Capítulo 33


Eu e Rafael passamos o dia preparando a cerimônia enquanto Allana procurava nosso almoço.

“E aí, preparado para isso?” Ele me perguntou.

“Bom... considerando que a missão é bem mais perigosa, isso parece tranquilo.”

Conseguia sentir o quanto ele estava desconfortável. Quando achei que ele iria explodir, ele parou e respirou fundo.

“Por que você está aqui?” Perguntou sério.

Sorri cínico.

“O que quer dizer?”

“Você... é um Encantador... Esse não é um lugar para você.”

Aquilo me magoou um pouco. Entretanto sabia que não podia mostrar fraqueza. Fernando havia me ensinado como agir com guerreiros.

“Eu estou aqui por um motivo.” Disse. “E Allana me aceitou nessa missão, então infelizmente você terá que me aguentar.”

“Eu não estou nem aí para o que ela disse. Esse lugar é perigoso para você. Você pode morrer!”

“Você também!”

“É, mas eu existo para isso! Quem liga se eu morrer?”

Aquilo pairou no ar por um segundo.

“Eu ligo!” Gritei.

“Você nem me conhece!”

“O que não quer dizer que eu te quero morto! Embora calado fosse uma ótima opção.”

“Você tem família?”

Sentia meu sangue ferver.

“O que isso tem a ver?”

“Eu não tenho. Ya’Wara me deu um motivo para viver quando eu não tinha motivo nem para sair da cama.”

“Você é uma pessoa muito complicada. Já pensou em tratamento psicológico?”
Ele se sentou no sofá com uma expressão cansada.

“Pelo que você luta?” Ele me perguntou.

“No momento, eu luto para você ficar calado. Além do tratamento psicológico.”

“Alguns anos atrás eu fui visitar o túmulo da minha mãe. Eu perguntei ‘Por que lutar’? E o silêncio foi minha resposta.”

“Por que você estava falando com uma lápide!”

“Minha mãe morreu no mar.”

“Pior ainda! Toda essa sua esquete não faz sentido! Você está gerando cenários para justificar padrões e comportamentos nocivos! Eu sei que não é fácil, mas esse caminho que você está trilhando é perigoso.”

“Não é fácil? Você não sabe como é isso.” Ele me disse. Aquele foi o ponto em que não me importava se ele era um guerreiro ou não, se ele era maior que eu ou não. Se ele fosse capaz de me matar ou não. Ou eu falava o que estava em meu coração ou eu quebraria meu violão na cabeça dele.

“Eu não sei como é isso?” Contive-me o máximo que fui capaz. “Eu cresci sem pai.”

Ao ouvir aquilo ele endireitou a coluna e se sentou mais ereto.

“Você viveu com sua mãe por treze anos? Isso é muito mais do que eu tive! Meu pai morreu na droga de um incêndio quando eu mal tinha um ano! Talvez ele fosse o Encantador que me deu poder, porém nem isso eu saberei. Toda a minha linhagem morreu com ele e tem que recomeçar aos trancos e barrancos comigo! E eu garanto que eu não sou a melhor pessoa para isso!”

Ele tentou me interromper, porém eu precisava dizer aquilo.

“Eu vivi minha vida inteira sem saber quem ele era! O que ele era! Eu não sei o tom da voz dele e nem como ele cantava. Eu não sei a cor da magia dele nem que feitiços ele gostava de fazer. E a única imagem que eu tenho dele são as que os outros pintam para mim. ”

Senti meus olhos marejarem e a respiração me faltar.

“E eu te digo, não é suficiente! Não preenche o vazio aqui!” Bati em meu peito com força. “E o pior... Eu não lembro dele. De nada. E dói. E só me resta levantar todo dia e ser a melhor pessoa que eu puder e fazer o bem que eu puder na esperança que esteja onde estiver, ele sinta o mínimo de orgulho de mim.”

Subitamente me lembrei de Catarina e tudo fez sentido.

“E é por isso que eu existo. É por isso que eu estou aqui. Para encantar. Tentar mudar a vida para melhor. Por que sim, as vezes ela é uma droga. Mais vezes do que eu gostaria, mas não dá para desistir dela.” Senti uma lágrima correr. “Só por que você está disposto a morrer por uma causa, não quer dizer que você pode usar essa depressão como um casaco velho. Isso é muito mais perigoso do que qualquer missão.”

Ele respirou fundo e olhou pela janela.

O silêncio dele fez minha raiva voltar. Saí da sala para o único quarto. Tinha a esperança de ficar sozinho até Allana voltar.

Antes de fechar a porta, porém, olhei para ele de novo.

“E estou falando sério. Tratamento psicológico. Todos podem se beneficiar de um pouco de ajuda profissional.”