Capítulo 3


Alguns dias depois do passeio ao Jardim Botânico, eu e Allana fomos ao Parque da Cidade, como era de costume aos domingos. Ela era uma atleta nata, eu, porém não fazia nada além de andar de skate ao seu lado enquanto ela corria. Muitas vezes eu lhe amarrava uma corda na cintura para que ela me puxasse pelo caminho. Ela gostava de dizer que sua mochila da escola pesava mais do que eu.

Hoje, porém, não era um desses dias. Desde que ela havia descoberto sobre Vitória ela havia embarcado em um pequeno projeto de me juntar com ela.

“Eu já te disse. Ela parece mais velha. Não acho que ela já na faculdade vá querer ficar com alguém do ensino médio.”

“Não seja bobo.” Ela riu. “Faltam menos de quatro meses para o final do ano e seis para a faculdade. Isso é irrelevante.”

“É, mas não sei...”

“Eu vi os desenhos, ela não faria aquilo se não visse algo em você.”

“Ela só queria ser prestativa.”

“Você sabe o preço de papel de aquarela?”

“Não... Quanto?”

“Eu também não sei. Mas sei que é caro o suficiente para você não ficar por aí distribuindo para quem acabou de conhecer.”

Ela tinha uma certa razão. E era algo que eu gostaria de pensar melhor. Vitória realmente havia mexido comigo. Dos olhos claros à escrita floreada.

Allana subitamente parou e me puxou de cima do skate. Se ela não estivesse me segurando, eu teria caído de cara no chão.

“O que foi?”

Ela estava com uma expressão séria. Os olhos estavam focados em algum lugar entre o bosque de pinheiros.

“Vamos voltar.” Ela disse séria.

“Está tudo bem?” Perguntei tentando ver o que ela via.

“Tudo. Só uma sensação ruim.”

Preferi não discutir.

Nós demos meia volta e partimos. Ela tentava fingir que não havia visto nada, porém eu conseguia ver na atitude dela. Parecia medo. Ela até parecia correr mais rápido que o normal.

Nós andamos até chegar em um pedaço da trilha que cortava os bosques de pinheiros. Finalmente eu vi o que lhe afligia. Eram três pessoas que bloqueavam a passagem.

Eles nos olhavam ameaçadores como animais que avistavam as próximas presas. Tudo neles era assustador, a postura, os olhos, os sorrisos maldosos... Allana parou com uma expressão resignada.

Eram dois rapazes e uma moça. Os três eram fortes e altos, vestidos em uniformes pretos impecáveis. Percebi que estavam equipados com armas estranhas. A mulher trazia na cintura um chicote e vi em um dos homens, facas presas no cinto.

“O que é isso?” Perguntei nervoso. “Assalto?”

“Sim.” Allana respondeu seca.

O rapaz que vinha na frente encarou Allana por um segundo. Ele tinha um olhar assassino e uma cicatriz no queixo. Ele sacou uma foto do bolso e deu para a mulher entre eles. Parecia ser a líder do bando.

Ela com certeza era a pior dos três. Usava botas sem salto e uma jaqueta de couro preto. Seus olhos eram vorazes e seu sorriso ameaçador. Percebi que seus dentes eram maiores do que deveriam ser e os caninos eram muito afiados.

“Allana Alves Moreira. Guerreira e filha das Icamiabas.” Disse mostrando uma foto de Allana.

Eles sabiam quem ela era. Não era um assalto, era um sequestro.

“Você vem com a gente.” A mulher sorriu se aproximando veloz.

Por um segundo Allana ficou em uma guerra de olhares com a líder, que chegava cada vez mais perto. Ela então sorriu.

“Cauã...” Ela disse calma. “Ao meu sinal, eu quero que você corra o máximo que você conseguir.”

Sem perder um único segundo ela chutou meu skate para suas mãos e com um movimento forte o quebrou no rosto do rapaz a sua direita.

Eu obedeci sem pensar. Pus-me a correr para longe deles. Eu gritava por ajuda, porém estávamos completamente sozinhos.

Eu tropecei em um galho e me espatifei no chão com força. Foi aí que percebi que estava sozinho. Eu havia abandonado Allana para trás.

O medo de perdê-la foi maior do que qualquer outro. Pus-me de pé e fiz o caminho de volta ainda mais rápido. Eu não conseguia mais vê-los, porém, o rapaz que Allana havia acertado ainda estava desacordado no chão.

Eu pulei sobre ele e continuei a correr seguindo os rastros e sons de uma briga. Haviam as lascas do meu skate e vários pedaços maiores para seguir. Eu parei ao ouvir uma explosão. Logo em seguida, um uivo alto.

Minha respiração estava pesada e meu coração batia forte. Eu tinha poucas chances de acha-la, tinha que pensar direito. Segui a fumaça negra que surgia entre as árvores.

Quando finalmente os avistei, tive vontade de correr para o mais longe que conseguia de Allana.

Sua expressão era raiva e poder. Seus olhos eram sérios e uma aura vermelha parecia tomar conta dela. Em sua mão esquerda segurava um enorme pastor alemão pela pele do pescoço. Ela o ameaçava com uma espada curva que trazia na mão direita.

Com o pé direito pisava no pescoço do outro rapaz. Ele não parecia nada bem. Tinha um corte no rosto e os olhos pareciam sem vida. Os gemidos que soltava indicavam que pelo menos estava vivo.

Allana também não estava nada bem. Ela tinha uma mordida na coxa esquerda e um corte no braço. Além disso, tinha uma pequena faca presa à outra coxa.

Chamas lambiam a grama e as árvores ao redor, porém ninguém parecia se importar muito com isso.

“Quem te mandou?” Allana urrou. Se o cachorro pudesse transparecer alguma emoção, seria medo.

“Ok... Você venceu...” A moça disse tentando parecer colaborativa. Ela havia levado algum golpe, pois o rosto já começava a inchar. “Veja... Desarmada.” Chutou um chicote e um apito de cães para longe de si.

Allana não parecia disposta a deixar seus reféns irem.

“Me ajude a te ajudar.”

“Parece que eu preciso de ajuda?” Allana perguntou agressiva.

A moça parecia perdida. Eu próprio comecei a ficar com medo, não sabia o que estava acontecendo e temia o que poderia acontecer com os envolvidos.

“Allana! Para!” Gritei.

Sua raiva se dissipou e ela abaixou a espada me procurando. A aura vermelha pareceu se dissipar no ar.

Sua adversária sorriu para mim como uma víbora. Ela correu na minha direção e me pegou pelo pescoço. De algum lugar ela sacou uma pequena faca e a colocou em minha garganta.

“Eis minha moeda de troca.” A garota disse. “Solta o cachorro, se entrega e o garoto aqui sobrevive.”

Eu estava completamente paralisado de medo. Minhas mãos tremiam e por um segundo achei que fosse vomitar.

“Você não tem ideia com quem está mexendo.” Allana soou ameaçadora. Ela pisou com mais força no pescoço do rapaz, tingindo-o de um estranho tom de roxo.

“Posso dizer o mesmo.” Pressionou ainda mais a faca no meu pescoço.

Allana hesitou por um segundo, porém soltou o cachorro e a espada. A lâmina se cravou no chão e o cachorro fugiu até desaparecer entre as árvores. Ela também arrancou a faca que estava em sua coxa.

“Isso... Boa garota. Ninguém precisa se machucar. De joelhos, mãos para cima e cabeça baixa.”

Allana ajoelhou com dificuldade e em silêncio. A mulher foi se aproximando dela ainda me segurando com força. Quando paramos diante dela, ouvi Allana falando algo baixo. Parecia rezar.

A mulher ainda não havia me soltado. Ela abaixou até a altura de Allana e deu um riso cínico.

“Você vai nos contar o que queremos saber e todos voltam para casa inteiros. Isso é muita generosidade depois de tudo que você fez com meus colegas. Olha para mim enquanto falo com você!”

Allana ergueu a cabeça e nos encarou com olhos vermelho-sangue. Suas írises irradiavam tanta energia que as lentes do óculos se quebraram e derreteram a armação. Marcas brancas surgiram em sua pele negra.

Em seus olhos eu vi sangue, morte e violência. Tudo subitamente se apagou.