Capítulo 35


Eu acordei no meio de grama alta e amarelada. Sentia minhas costas coladas no chão e diante dos meus olhos, eu só via o céu muito azul.

Eu usava as mesmas roupas que usava quando adormeci. O vento varria a grama alta e ao meu redor haviam muitas árvores; o ar cheirava a poeira. Ali, em meio ao cerrado e seu estranho silêncio, eu senti paz. Como jamais senti em minha vida.
Então notei a flauta no chão. Quando a peguei me senti tonto de novo. Tudo ao meu redor tremulou. Os ipês ao meu redor floresceram com explosões de cor. Amarelo, rosa, roxo e branco. E num piscar de olhos eu já não estava mais na no cerrado e nem usava minhas roupas velhas.

Eu estava usando um belo e bem feito terno. Ao meu redor parecia a coxia de uma casa de shows. Havia várias pessoas indo e vindo ocupados, sem perceber minha presença.

“Que bom que chegou!” Alguém falou comigo.

Ao me virar, meu queixo caiu. Eu estava diante da mulher mais linda que já havia visto em minha vida.

Ela era muito alta e de pele clara. Seu cabelo preto reluzente era muito longo, escovado por cima do ombro com presilhas prateadas adornadas com diamantes. Seu vestido longo era de um azul tão escuro que era fácil confundi-lo com preto. No pescoço trazia um colar prateado com uma enorme safira.

O que mais me impressionava era seu rosto. Era a mais pura perfeição. Eu simplesmente não conseguia assimilar tal visão. Se Cacira era pura violência, aquela mulher era pura beleza... Amor e cuidado. Os olhos eram muito escuros e tinham uma curvatura delicada.

Se ela já era linda séria, quando sorriu iluminou todo o ambiente.

“Vamos, não podemos deixá-los esperando!” Ela me pegou pela mão.

Quando eu e ela entramos no palco, todos se ergueram para aplaudir. Imediatamente reconheci a casa de shows. Era o teatro municipal de Ouro Preto. No palco só havia um microfone e um piano de cauda.

Eu me senti vivo, me senti completo. Eu sabia que deveria sentar ao piano e sabia qual música tocar. Porém, mais importante, sabia o valor de tudo aquilo.

A mulher sorriu para mim e sem hesitar, comecei.

“Ponho os meus olhos em você
Se você está
Dona dos meus olhos é você
Avião no ar(11)” Ela começou.

A plateia estava completamente extasiada, porém eu estava muito mais. Aquilo era a minha definição de paraíso. Não havia outra maneira de descrever esse sonho que não assim.

“Liga o rádio à pilha, a Tv
Só pra você escutar
A nova música que eu fiz agora
Lá fora a rua vazia chora...”

A voz da mulher era tão bela quanto a dona. Era pura e elegante. Eram as vozes das mães ao cantar canções de ninar. Era a voz calmante daqueles que te dizem que tudo ficará bem. Eram as vozes dos amantes em declarações.

Era, porém, uma voz repleta de força. A voz que levantaria milhões em rebelião. A voz que abalaria estruturas um dia sólidas. Era a voz dos generais que proclamavam a guerra e a voz que os guerreiros brandiam em batalha.

Era como o som de centenas de corações batendo juntos como um só. A voz que tanto constrói quanto destrói.

Percebi tudo isso enquanto tocava.

“Luz dos olhos para anoitecer
É só você se afastar
Pinta os lábios para escrever
A sua boca é minha!”

“Que a nossa música eu fiz agora
Lá fora a lua irradia a glória
E eu te chamo, eu te peço: Vem!
Diga que você me quer
Porque eu te quero também!”

Ela começou a caminhar devagar pelo palco, sem deixar o microfone. Seus olhos se separaram da plateia. As luzes ao redor faziam sua pele refletir. A luz criada por seu vestido e por sua pele se misturavam e geravam centenas de outras cores ao seu redor. Ela parecia uma estrela em combustão.

Ela olhou para mim e tudo fez ainda mais sentido. Isso tudo, não era para eles, era para mim. O palco, a música e todo o momento era única e exclusivamente para mim. Era para eu entender o que eu era, para completar a parte em mim que faltava.

Naquele momento não havia nada além de sua voz e de minha música. Nada mais existia. Aquela era a voz que queria escutar antes de morrer, pois poderia partir em paz.

“Cartazes te procurando
Aeronaves seguem pousando
Sem você desembarcar
Pra eu te dar a mão nessa hora
Levar as malas pro fusca lá fora...”

Ela voltou ao centro do palco e se preparou para finalizar. Sua voz, antes forte, preencheu por completo o teatro, abalando tudo.

“E eu vou guiando
Eu te espero, vem...
Diga que você me quer
Porque eu te quero também
E eu te amo!
E eu berro: Vem!
Grita que você me quer
porque eu te quero também!”

Eu e ela terminamos ao mesmo tempo. Por um segundo não houve nada além de meu coração batendo forte em meus ouvidos. Ela olhou para mim e sorriu.

Subitamente a plateia saiu do transe e começou a aplaudir ensandecidos. Porém não importava o barulho que fizessem, jamais seria mais alto que ela.

Ela deixou o microfone em seu pedestal e me convidou a me retirar do palco com ela sob a salva de aplausos.

Ao chegar na coxia, ela me virou para encará-la nos olhos. Ela com delicadeza arrumou minha gravata e deu um daqueles tenros sorrisos.

“Isso, minha criança, é ser um Encantador.” Ela me disse. “Jamais esqueça disso.”

“Jaci?”

Jaci sorriu e me deu uma piscadela. Ela então se virou e desapareceu entre as várias pessoas que ali trabalhavam. Enquanto eu a via se afastar, eu comecei a adormecer. Eu sem muita cerimônia deitei no chão e apaguei.



-

Cássia Eller - Luz dos Olhos

-​