Capítulo 25


Era dia 26 de dezembro. Iríamos partir no dia seguinte e, enquanto Marisol tomava conta dos últimos preparativos na sede, Fernando nos levou para um último compromisso. Ele disse que era algo como um presente.

Ele nos levou para uma loja na 404 Sul. O letreiro era preto com o desenho de asas de algum inseto em vermelho. Era o mesmo símbolo que vários dos guerreiros carregavam em suas armas e roupas. O nome da loja era “Ninho de Vespas – Camping e Utilidades”. Era uma das poucas lojas abertas.

“Eu adoro essa loja. As melhores armas vêm daqui.” Allana disse.

“Você acha que sabe o que é bom.” Fernando disse. “Se prepare porque você vai realmente entender o que é bom.”

Nas prateleiras havia de tudo. Arcos de caça, bestas, facas de camping e machadinhas. Atrás do balcão havia uma moça não muito mais velha que nós. Havia outro rapaz que enchia as prateleiras com coturnos de couro.

Fernando vasculhou a loja e, ignorando a balconista, foi direto para o rapaz.

“Davi!” Fernando chamou abrindo os braços.

O rapaz foi pego de surpresa, mas logo abriu um grande sorriso.

“Fernando! Que saudades de você! Feliz Natal!” Foi até o Encantador e lhe deu um abraço. “Sinto não ter ido na sua festa. Era natal com a família.”

“Não se preocupe com isso, sei como é.”

Os braços do tal Davi eram marcados de vitiligo e o que pareciam ser várias camadas de tinta misturadas. Os padrões da pele morena e clara com o azul, vermelho, lilás e verde eram muito bonitas, eram como uma obra de arte gravada em seu corpo. Porém não parecia tinta, e sim parte da pele... Parecia um tipo de magia.

“Deve estar ocupado! Nem aparece mais por aqui!”

“Ossos do ofício! Muitos alunos!” Fernando olhou para a garota do balcão. “Quem é a garota nova?” Fernando perguntou.

“É temporária. Mortal. Não é fácil achar herdeiros para trabalhar aqui.” Ele olhou para mim e Allana. “E aí, o que precisa? Amuletos, feitiços, relicários, armas...”

“Eu preciso falar com Padrinho.” Repetiu.

“Claro, sem problema. Ele ainda tem aquele código para você.”

O rapaz nos levou para os fundos da loja. Lá, nós descemos uma escada que acabava em um estreito corredor. No fundo, portas duplas metálica com a mesmas asas pintadas.

“Obrigado, amigo.”

Davi se despediu e subiu para a loja.

Fernando parou de frente para a porta com um olhar vazio. Ele respirou fundo e se virou para nós.

“Antes de entrarmos... Esse é o santuário de Cacique Cacira, o deus da guerra. Cuidado com ele.”

Allana parecia muito animada com toda a situação.

Fernando entrou como se aquela fosse a sala de sua casa. Uma música suave vinha de dentro do aposento.

Eu havia entrado em um santuário à guerra. Um dos lugares mais bonitos que já havia visto. Minha animação pela violência me assustou um pouco.

A nossa direita havia lanças e arcos perfeitamente dispostos na parede junto com espadas e centenas de outras armas brancas. Havia um quadro separado com o código AG-47, além de várias caixas metálicas no chão.

A nossa esquerda havia pistolas, metralhadoras e rifles de precisão. Juro que vi um lança mísseis no meio das outras armas. Deste lado da sala também havia várias caixas encostadas na parede.

Entre as várias armas e pinturas de soldados e generais, havia grandes bandeiras e estandartes. Algumas das bandeiras estavam em perfeito estado, outras estavam enlameadas, manchadas e rasgadas. No fundo da sala, uma grande bandeira do Brasil.

No fundo da sala havia um homem. Ele parecia muito grande e musculoso. Seu cabelo era muito preto e ele usava aquele penteado onde só as laterais da cabeça eram cortadas.

Ele estava concentrado trabalhando em uma estranha espada que estava sobre sua mesa. Até usava óculos de aumento. Para ele, o mundo era apenas aquela arma.

Fernando parou de frente para ele sem falar nada. Cacira não parecia ter nos percebido. O Encantador estalou os dedos e um som de trovões preencheu a sala. Cacira olhou para trás e para os lados, finalmente nos percebeu.

Ele abriu um largo sorriso e tirou os óculos.

A visão de seu rosto me fez dar um passo para trás. Seus olhos eram vermelhos sangue e por um segundo, tive a impressão que eles ardiam em chamas. Eu senti o gosto de sangue na boca. Subitamente vi imagens de batalha. Ouvi gritos, maldições e súplicas. Aquele era o rosto que povoava os pesadelos daqueles que vão à guerra.

Era um rosto bonito, de expressão dura, forte e séria. Havia várias cicatrizes e lhe faltava um pedaço da orelha. Embora eu precisasse desesperadamente não olhar para ele, eu simplesmente não conseguia, estava preso em pânico.

Meu nariz começou a sangrar.

Ele exalava violência e agressividade. Mesmo que estivesse sentado ao som de Nando Reis.

“Nando!” Ele se levantou e a mesa se desfez em névoa.

Meu pânico virou confusão.

Eu não conseguia conceber muito bem a presença de Cacira a minha frente. A mistura que acontecia era bizarra demais para ser assimilada. Eu via que usava uma regata preta com um símbolo estranho, por cima da camisa, um largo quimono vermelho de tecido leve. No braço esquerdo trazia um terço budista enrolado no pulso e no pescoço dois muiraquitãs. Nos pés, coturnos de couro com rebitagem em aço.

Eu não estava conseguindo assimilar o estilo soldado-hippie-zen.

“Por Ami, você está enorme!”

Ao ver Cacira avançando sobre nós eu quis desesperadamente chorar e me esconder.

“Não faz tanto tempo assim que nós nos vimos, padrinho” Fernando disse.

“Não estou falando de altura! Você tem treinado, não é?” Pareceu feliz. “Um guerreiro exemplar! Seu pai deve estar orgulhoso!”

“Já discutimos isso, padrinho. Encantador.”

“Esqueça isso!” Riu dando um abraço em Fernando. O deus era tão alto que o tirou do chão. “Embora tenhamos que pintar seu cabelo de preto. Em um campo de batalha esse cabelo vai ser alvo fácil.”

“Eu gosto do meu cabelo! E não se preocupe, você me treinou bem para isso.”

Cacira pareceu perceber nossa presença.

“E o que temos aqui?”

Encolhi-me diante dele. Ele logo percebeu minha reação e botou um par de óculos de armação redonda. Subitamente as visões pararam e eu consegui voltar a respirar direito.

“Não sei se está sabendo. Paba está tentando achar o relicário de Yasa’i. Estamos coordenando uma ação para protegê-lo e essas coisas.” Disse entediado. “Esses dois estão indo para uma localização secreta para cuidar do assunto.”

“Interessante. Essa conversa é bem velha. Achei que ia demorar mais uns cinquenta anos para isso acontecer.”

“Precisamos de armas.”

“Claro que precisam. Se desceu até aqui, não foi para comprar mandioca.” Ele disse como se fosse óbvio.

“Mas primeiro, me diga, padrinho, Ya’Wara e meu pai sabem que você anda se vestindo assim?” Perguntou aleatoriamente.

O deus se calou surpreso por um segundo.

“E quem se importa! Os dois agem com tanto pudor, mas se esquecem daquele infeliz carnaval em Olinda em ‘82! Eu posso vestir o que eu quiser!” Se afastou irritado. “Não foi nem mistério nem segredo Ya’Wara nas ladeiras de Olinda! E seu pai gosta muito de esquecer aquela época punk lá pelos anos 70 com o cabelo colorido e as roupas de couro. Posso lhe dizer, Ami é justo, mas as calças do seu pai eram muito mais!”

“Ouvi histórias.”

“E então começou a andar com aqueles garotos lá da Colina...” Bufou. “Dois hipócritas! Se não fossem meus melhores amigos eu já teria matado a ambos milênios atrás!”

Cacira abriu os braços e de suas mãos, chamas surgiram. Elas se alastraram comendo o quimono e engoliram seu corpo até que ele virasse uma grande fogueira. Entre as chamas eu via mais imagens de violência.

Diferente de Dom Caiçara, o fogo não era aconchegante, era quente demais e nocivo. O calor começava a me queimar e secar meus olhos. Eu sentia o cheiro de carne queimada e fumaça.

Quando a chama abaixou o deus estava em seu ápice. Seu uniforme estava completo, com direito a colete a prova de balas e boina. A única coisa que se manteve foram os óculos e as botas.

“General Cacira, Cacique dos Deuses às suas ordens.” Bateu uma continência.

“Essa roupa cai bem em você.”

O deus sorriu ajeitando sua boina.

“Eu fico bem em qualquer coisa. E aí, o que temos aqui?” Ele perguntou interessado. “Quer saber, não me diga.”

Ele se aproximou de Allana. Era óbvio que estava animada. Cacira era o pai da herança dela.

“Essa daqui é das minhas, com certeza.” Ele sorriu. “Esse porte, elegância... Esses olhos! Só pode ser sangue da guerra. E essa beleza... Icamiaba.”

“Cacique Cacira... É um honra conhecê-lo.” Ela se ajoelhou diante do deus.

“Não se curve!” Ele a pegou pelas mãos e a pôs de pé. “Você é uma Guerreira! Guerreiros não se curvam.”

A alegria de Allana era enorme. Eu podia vê-la até em seus olhos. Cacira, por outro lado, franziu o rosto em uma expressão de dúvida.

“Agora eu reconheci você! Foi você quem rezou pela minha bênção alguns meses atrás, não foi? Allana Moreira, não é?”

“Isso mesmo, meu Cacique. Obrigado pela benção! Até consertou minha visão!” O deus parecia imensamente feliz e satisfeito. Ele deu um sorriso maligno para ela quando endireitou a postura.

“Tenho coisas especiais para você, minha criança!” Ele tirou a boina e colocou nela. “Vamos te armar com tudo que você vai precisar! Um bom par de espadas, algumas facas, uma boa lança e é claro... Uma armadura Icamiaba sob medida! Você será imbatível.”

Cacira e Allana pareciam se divertir muito com a lista que ele fazia para ela, ele apontava para a parede e dizia para ela escolher o que mais lhe agradasse. Fernando percebeu meu desconforto com toda a situação.

“Não se preocupe. Esse não é um lugar para nós.”

Assenti em silêncio.

“E esse aqui?” Cacira perguntou curioso. “Não estou conseguindo reconhecer...”

“Jaci.” Eu disse.

Ele olhou para Fernando e de volta para mim. Seu desapontamento foi quase tão palpável quanto sua surpresa.

“Temos motivos especiais para colocá-lo nessa missão.”

“Ok... Se estão todos de acordo...” Deu de ombros. “Espero que não se incomode, vou fazer igual seu presente de aniversário.”

“Se o salvar como me salvou, valerá a pena.”

Cacira foi até uma das paredes e pegou uma espada, ele então a levou até a mesa que havia reaparecido. Ele soltou a arma no ar e ela flutuou por um instante.

Cacira esfregou as mãos juntas até que elas se tornassem laranjas de calor. Ele tocou na espada e sem esforço começou a moldar o metal que amolecia e derretia como se fosse argila. Não imaginava que ele fosse capaz de ser tão delicado e gentil.

Ele soltou a massa amorfa que flutuou sobre a mesa. Com movimentos ainda mais delicados e sem nem encostar na arma, lhe deu forma. Ela afinava e alongava enquanto permanecia solta no ar. Quando ficou satisfeito, o deus estalou os dedos esfriando o metal com um estalido seco.

O cilindro metálico caiu inerte em sua mão.

Ele mostrou a flauta para que eu pudesse inspecioná-la.

“Uma flauta?” Allana perguntou incrédula. A expressão de Cacira se fechou um pouco. “Não quis desrespeitar, Cacique Cacira.”

“É lindo.” Por um segundo havia me faltado o ar nos pulmões.

“O garoto gostou.” Ele pareceu satisfeito. “E não é só uma flauta transversal, mulher de pouca fé.”

Cacique Cacira me estendeu o instrumento. Ela era bem mais pesada do que esperava e com certeza era muito resistente.

“Obrigado.” Consegui dizer.

“Não se preocupe garoto. Só... Tente ficar longe da bagunça.” Soou sério. “E se tudo der errado, se esconda atrás de Allana, ela saberá o que fazer.”

Ele então bateu palmas duas vezes e em uma grande fogueira sobre a mesa, duas mochilas de lona pretas apareceram. Uma tinha uma vespa e um sapo, a outra uma lua.

“Já estão equipados e abençoados. Vão, vençam e tragam honra à suas linhagens.” Disse. “Principalmente você, Allana. Quero ouvir grandes coisas de você! E não esqueçam de ler o manual de instruções!”

Eu peguei a mochila com a lua e fui para a porta. Antes de sairmos, Cacique Cacira fez um pigarro chamando nossa atenção. Fernando se deteve olhando para ele.

Cacira tirou os óculos e nos mostrou as pupilas enegrecidas Ele não parecia tão violento agora, parecia até frágil, se é que era possível. Ele parecia querer dizer algo, porém não era capaz.

“Eu também sinto falta da Ângela.”

“Faz tanto tempo...”

“Me liga. Nós podemos visitá-la juntos.”

“Eu gostaria disso...” Deu um sorriso triste.

“Tchau, Padrinho. Se cuida.” Disse um pouco triste.

Nós saímos da loja e fizemos o caminho de volta para a base.

“Ele não é como as histórias descrevem...” Allana falou com a boina de Cacira nas mãos. “O que aconteceu com ele? Parece confuso... Quebrado.”

Fernando torceu o nariz.

“Cacira é uma pessoa complicada.” Ele disse. “Ele é o deus da guerra, da violência e da barbárie. É tão instável quanto a própria guerra. Ele foi um dos deuses que melhor se adaptou à modernidade, mas não sem custos. Ele não anda muito bem da cabeça.”

Suspirou.

“Cacira é um guerreiro sem uma guerra para lutar.” Concluiu.

O silêncio tomou conta do carro.

“Eu sabia que algo tinha acontecido com seus óculos.” Chutei o banco de Allana.