Capítulo 6


Conforme os dias iam passando Allana voltava aos poucos a agir normalmente. Havia voltado a sentar na minha frente, passar o intervalo comigo e até ir embora junto comigo.

Porém conseguia ver que havia algo de diferente nela. Não era nada de muito sério, porém eu a conhecia por tempo suficiente para saber que algo havia mudado. Era na forma que falava e em algumas outras coisas que fazia. Parecia que havia recebido uma revelação divina. Nem os óculos usava mais. Esse fato eu havia desistido de comentar. Ela dizia ser coisa dos remédios.

Eu ainda tomava muitos deles, porém não sentia qualquer efeito. Para falar a verdade, até suspeitava que eram placebos. Não dividia essa teoria com ninguém, se todos estavam dispostos a acreditar na história da queda, eu também iria aceita-la sem questionar muito.

Algo que havia reaproximado Allana de mim havia sido Vitória. Ela queria saber muito sobre a florista que havia me chamado tanto a atenção.

Nós estávamos procurando algo que pudesse lhe dar de presente, porém era difícil pensar em algo que não envolvesse flores.

“O que dar para uma mulher que trabalha numa floricultura?” Perguntei.

“É uma ótima pergunta. Eu sempre aposto em livros.”

“Não sei se ela lê...”

“Eu já aprendi, não é questão de a pessoa ler ou não. É só você dar algo tão intrínseco a personalidade dela que será impossível não gerar o mínimo de curiosidade. Dê algo sobre flores ou botânica.”

“Parece uma boa ideia.”

“Claro que é. Minhas ideias são ótimas.”

Ela havia me levado em um dos melhores sebos de Brasília. Ela dizia que embora livrarias fossem boas, havia algo em sebos que lhe encantava. Dizia que se soubesse procurar bem, não havia nada que não fosse possível achar. Nós passamos muito tempo no Sebinho procurando por algo sobre flores.

Teria que ser algo muito especial.

Depois de algumas horas, havíamos desistido da busca e decidimos por procurar algo para comer. Eu não havia comprado nada, porém Allana havia saído da loja com três grossos livros.

“Acho que na falta de presente melhor, doces são sempre bem vindos.” Ela comentou folheando um dos livros.

“Talvez você esteja certa...”

Ela bateu contra algo muito alto e deixou os livros caírem num baque surdo. Eu me abaixei para pega-los, ela, porém, estava paralisada.

Ao me levantar vi o motivo. A nossa frente havia uma enorme estátua de pedra que nos encarava.

A estátua tinha uma forma humanoide e devia ter mais de dois metros de altura e era formada inteiramente de um único bloco de mármore preto reluzente e cheio de veias e manchas douradas. Embora sua construção parecesse vagamente humana, ela não poderia ser mais diferente; assim como seu torço, seus braços e pernas eram muito grossos e eram lapidados e polidos com perfeição geométrica.

No topo havia uma pedra maior, também lapidada, com duas cavidades vazias e um entalhe que parecia uma boca.

Allana prendeu a respiração por um segundo.

Senti meu coração disparar e sem qualquer aviso, a estátua se iluminou. As cavidades antes vazias agora desprendiam uma forte luz dourada. Essa luz dourada escorreu como um líquido pelo corpo da criatura e preencheu pequenos canais que eu não havia visto.

O líquido fluiu por toda a estátua como sangue em uma criatura viva. Parecia ouro derretido correndo por veias.

Senti meus olhos arderem e uma forte e súbita dor de cabeça. Allana me pegou pela mão e se pôs a correr o mais rápido possível. Os livros caíram aos pés da estátua de novo, enquanto disparávamos por entre as árvores de uma entrequadra qualquer. Sob meus pés, o chão tremia.

“O que está acontecendo?” Perguntei.

“Nada!”

Ao olhar para trás o monstro de pedra corria desengonçado atrás de nós.

Nós paramos atrás de uma pequena construção que era capaz de nos esconder.

“Se eu mandar você correr sem olhar para trás você vai?” Ela perguntou amarrando o longo cabelo cacheado.

“Não.”

Percebi que ela estava se preparando para uma briga. Além de amarrar o cabelo amarrou os sapatos com mais força e esvaziou os bolsos.

“Então não tem o que ser feito.” Disse.

Sua pele se iluminou em tatuagens brancas. Algumas eram letras, outros números, além disso, grifos e desenhos geométricos. Haviam várias marcas nos braços, costas e pernas que brilhavam através das roupas. Ela tocou a marca do braço esquerdo e puxou a tinta branca, que como um tecido, se descolou de sua pele. Diante dos meus olhos o tecido virou um enorme machado de batalha. As outras marcas se apagaram.

“Se te consola, você estava certo. Você não bateu a cabeça. O sequestro de fato aconteceu.”

“Eu sabia!”

“Irrelevante agora. O que eu preciso que você faça é correr de verdade. Aquela coisa não é humana e está atrás de mim. É provável que não vá te machucar, mas passará por cima de você se tentar me proteger.”

“Eu posso ajudar!” Disse.

“É... Não, obrigada. Dá última vez você quase matou nós dois. Se não for correr, que cuide das minhas coisas!” Entregou-me a mochila.

“Mas... Você sabe fazer isso?”

“Ora, Cauã...” Com um movimento de mão sobre o rosto, a tinta branca apareceu como mágica em um padrão geométrico que parecia uma pintura de guerra. “Foi para isso que eu nasci.”

Ela levantou e saiu de nosso esconderijo. Ela andava de forma imponente arrastando a lâmina do machado no chão de concreto. O som era de arrepiar.

Devagar o monstro apareceu ao longe. Ao ver Allana ele se pôs a correr com uma velocidade considerável para uma coisa tão grande e pesada. Como um touro, investiu contra ela.

Ela, com a leveza de uma bailarina desviou da investida. O monstro, em uma guinada, parou e voltou a atacar.

Eles ficaram presos nessa dança por algum tempo, a criatura de pedra com uma brutalidade letárgica e Allana com agilidade e graça.

Na última investida, o monstro levantou o braço e acertou Allana em cheio quando ela tentou pular para longe. Ela caiu no chão com um som muito alto.

“Allana!”

“Fique ai!” Ela urrou para mim.

Embora ainda estivesse no chão, acertou a perna do monstro com seu machado. A força foi suficiente para quebrar-lhe a perna.

Sem apoio, o monstro tombou no chão com um estrondo. Ele não pareceu se importar, ainda tentava chegar em Allana. Ela, porém, se levantou e trazia nas mãos um machado e no rosto uma carranca. Ela virou a arma para expor o martelo que havia do outro lado da lâmina e o levantou acima da cabeça.

Com um movimento certeiro, quebrou o pedregulho que era a cabeça.

Seus olhos e as veias douradas se apagaram e a cabeça se partiu no meio.

Por um segundo tudo foi silêncio. Allana sentou no chão, exausta.

“Você está bem?” Corri até ela.

“Sim, estou.” Disse. “Só cansada.”

“Ok... O que é isso?” Chutei um dos braços de mármore.

“É um golem. É... Uma coisa mágica.”

“Ok... Mágica...” A ajudei a levantar. “E por que estava atrás de você?”

“A história é longa. E no momento eu queria muito que você não fizesse perguntas e deixasse tudo passar...”

“Claro que não! Como esquecer disso tudo? Principalmente desse bicho brilhando!” Apontei para o amontoado de pedras que voltava a brilhar em dourado forte.

Allana me olhou sem palavras. Ela olhou para o monstro e me pegou pelo pulso de novo tentando se levantar.

“Ele não deveria estar brilhando...”

As veias que corriam pelo corpo do monstro pareciam ainda mais brilhantes que antes, gerando até calor. A perna que havia se quebrado se refez assim como a cabeça. O monstro se reergueu e arrancou o martelo da testa, quebrando-o no processo.

Ele girou o enorme braço acertando Allana de novo, lançando-a muitos metros para longe. Ela caiu inerte e o monstro avançou sobre ela devagar.

Meu pânico crescia e meu coração batia como louco. Eu corri de novo para ela na esperança de conseguirmos correr, porém Allana não parecia nada bem.

“Cauã, corre!” Falou com medo na voz. “Ele não vai te machucar enquanto estiver longe!”

“Eu não vou te deixar! Você pode acabar com aquilo!”

“Não... Não sozinha. A magia é muito forte.”

A palavra me acertou como um caminhão. Magia. Eu não apenas desejava desesperadamente ter magia, eu tinha magia. Eu sabia disso. Agora que eu estava ao lado de uma fonte dela, eu podia sentir, pulsando em mim, fluindo junto com meu sangue.

O monstro vinha andando devagar e pesadamente. Não parecia preocupado conosco. Talvez soubesse que já tinha nos machucado demais para irmos longe.

“Só corre...” Allana fechou os olhos e respirou fundo.

Eu me pus diante dela na esperança que fosse ganhar algum tempo. O monstro parou diante de mim por um segundo. Talvez estivesse pensando que se caísse sobre nós, mataria dois coelhos com uma pedrada só.

Eu olhei no fundo de suas cavidades oculares onde o dourado pulsava forte.

“Para!” Gritei confiante.

Ele não faz nada. Então se curvou para ficar na minha altura. Ele levantou uma mão que estava indo em direção a minha cabeça. Eu, porém, não desviei os olhos dos dele. Não sabia o que estava procurando, mas sabia que havia algo lá.

E subitamente, me senti conectado com ele.

Minha cabeça começou a doer como nunca, minhas pernas fraquejaram e senti vontade de vomitar, porém continuei de pé. Senti lágrimas escorrerem de meus olhos e o gosto de sangue na boca.

Subitamente tudo parou. Minha cabeça pareceu desligar e meu coração desacelerou. A luz dourada que emanava da criatura se dissipou. Ela começou a enegrecer e então se tornou um tom de roxo muito forte. Senti que tinha total controle do monstro.

Ele era como um personagem de algum videogame que só esperava por um comando. Eu sentia sua energia desejando fazer algo, implorando para servir. Eu, porém, não tinha mais energia para nada.

Com um aceno de mão, a luz se apagou e ele se desfez por completo, restando apenas um monte de cascalho.

Meu corpo cedeu sobre meu próprio peso e cai estatelado ao lado de Allana. Minha respiração era difícil e minha cabeça parecia que havia sido acertada pelo machado que o monstro havia quebrado.

“Você está bem?” Ela me perguntou também soando cansada.

“Boa sorte tentando me convencer que isso não aconteceu...”

“Menos piadas...” Se levantou com dificuldade.

Ela me botou de pé e passando meu braço pelo seu ombro e me segurando pela cintura, me levou para longe dali.