Capítulo 31


Nós finalmente havíamos chegado à Cuiabá. Eu sempre achei que estivesse adaptado ao calor por causa do cerrado, porém o pantanal tinha seu jeito especial de ser quente. Meus deuses, a cidade parece uma sauna.

Nós sentamos em um restaurante com mesas na calçada. Sol dizia que devíamos comer bem sempre que pudéssemos por que em campo, não se sabia a próxima vez que comeríamos.

Allana sacou o celular e nos mostrou a foto de um rapaz de cabelo longo.

“Esse é Rafael. Ele deve aparecer a qualquer momento. Fiquem atentos a ele. Fernando acabou de dizer que ele está nos arredores.”

Nós começamos a almoçar em silêncio. Nós estávamos atentos ao nosso redor em busca não apenas de Rafael, mas qualquer inimigo em potencial.

“Ali.” Sol gesticulou com o garfo.

O rapaz que se aproximava era impressionante. Era com certeza um guerreiro, mas parecia diferente dos outros. Tinha o porte de um atleta, de nadador.

Ele era muito alto e sua pela era bem bronzeada, como se passasse muito tempo ao sol. Tinha um longo cabelo preto que vinha amarrado em um coque desleixado. Embora estivesse absurdamente quente ele vinha com coturnos pretos e calças jeans. Ele também usava uma camisa da Pitty. No ombro uma grande mochila de lona; parecia com as de Cacira, mas muito mais velha e carcomida.

Tinha uma tatuagem no braço direito, eram três fileiras do que pareciam ser escamas. No topo eram acinzentadas, porém no final eram de um vermelho desbotado que mais parecia rosa.

Ele chegou a mesa e também sacou o celular. Parecia comparar algo na tela com Allana.

“Capitã.” Cumprimentou a guerreira batendo o punho fechado sobre o coração.

“Sente-se, coma conosco.” Sol lhe disse.

“Muito gentil.” Se sentou à mesa com uma expressão séria. “Achei que seríamos só três.”

“Sol voltará para a Brasília.” Allana disse. “Precisávamos de alguém de confiança para nos trazer aqui.”

“Por que não vieram só vocês?” Ele estranhou.

“Nós somos menores de idade. Não dirigimos.”

A expressão dele era pura confusão. Ele até parecia irritado.

“Mandaram menores de idade para essa missão?” O tom da voz era claramente desgosto.

Allana não parecia disposta a discutir. Limpou a boca com o guardanapo e estampou no rosto sua melhor cara de autoridade e desdém.

“Mandaram uma icamiaba, herdeira de Cacira e abençoada por ele. Mestra em artes marciais e mais de quinze armas brancas e de fogo.” Respondeu polida. “O que é mais do que posso falar de você.”

Rafael ergueu uma sobrancelha um tanto ofendido.

“Se tem algum problema com minha idade ou qualquer outro ponto sobre mim, avise agora que dou sua baixa da missão nesse instante. Sol te substituirá sem problemas. Correto?”

“Como desejar, Capitã.” Marisol sorriu.

Rafael acabou sorrindo. Ergueu as mãos em rendição.

“Você manda.”

“Que bom que entendeu. Já comeu?”

“Ainda não.”

“Então coma. Temos muita estrada pela frente.”

Sol pegou suas coisas e se levantou.

“Já que estão todos juntos, Fernando me espera. Boa sorte, irmã. Qualquer coisa que precisar, já sabe.”

“Obrigada pela ajuda, Sol.”

Ela pegou as chaves do carro e deu para Rafael.

“Os documentos estão no porta luvas. Use cinto de segurança, evite ultrapassagens desnecessárias, não beba e lembre-se... É limite de velocidade, e não sugestão de velocidade.”

“Tem certeza? Um racha sempre anima uma manhã tediosa.”

Sol riu do comentário.

“Se o que der errado nessa missão for um acidente de carro eu peço que fique vivo. Por que morte vai ser pouco para o que vou fazer com você.” Ela mostrou os longos caninos de forma ameaçadora. Com as próprias aranhou a mesa de madeira com tanta força que deixou marcas fundas. Parecia que Rafael não iria se divertir conosco. “Traga-os de volta.”

“Ok... Não gosta de piadas. Sim senhora.”

Por alguns minutos nós ficamos em silêncio olhando para a cara dele e ele para as nossas.

Ao longo do almoço percebi mais coisas nele. Seu rosto tinha pequenas cicatrizes e seus olhos eram extremamente focados e sérios.

No antebraço esquerdo havia uma enorme tatuagem de um machado de batalha. No bíceps esquerdo uma tatuagem de um tubarão e no braço direito algo que parecia ser uma sereia. Também tinha vários brincos na orelha e várias pulseiras como design de flechas. O estilo roqueiro me lembrava um pouco de Fernando, embora Fernando tivesse uma elegância difícil de se comparar.

“E o que ele é?” Rafael perguntou para Allana apontando para mim. “De herança.”

“Jaci.”

A expressão dele derreteu.

“Um Encantador...” Disse seco. “Por que te mandaram para campo?”

“Eu tenho uma flauta, ansiedade e um sonho.”

A expressão dele se tornou confusa.

“Vocês fazem escolhas interessantes lá na capital... Encantadores e menores de idade...”

“Eu não sou de me gabar mas... Eu toco flauta muito bem.” Disse.