Capítulo 28


Finalmente chegamos ao nosso primeiro destino. Uma pequena cidade chamada Aparecida do Rio Claro. Acho que ainda estávamos no Goiás.

Sol havia parado em uma pequena pensão onde havia alugado um amplo quarto para nós. Ao chegar, percebi que o aposento não era nada além de uma sala e um quarto. Algo me dizia que eu iria dormir no sofá esta noite.

A primeira coisa que fiz foi mandar uma mensagem para minha mãe e Vitória. Foi uma das condições com as quais ela me deixou viajar.

“Você já viu o que tem na sua mochila?” Allana me perguntou.

“Só tem a flauta...”

“Você não leu o manual de instruções?”

“Ela não tem um manual. E por que uma mochila teria um manual de instruções?”

Ela pegou minha mochila e sacou um grosso livreto.

“Eu juro que isso não estava aí!”

Ela me entregou o manual e na mochila, girou o brasão da lua como se fosse um botão. Ela, então, a atirou para o outro lado do quarto e quando bateu no chão, começou a vibrar. Ela se modificou para um formato quadrado. Então esticou até chegar a dois metros de altura.

“Essa é nova...”

Ela foi até a caixa e apertou o brasão. Um som quase angelical preencheu o quarto. As faces internas da caixa se abriram em quatro, formando uma parede que expunha os equipamentos. Eu dei um passo à frente para olhar as armas mais de perto. Havia um arco e uma aljava cheia de flechas, uma estranha lança e algumas facas. Tudo me pareceu... extremo. Na parte de baixo havia quatro pequenas gavetas.

Abri o manual na primeira página.

“Parabéns por ter adquirido o kit Muyrá básico. Toda esta grife é assinada por Cacira, o Deus da Guerra.” Olhei para ela. “Como isso é possível?”

“É um equipamento mágico.” Deu de ombros. “Pelo que entendi ele funciona de duas formas. Nessa configuração ela vai guardar o que couber nesse armário.” Ela me explicou.

“E a mochila?”

“Bom... Pelo que Fernando me falou elas são basicamente infinitas. É só pensar no que quer pegar e puxar para fora. Mas você também pode usar como uma bolsa comum.”

“Isso não faz sentido...”

“Pelo preço que custam, não precisa fazer sentido.”

Sol voltou ao quarto com alguma comida para nós.

“Falei com Fernando. Todas as comitivas saíram sem problemas. Até agora está tudo certo.”

“Ok, como quer fazer isso?” Allana perguntou.

“Vamos vigiar em turnos. Eu pego o primeiro, você pega o segundo para eu poder dirigir amanhã.”

“Ahn... E eu?”

Elas me olharam confusas.

“Você dorme.”

“Mas... Eu posso ajudar. Posso vigiar. Estarei de pé junto com a lua.”

“Não obrigada, eu e Allana damos conta. Descanse.”

Sabia que não tinha muito motivo para discutir com elas. Arrumei minhas coisas e fui tentar dormir. Embora o sofá fosse surpreendentemente mais confortável do que eu imaginava que seria, não conseguia dormir. Sentia um certo pânico por estar aqui.

Mesmo que estivesse absorto em pavor, ter Sol ali me era reconfortante. Ela cantarolava uma canção enquanto bordava algo em um tecido branco.

“O que está fazendo?” Perguntei.

“Não consegue dormir, pequeno?” Eu fiz que não. “Estou bordando um retalho para minha colcha de retalhos.”

“Não sabia que você bordava.”

“Ah sim, eu bordo muito bem. Aprendi com minha avó que era bordadeira.”

“E o que você borda?”

“Gosto de bordar animais. Tenho um retalho para cada espécie de animal que já invoquei. E faço retalhos comemorativos de missões que participei. Além de pessoas e outras coisas. Minha vó dizia para bordar tudo que achasse importante. Tudo que não pudesse esquecer.” Sorriu. “Agora dorme, o dia amanhã é cheio.”

“Não consigo... Estou um pouco nervoso.”

Ela levantou e arrumando as cobertas, sentou no sofá comigo.

“Qual o problema?”

“Só estou um pouco fora da minha zona de conforto...”

“Não se preocupe. Você vai se sair bem.”

Por um segundo ficamos envoltos em silêncio. No escuro da noite eu mal a via.

“Posso te perguntar uma coisa?”

“O que foi?”

“Como você entrou nessa?” Perguntei.

“Pergunta boa...” Admitiu. “Difícil de explicar. Para começar essa, preciso introduzir a minha própria história. Minha mãe é da Bahia e meu pai é de Nairóbi, no Quênia. Acho que tudo começou aí. Ele é professor e veio para dar aulas na UFBA. Ele diz que se apaixonou na hora. Diz que minha mãe tem olhos de leoa.”

“Isso é bonito.”

Ela sorriu para mim.

“Meu pai é um charme. Nós moramos um tempo em Nairóbi, mas o chamado de casa foi maior. Eu e minha mãe éramos animais em busca de casa. Acabei ficando conhecida por causa das minhas invocações e quando era mais velha eu fui recrutada para a batalha que você foi recrutado hoje.”

“Foi como conheceu Fernando?”

“Sim. Fomos recrutados para um time de elite. Basicamente fazíamos todas as missões pelo Brasil. Começou dando certo, mas depois de algum tempo o inimigo pegou a nossa estratégia. Não éramos as pessoas mais discretas...”

“Jura? O que vocês faziam?” Perguntei rindo.

“Bom, lembro de uma vez que fiz minha maior invocação animal. Invoquei três elefantes que eu, Fernando e Takeda usamos como montaria para quebrar um buraco numa base inimiga.” Disse rindo. “Foi uma gritaria.”

Falar com Sol estava me fazendo bem. Começava a me sentir com sono.

“E o que deu errado?”

“Fomos pegos. Presos em uma outra instalação. Fomos salvos por reforços e vimos que não tínhamos como continuar. Nós formamos um centro de controle e começamos a expandir. Daí veio Roberto, Allana e você.”

“Allana é subordinada a você, não é?”

“Sim, ela é da minha equipe.”

“Foi assim que ela conseguiu essa indicação?”

“Não, ela tem o mérito dela. É uma guerreira incrível. Eu só fiz questão de enaltecer isso.”

Voltamos ao silêncio. Me senti bem por ter Sol ali.

“Eu gostaria de ouvir suas histórias.”

“Não se incomode com minhas velhas histórias... Você viverá as suas.” Ela levantou do sofá. “Agora dorme. O dia não tarda a chegar.”