Capítulo 2


Depois de algumas horas e muitas músicas, o sol já havia nascido. Minha mãe entrou na cozinha ainda no início da canção, ela apenas sorriu para mim, sem dizer nada.

“De todo amor que tenho...(1)” Ela começou a cantar

“Metade foi tu que me deu.” Parei de tocar.

“Não conseguiu dormir?” Ela perguntou botando uma panela de água para ferver.

“Não, tive um sonho estranho.” Dei de ombros guardando o violino.

“Então vá se arrumar, não esqueça que hoje é dia de passeio. Não quero que perca o ônibus.”

Voltei até meu quarto e deixei o violino no armário. Rapidamente troquei de roupa, peguei minhas coisas e escovei os dentes. Nesse curto espaço de tempo minha mãe já havia colocado a mesa para o café da manhã.

Desde que meu pai morrera, minha mãe, Priscila Aguiar, comandava nossa casa com mãos de ferro. Graças a ela, nunca havia perdido sequer um dia de aula.

“Preparei um lanche para você levar para a excursão da escola.” Ela me deu um pote cheio de coisas. “Também empacotei alguns doces para você e Allana.”

“Obrigado.” Peguei o pote e lhe dei um beijo antes de sair.

“E tome cuidado! Não quero ter que ir te buscar no hospital!” Brincou

Tendo saído cedo, sabia que tinha algum tempo antes de chegar à aula, de forma que fui apreciando a paisagem de Brasília. Estávamos naquela época mágica entre agosto e setembro quando vários ipês de cores diferentes floriam juntos.

A escola não ficava muito longe da minha casa, precisando apenas atravessar a W3. Em pouco tempo já estava chegando aos portões. Parecia que seria aquele dia comum e tranquilo.

Entrei em minha sala e sentei logo atrás de minha amiga Allana.

“Você está especialmente bonita hoje.” Disse a ela.

Ela levantou o olhar do livro que lia e abriu um sorriso. Ela não apenas estava bonita, sempre fora muito bonita. Ela tinha uma pela escura muito densa e olhos castanhos ainda mais escuros, porém era possível achar pontos dourados quando os olhava por tempo suficiente. Seu cabelo era muito cacheado e caia solto por sobre os ombros. Os óculos de aro grosso combinavam com o rosto e com o sorriso que carregava sempre.

“Bom dia, Cauã! Parece que alguém acordou de ótimo humor!” Fechou o livro.

“Tive uma boa noite, só isso. Acordei ao som de violinos!” Admiti.

Meu professor deu um daqueles assovios ultrassônicos pedindo atenção.

“Muito bem, atenção! Espero que todos tenham trazido suas autorizações.” Ele disse com sua prancheta na mão. “Vocês sabem como funciona. Fila indiana, ordem de chamada até o ônibus.”

Nós pegamos nossas coisas e enquanto saíamos da sala entregávamos a ele nossas autorizações. Do lado de fora da escola já havia um ônibus nos esperando.

Era um costume da minha escola levar os alunos do último ano para alguns passeios aleatórios. Acho que era uma tentativa de aliviar o estresse dos vestibulares que se aproximavam no fim do ano. Dessa vez, eles haviam escolhido o Jardim Botânico.

Nós nos amontoamos no ônibus e, enquanto entrávamos no trânsito, a professora responsável pelo passeio começou a dar as instruções. Embora fosse um passeio, ainda teríamos trabalho para fazer.

Não parecia um dia muito excepcional.

Ao chegarmos ao Jardim Botânico, a professora terminou de explicar nosso trabalho e deixou que passeássemos livres.

“E aí, o que quer fazer?” Perguntei para Allana. “Temos ipês, orquídeas... Pode ter algo legal na Casa de Chá.”

“Não estou muito afim de fazer esse trabalho.” Ela disse cansada. “O sol está tão forte e tão quente...” Reclamou.

Ela tinha os cabelos enfiados em um boné velho e parecia realmente muito incomodada pelo calor. Estava usando seu livro como um leque, mas não parecia ter muito sucesso.

“Que tal um trato? Se você fizer o nosso trabalho de física eu faço esse.”

“Você me conhece tão bem! Fechado!”

Teria uma nota boa em biologia e em física sem muito esforço. O dia parecia estar ficando melhor.

Eu dei a volta na Casa de Chá e cheguei ao Orquidário. Era uma construção baixa de paredes brancas e estrutura aparente de madeira escura. Os três telhados eram desencontrados e a parte do meio era mais alta que as outras.

Ao entrar vi que estava sozinho. A estufa era estreita e longa e as plantas estavam amontoadas em degraus, mesas e nas vigas do teto.

Eu andei devagar pelos vasos enquanto anotava espécies e tirava foto com meu celular. Algumas plantas estavam com flores muito bonitas, enquanto outras só tinham folhas.

Enquanto passava pelos vasos, achei uma pequena orquídea roxa. A única flor da planta ainda estava fechada. Percebi que as folhas estavam um pouco manchadas e partes da pétala estavam murchando. Talvez estivesse doente.

Agachei-me para me aproximar dela. Talvez conseguisse ajudar de alguma forma. Com o tempo havia percebido que só o que flores precisavam era de um pouco de mágica.

“Ei dor...eu não te escuto mais

Você, não me leva a nada!

Ei medo...eu não te escuto mais

Você, não me leva a nada!(2)”

“E se quiser saber pra onde eu vou...

Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou!”

As manchas nas pétalas diminuíram e as folhas pareceram um pouco mais verdes. A flor, como se despertasse aos poucos, começou a abrir.

“E se quiser saber pra onde eu vou...

Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou!”

Ao fim da canção a flor se abriu por completo. Ela ainda era pequena e parecia frágil, mas também estava melhor.

Desde criança eu tinha essa... habilidade. Pequenas coisas se curvavam a minha voz. Sabia que não era nada muito sério, mas sabia que estava lá.

“Isso foi lindo.”

Meu sangue gelou nas veias. Por um segundo fiquei completamente paralisado.

“Está tudo bem?” A moça perguntou.

Eu me levantei e me virei para ela. Estava esperando que ela não tivesse visto nada demais. Ao olha-la nos olhos eu voltei ao meu estado de paralisia. Ela era linda.

Seus olhos eram de um azul acinzentado muito claro. O cabelo era preto e liso, preso em um apertado rabo de cavalo. Parecia ser só um pouco mais velha que eu, talvez já na faculdade.

Ela usava um avental sujo de terra por cima do uniforme do Jardim Botânico. Na mão trazia um regador.

“Está tudo bem?” Repetiu.

“Sim, claro. Tudo certo.” Consegui dizer.

“Você parece um pouco queimado de sol. Você passou protetor solar?” Ela perguntou.

“Eu? Não, na verdade não.”

Ela passou por mim e regou o vaso com a flor para qual cantei. Não parecia ter percebido nada de diferente.

“Você canta muito bem. Vitória.” Estendeu a mão.

“Obrigado, é muito gentil. Eu sou Cauã” Retribuí o cumprimento.

Ela começou a passar pelos vasos com seu regador.

“Matar aula no Jardim Botânico? Não é uma escolha muito comum.” Disse-me.

“Não estou matando aula! Estou numa excursão da escola.”

“Que legal. Me parece um bom passeio.”

Ela voltou a mim e apontou para o caderno que tinha na mão.

“Precisa de alguma coisa?”

“Na verdade sim! Estou fazendo um trabalho para minha aula de biologia.”

“Do que precisa?”

“Qualquer coisa já me ajudaria.”

“Não é assim que as coisas funcionam.” Ela ergueu uma sobrancelha cínica. “Quer falar sobre espécies nativas ou exóticas? Plantas medicinais ou venenosas? As de jardim ou em perigo de extinção? Ou quer fazer algo mais científico, as diferenças biológicas de uma Angiosperma para uma Gimnosperma?”

Fiquei em silêncio por um segundo. Não estava preparado nem para aquela resposta nem para tantas perguntas. Para ser sincero, nem sabia que poderia haver tanta coisa para se falar sobre plantas.

“Eu gosto de flores.”

Ela sorriu com a resposta.

“Eu também. Na verdade, eu sou só uma voluntária aqui. Eu trabalho em uma floricultura na Asa Norte.”

“Sério? Isso é bem legal!” Me vi um tanto curioso. “Eu moro na Asa Norte! Onde é sua floricultura?”

“Na comercial da 306/307.”

“Eu sei onde é! Eu moro na 308!”

“Ora que coincidência!” Sorriu.

Ela voltou para a mesa que estava no fundo da estufa e puxou uma cadeira para mim.

“Vem, senta aqui.”

Nós passamos as próximas horas estudando as várias espécies de orquídeas que haviam na estufa. Vitória até tirou da bolsa um conjunto de aquarela e um papel grosso. Ela começou a pintar algumas espécies. Com a escrita floreada colocou toda a informação biológica possível das pequenas flores.

No fim da manhã, eu estava indo embora com vários desenhos, um monte de papéis e uma nova amiga. Ela também havia me dado o cartão da floricultura para que pudesse vê-la de novo.



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Maria Gadú - Dona Cila
Jota Quest - O Sol

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