Capítulo 22


Entre reuniões, provas na escola, aulas e preparativos para a viagem me sobrava muito pouco tempo para Vitória. Ela, porém, não se importava muito. Ela dizia saber como era o fim de ano para um estudante em véspera de vestibular. Ela dizia que teríamos tempo para tudo depois.

Apesar de tudo havia conseguido alguns dias livres para passar com ela. Em uma sexta-feira particularmente quente, eu a convidei para um jantar especial.

Ela, que já dirigia, me apanhou em casa e juntos fomos a um bom restaurante à beira do Lago Paranoá. Do segundo andar conseguíamos ver não apenas o lago, mas também a Ponte JK.

“Fico feliz que finalmente possamos sair em um encontro de verdade.” Ela me disse sorrindo. “Já estava com saudade de você.”

Ela estava absolutamente linda. Os olhos estavam ainda mais marcantes pela maquiagem e os lábios pintados em um tom escuro de rosa pareciam cheios e delicados.

No cabelo perfeitamente alinhado trazia uma coroa de pequenas rosas feitas de metal dourado que combinava com seu vestido verde, amarelo e rosa.

“Me desculpe, mas esses últimos meses têm sido difíceis.”

“Não se preocupe, sei como é. Lembro da minha época.”

“Você fez biologia, não é?” Perguntei.

“Ah sim! Na verdade, meu pai me ensinou tudo o que eu sei. Desde cedo ele me apaixonou por botânica. Depois de um tempo fui fazer Biológicas na USP e também fiz um mestrado na área de botânica.”

“Mas você é tão nova!”

Ela deu de ombros.

“Eu entrei nova na faculdade e fiz tudo de uma vez.” Sorriu. “Além do mais... Eu sou muito boa no que eu faço!” Me deu um daqueles sorrisos cínicos que eu tanto gostava.

“E como acabou em uma floricultura?”

“Bom, no momento estou esperando em um período sabático. Estou planejando meu doutorado. Além do mais, gosto de trabalhar na floricultura. Tem algo de mágico. É quase como um universo paralelo.”

“Tirando os clientes?” Ri.

“Não! Claro que não! Eles são importantes para minha história! Afinal de contas, toda boa história precisa de um vilão!”
Tive de rir da piada.

Nós nos calamos quando o gerente do restaurante subiu ao palco. O restaurante em que estávamos era particularmente famoso por atrações musicais de qualidade. Ele, porém, nos avisou que houve um imprevisto e que não haveria música naquela noite.

O som de descontentamento cortou todas as mesas. Várias pessoas começaram a falar em ir embora, afinal todos esperavam um cantor.

“Você deveria subir lá! Você canta tão bem!” Ela me incentivou.

Torci o nariz ao ouvir aquilo.

“Hoje não. Hoje, a noite é sua. Não te abandonaria para cantar.”

“Por favor! Eu nunca te ouvi cantar de verdade!” Ela pediu. “Isso contaria pontos a seu favor!” Riu.

“Bom... Se te fizer feliz.”

“Me faria muito feliz.” Admitiu. “Cante algo para mim. Algo que ache que vou gostar!”

“Sendo assim...”

Levantei abotoando meu blazer e fui ao gerente que tentava explicar a vários clientes a falta de uma atração musical.

Eu me apresentei e me ofereci para um pequeno número musical. Ele a princípio recusou, porém logo assentiu quando outros clientes apareceram para reclamar. Ele era um pouco ríspido, porém imaginei que era pois estava sob pressão.

Ao subir ao palco o burburinho diminuiu. Parecia que todos estavam me olhando e esperando por algo.

Para um restaurante, eles até que estavam abastecidos de alguns bons instrumentos. Havia um piano que ao testar estava afinado e em bom estado. Também havia dois violões, uma bateria completa e mais alguns instrumentos de percussão. Se eram de algum músico ou do próprio restaurante já não podia dizer.

Pensei em que música devia cantar. Não era algo para entreter desconhecidos, era algo que Vitória fosse gostar. Queria algo que pudesse cantar com magia. Algo que pudesse encanta-la. Uma música me veio à cabeça.

Puxei um dos bancos até o microfone e peguei o violão. Também estava afinado. Todo o restaurante subitamente parou para me ouvir. Eu, porém, só tinha olhos para Vitória. Mesmo longe, pude ver seus olhos brilhando.

Saquei a palheta que Sol havia me dado e toquei as primeiras notas.

“Vem amar, vem amar
Vem amar, vem amar
Vem amar, vem amar!8”

Conseguia sentir a magia fluindo a cada palavra, a cada nota e a cada respiração.

“O claro de estrela de luz cristalina
No arrebol ao longe anuncia
As cores do dia que está pra chegar
Um raio de sol na flor pequenina
Reflete a grandeza do seu criador
Que vem com certeza trazendo o amor.”

Aos poucos eu via todas as pessoas envolvidas na música de um jeito muito mais poderoso que apenas apreço. Elas estavam encantadas.

Os olhos de Vitória brilhavam ainda mais e seu sorriso criava uma expressão de deleite e serenidade.

“E na correnteza o segredo da vida
A fonte do tempo não pode secar
O seu movimento nas ondas do mar
Na chuva, no vento, no meu pensamento
Numa semente a desabrochar
A força sublime do amor, vem amar!”

“Vem amar, vem amar
Vem ver o que é bom
Vem amar, vem amar
Vem ver o mundo todo clarear!”

“E no fim da tarde, a lua crescente
O sol no poente já vai se deitar
Vai girando a terra, é a natureza
É tanta beleza, que me faz cantar
Vem amar, vem amar
Que me faz cantar!”

Ao parar de tocar todos aplaudiram alto. Eu me levantei e agradeci a plateia. Essa única música havia sido o suficiente para agradar a todos. Ninguém mais reclamava e a expressão do gerente era de alívio.

“Isso foi incrível.” Vitória se levantou e veio até mim. Ela enrolou os braços no meu pescoço e me deu um beijo que me bambeou as pernas.

Quando ela se afastou riu da minha expressão.

“Você está bem?” Perguntou.

“Mais do que bem” Ri um tanto bobo.

Nós voltamos a nos sentar e logo em seguida o gerente veio nos agradecer. Além disso, pagou nossa conta e me convidou a voltar para cantar quando quisesse.



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Geraldo Azevedo - O Que Me Faz Cantar

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