Capítulo 29


Eu acordei em uma floresta.

Ao meu redor centenas de árvores cresciam juntas. Eu estava na beira de um córrego que cortava a floresta. Acima de mim o céu tinha um tom de azul muito forte. Eu me sentia incrivelmente bem.

Levantei-me e olhei ao redor. Além do barulho da água, não havia nenhum outro som.

Um tremor sob meus pés me tirou dos meus devaneios. Da areia e pedras que formavam a margem do rio, um enorme espelho emergiu. O mundo ainda era silêncio.

O espelho tinha uma moldura negra e lustrosa. Era adornada com vinhas espinhosas e no topo, um crânio sem mandíbula. A placa era fosca e não refletia nada.

Eu me detive olhando para ele por algum tempo, meu coração batia forte e eu sentia meu estômago revirar. Subitamente, a placa começou a clarear e mostrar meu reflexo.

Embora a imagem fosse minha definitivamente não era eu. Eu estava maior, mais forte. Na imagem eu estava só de calças jeans. Ali haviam músculos que eu tinha a certeza que não existiam em mim. A imagem estava pintada com padrões geométricos pelo rosto, braços e tórax. Na mão trazia a estranha lança de Cacira. Passou-me pela cabeça que aquele talvez fosse eu se fosse como Allana, um Guerreiro.

Como um portal, o meu eu 2.0 saiu do espelho com a lança em mãos. Ele sorriu de uma forma maligna enquanto seus olhos se tornavam completamente brancos. Com um rápido movimento ele me atravessou com a arma sem piedade. Embora fosse um sonho eu senti a lâmina passar direto por mim.

Eu acordei tão agitado que cai do sofá. Havia sido só um sonho. Só um sonho.

Allana me olhou confusa. Ela estava lendo um livro ao lado de um abajur. Ao seu lado um enorme machado de batalha.

“Você está bem?”

“Estou... Tive um sonho ruim...”

Tentei levantar do jeito mais digno possível.

“Escuta... Não vou mais conseguir dormir hoje... Que tal você ir para cama? Eu fico até irmos embora.”

Ela olhou para o relógio e deu de ombros.

“Não acho que vá acontecer mais nada ainda hoje... Então, boa noite.” Ela entrou no quarto e deixou o machado para trás.

Eu apaguei o abajur e abri a caixa de Cacira.

A luz se acendeu novamente. Não era o suficiente para iluminar nada além das armas, porém não me deixaria na escuridão total. Olhei para aquela lança que havia me matado em meu sonho. Por algum motivo ela me dava medo.

Comecei a olhar o que havia nas gavetas. Em uma delas havia um outro livreto. Era muito mais fino e mais simples. Intitulava-se ‘Milênios de Luar – A História dos Encantadores’.

Junto com o livreto, eu achei um pequeno envelope vermelho com meu nome escrito. Eu o abri e havia uma carta escrita à mão em tinta vermelha.

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Cauã,

Não achei justo te mandarem para combate sem ao menos dizer o que você é de verdade. Sendo você o único diferente em seu pelotão, é necessário saber exatamente suas capacidades e fraquezas... Saber seu real valor.

E jamais esqueça: não é por que você não é um Guerreiro que não seja capaz de mudar o mundo.

Mude como Jaci mudou.

- Cacira
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Aquele bilhete me trazia alguma sensação de força, embora não soubesse dizer de onde. Comecei a folhear o livro.

Ele contava um pouco sobre Encantadores, suas origens e pessoas famosas. Além disso, contava um pouco da história de Jaci. Havia algumas menções a ela como “A Salvadora de Guerreiros”. Também contava sobre os poderes dos Encantadores e suas armas.

Entre os vários papéis e livretos nas outras gavetas também achei uma carta de Fernando dizendo que havia deixado algumas coisas na mochila caso precisasse. Ele também me dizia para ler o manual de instruções.

Decidi seguir o conselho e comecei a lê-lo. Após aquela leitura noturna percebi que não precisava de nada que houvesse na caixa das armas.