19


Nós voltamos para casa em silêncio. Ainda era muito cedo, o sol ainda nem havia se posto. Catarina nos deixou em casa e foi embora. Disse que iria começar alguns preparativos para a tal missão.

Eu e Fernando fomos direto para a área gourmet. Lá era a sala de reunião oficial da casa. Muito mais interessante que a de Roberto.

Era a primeira vez que vi Fernando nervoso. A reunião conseguiu mexer com ele.

“Você bebe?” Ele me perguntou.

“Não. Menor de idade.”

Ele pegou duas garrafas na geladeira e dois copos. Uma garrafa de tequila e a outra de suco de limão. Ele nos serviu e tomou a bebida como se fosse água.

“Espero que você tenha certeza dessa missão.” Ele disse.

“Eu acho que sei o que está por vir.”

“Não, não sabe... Você está se metendo em uma baita confusão. Se for verdade o que ando escutando... Tem muita gente poderosa dispostas a nos parar. Acha que consegue?”

“Você me treinou bem.” Ergui meu copo de suco.

Ele riu de mim.

“Não treinamos tanto assim... Mas que bom que está confiante.”

Nós ficamos em silêncio por algum tempo. Ele parecia muito preocupado.

“Por que todos reagiram daquele jeito... Sobre sermos Encantadores?”

“Somos artistas em uma sociedade de guerreiros. Nossos primos não nos levam a sério.” Respondeu sério.

“No entanto, você parece saber conversar com eles... Takeda e seus recursos...”

Ele riu de novo.

“Fiz muitos amigos.” Ele disse. “Amigos poderosos. Quando se conversa com guerreiros, é bom saber o que os desarma. Aprendi isso a duras penas.”

Finalmente tomei coragem para perguntar.

“Você não é um herdeiro normal, não é?” Perguntei.

Ele deu ombros.

“Na verdade sou.” Tomou outro gole. “Mas também sou um semideus.”

Engoli em seco ao ouvir isso.

“Herdeiro de Jaci e filho de Beraba-Cunun.” Disse. “Deus dos raios e trovões, portador dos tambores da guerra de Cacira.”

“Isso é possível?”

“Sim. E não é exatamente raro. Mas sempre tem algo... Se chama Sopro. Todo semideus nasce com algum problema. Eu sou... instável. Aprendi a viver na corda bamba. A herança de Jaci e de Beraba me tornam poderoso, porém frágil.”

“E o que isso tem a ver com toda a história?”

“Eu sou um Encantador por herança, mas sou um guerreiro por paternidade. Imagine que poderia ter vivido minha vida como um guerreiro. Esconder minha herança de Encantador. Nós jamais teríamos nos conhecido tudo seria diferente. Mas escolhi ser um Encantador independente de qualquer coisa. Isso me levou a lugares estranhos. Fiz amigos, aprendi coisas boas e ruins. E aqui estou eu.”

“Os anéis fazem parte disso?” Perguntei apontando para sua mão.

“Os anéis...” Girou um deles no dedo. “São feitos de um metal muito especial. É uma liga de cobre, tântalo e nióbio... Eles... ajudam a me manter vivo.”

“Como?”

“O fato de ser filho de Beraba foi irrelevante grande parte da minha vida. Meus poderes só afloraram na puberdade. Aí a coisa começou a ficar estranha. Eu sentia muita dor o tempo todo. Meu coração também tinha algo errado. Ninguém conseguia descobrir o que estava de errado. Até... que eu morri.”

E terminou a frase por ali. Como se tudo fizesse um grande sentido.

“Você vai terminar essa história ou eu vou ter que esperar pela versão estendida com comentários do diretor?”

Aquilo o fez rir.

“Era eletricidade. Meu coração é uma grande bateria. Meu corpo mortal não aguenta a energia que meu poder divino gera. Meu coração parava, então voltava, e então parava. E então voltava. Até que ele parou de vez. Minha mãe me achou morto no quarto. Ela rezou para meu pai. Acho que voltei a vida por um segundo. Lembro de vê-lo. De ouvir trovões.”

Aquela história parecia dolorosa, mas ele continuava sem hesitar.

“Eu acordei num hospital. Meu pai havia me levado para ver o Grande Pajé em pessoa. Fiquei em coma por um tempo. Umas semanas, acho. Estava preso em uma máquina que sugava minha energia. E ficaria para sempre.”

“Não para sempre, afinal...”

“Foi um drama só. Meu pai saiu cobrando favores de todo mundo. Conheci quase todos os deuses de uma vez. Todos tinham alguma ideia genial para me curar.”

“E deu certo?”

“Não por causa deles. Eram ideias horríveis. Um deles chegou a sugerir arrancar meu coração e substituir por uma bateria de carro.” Disse como se fosse ridículo. “Mas um conseguiu, meu padrinho. Junto com o Pajé eles criaram o artefato que me mantem vivo.”

Ele tirou o colete e abriu a camisa. No peito, do lado esquerdo, havia algo que parecia um acesso eletrônico. Haviam duas entradas USB e uma que parecia de tomada.

“Eu tenho uma bateria ligada ao meu coração. Ela armazena a energia que meu corpo produz com segurança. De tempos em tempos, eu tenho que descarregá-la. Os anéis agem como condutores para que eu possa trabalhar com a eletricidade sem me machucar.” Aproximou as mãos criando arcos de eletricidade entre elas. “Com eles eu posso lutar e até recarregar celulares.” Deu um riso quebrado.

“E o cabelo branco?”

“Quem liga?” Perguntou. “O Pajé me explicou por que meu cabelo embranqueceu, mas quando se tem treze anos e você acabou de ressuscitar, você só está procurando sua mãe e uma barra de chocolate. Mas foi algo a ver com stress. Sempre tem algo a ver com stress.”

Ele pegou o suco de limão e misturou as duas bebidas.

“Sinto que não é por isso que eles te respeitam tanto.”

“Não se engane. Não é respeito. É medo puro e simples.” Deu de ombros. “Eu galguei meu caminho entre guerreiros de modos pouco ortodoxos. Afinal, sou um Encantador.”

“Você já foi em missão?”

“Já. Em várias, na verdade. Nunca foi fácil e uma em especial foi catastrófica. Venci no final, mas foi um desastre. Por isso Roberto me detesta tanto. Nós namorávamos até essa missão.”

“Você namorava Roberto?” Fiquei chocado.

“Sim... Ele é uma pessoa boa... Só tem um temperamento difícil. A missão pedia um guerreiro e eu fui escolhido. Ele ficou furioso, disse que eu não merecia, que era só um Encantador. E foi tudo ladeira abaixo bem rápido.” Ele suspirou tomando outro gole de sua bebida. “Guarde minhas palavras. Aquela garota Allana ainda irá atrás de você para te dizer umas verdades.”

“Nós somos amigos, ela não faria isso...”

“Ah sim... Ela fará. Ela é uma Guerreira. Mas não é com isso que estou preocupado... Eu sei o que tem lá fora e é por isso que estou com medo por você.”