Capítulo 34


O ar estava um pouco pesado com Rafael. Ele havia mostrado um lado que me preocupava bastante. As coisas melhoraram quando Allana voltou. Nós almoçamos e preparamos a cerimônia.

Fernando havia mandado todas as informações necessárias para eles poderem gerar minha Epifania.

“Ok... Fernando disse que você precisa se conectar com quem gerou sua herança.” Allana leu a mensagem no celular. “Bom, isso é meio óbvio, é a questão principal.”

“Como eu faço isso?”

“Ele disse que precisa ser algo inato a sua herança. Acho que no seu caso é a música, certo?”

“Sim. Todos na minha família tocam. E mesmo que minha mãe não seja a fonte da herança, meu pai também era músico.”

“Ok, isso resolve. Fernando avisou que música ao vivo e tocada pelos seus parentes seria melhor, mas que o Spotify quebraria o galho.”

“E qual é a música?”

“Deixa eu ver... ‘Uma música importante, algo que lembre da infância. Algo que remeta a laços familiares, tempos felizes e momentos decisivos’” Ela citou. “E aí, o que vai ser?”

Muita coisa me passou pela cabeça. Algumas foram banais e outras foram muito importantes, porém nenhuma parecia certa até que a resposta me atingiu.

“Anunciação.10” Disse. “E se possível, a versão do Valencianas.”

“Ok...” Ela procurou a música.

Enquanto isso eu fui até a janela e me deitei no colchão que havíamos colocado no chão. Ao longe eu conseguia ver a lua que estava quase cheia.

As primeiras notas da orquestra preencheram a sala. Não sabia ao certo o que tinha que fazer, apenas relaxei e me deixei levar.

Embora a música fosse animada, eu comecei a me sentir com sono, com a cabeça leve.

Ouvi um estalo alto e meu coração parou por um segundo. Vi-me arfando por ar enquanto ficava cego por uma luz branca.

Pelo que pareceu um único segundo, presenciei uma cena desbotada. Minha mãe se balançava para frente e para trás em uma cadeira de balanço com um bebê que chorava. Ao lado deles, um homem que reconheci como meu pai tocava violão em um banco baixo enquanto cantava.

O olhar dele era de puro amor. Parecia que a existência dele existia apenas para nutrir, para amar e encantar. A voz dele, embora um pouco desafinada, para mim era perfeita. Com poucas notas já foram capazes de me lançar às lágrimas.

Aos poucos o bebê parou de chorar e adormeceu. Meu pai, porém, não parou de tocar. Aquele olhar de amor apenas subiu da criança para minha mãe. Seus olhos se encontraram numa declaração de amor silenciosa.

E finalmente, depois de tantos anos, voltei a adormecer pela voz de meu pai.



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Alceu Valença (Valencianas) - Anunciação

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