Capítulo 8


Ambos me deixaram sem muitas respostas. Eles diziam que precisavam de alguém que fosse capaz de me explicar minha... condição. Doutor Leonardo havia me deixado em casa e me pedido para que eu voltasse no dia seguinte para resolvermos tudo. Foi o que fiz sem hesitar. Estava morto de curiosidade.

Após uma noite em claro, eu encontrei os dois na cobertura do prédio deles. Ambos haviam mudado completamente de aparência. Estavam preparados para uma guerra.

Allana estava usando uma espécie de vestido com o corpete blindado. Também tinha uma proteção de ombro direito com dois símbolos, um par de asas vermelhas e um sapo verde. Nas costas uma estranha espada curva. Além disso, botas de salto baixo com rebites metálicos. Embora o rosto parecesse um pouco inchado e houvesse pontos acima de seu olho, ela parecia ótima. Até havia passado um pouco de maquiagem.

Doutor Leonardo parecia mais um soldado do que médico. Usava coturnos de couro, uma calça tática preta, uma camiseta por baixo de um colete com as mesmas blindagens de Allana e uma boina também preta. Havia o brasão com o par de asas tanto na boina quanto no colete. Ambos estavam não apenas confortáveis como absolutamente felizes.

“Eu detesto quando venho mal vestido para uma festa!” Disse fingindo descontentamento. “E se a batalha que vocês estão esperando chegar, serei o primeiro a sair correndo.”

Doutor Leonardo passou o braço pelos meus ombros rindo.

“Não se preocupe. Essas roupas são... Parte de personagens.” Ele sorriu. “Não haverá batalha hoje.” Doutor Leonardo me indicou o caminho.

Eles me levaram para o canto da cobertura onde havia uma pequena banheira de hidromassagem já cheia. Cada um deles sentou em uma cadeira e disseram para que fizesse o mesmo.

“E ai, o que temos para hoje?” Perguntei.

“Bom... É complicado, mas tentarei ser sucinto.” Ele começou. “Do início... Os mesmos deuses que criaram essa terra ainda existem. E desde a alvorada dos tempos, eles nos abençoam com presentes inimagináveis. Estes presentes geram frutos até hoje. Como eu e Allana. E aparentemente... Você.”

“Ok... Entendi. Quais deuses exatamente?” Imaginei que a situação não podia ficar pior, então só estava seguindo o raciocínio.

“Eu duvido que você já tenha ouvido falar.” Deu de ombros. “Mas são deuses antigos, bravos e fortes. E como eu disse, eles ainda existem.”

“Tudo bem. Faz sentido.”

“Jura?” Allana se assustou.

“Não.”

Doutor Leonardo riu de mim. Parecia de ótimo humor com meu sarcasmo.

“Então vocês seriam...”

“Herdeiros do deus da guerra, da barbárie e violência. Anjo da Batalha e Cacique dos Deuses.”

“Definitivamente é muita coisa para lembrar. Podemos chamá-lo de... João?”

“Não, não podemos...” Allana disse como se fosse óbvio. “Ele ainda está vivo e tem nome. Além do mais, eu tomaria cuidado com esse tom sarcástico. Não é todo mundo que gosta dele.”

Meu coração apertou. Senti-me um tanto envergonhado. Abaixei o olhar para os meus sapatos.

“Eu sinto muito.”

“Não se preocupe. Sentir medo e ansiedade é normal.” Doutor Leonardo me confortou.

“E então... Quem é?”

“Cacira.” Ele me disse sem rodeios.

Meus ouvidos estalaram. Ao ouvir aquele nome senti uma súbita fraqueza. Minha respiração ficou difícil e senti uma pequena ânsia de vômito. Meu nariz voltou a sangrar.

“Não se preocupe, essa reação é normal. É seu lado mágico reagindo a um nome de tanto poder.” Ele constatou me entregando um lenço de papel.

“Ok... Aceito.”

“Infelizmente não podemos falar sobre você. Se ninguém te guiou nesse caminho, provavelmente sua mãe é mortal e você foi o primeiro em gerações a despertar o poder.”

“E meu pai?” Perguntei.

“Não sei dizer, eu não o conheci.” Ele me disse. “Mesmo que fosse um de nós, parece que Priscila também desconhecia.”

“Então quem vai poder me ajudar?” Não quis soar infantil, porém a imagem de não conseguir descobrir tudo me preocupava.

“Você verá. Minha filha, por favor.”

Allana se levantou e tirou um sinalizador da bolsa e o ativou. Ela, então, esticou a mão e se virou para a banheira em uma postura rígida.

“Eu invoco o Fogo Sagrado, O Início, O guardião do Legado da Herança.” Ela jogou o sinalizador na banheira cheia d’água.

Achei que o sinalizador iria afundar e apagar, porém a água começou a borbulhar como uma panela. A superfície se rompeu em chamas douradas, vermelhas e laranjas. Tentando escapar, eu caí para trás.

“Levanta do chão! Não nos envergonhe!” Allana me puxou para cima.

Doutor Leonardo levantou e junto com Allana, se ajoelharam abaixando as cabeças com o punho sobre o coração.

“Ao Fogo Sagrado nós, os protetores da casa, nos curvamos.” Ele disse solene.

Não sabia exatamente porque estavam saudando uma banheira de hidromassagem em chamas, mas pareciam bastante sérios. Eu imitei o gesto, porém fiquei de olho na banheira.

Ouvi um bocejo vindo das chamas. Alguém se ergueu da água de uma forma tão bela que poderia ser um comercial de shampoo. A coisa era disforme e parecia incompleta. As chamas se fundiram em uma forma humanoide que em um estampido, formaram um homem completo.

Ele parecia um tanto confuso por estar dentro de uma banheira cheia de água com três pessoas se curvando perante ele.

“Ora, se não fazem algumas décadas.” Sorriu para nós.

O homem tinha uma expressão tranquila. O sorriso me passava calma e os olhos segurança. Percebi que dentro deles havia fogo ardendo como em uma fogueira.

Ele vestia uma camisa branca simples e calças jeans claras. Seus braços estavam pintados em tinta que crepitava em brasa alaranjada.

“Minha criança, por favor.” Ele estendeu a mão para Allana.

Ela se levantou e lhe deu a mão ajudando-o a sair da banheira. Ele se sentou na borda e olhou para nós com um sorriso de paz. Ele não parecia se incomodar com a barra da calça encharcada.

Minha mãe sempre diz que é possível saber muito sobre uma pessoa pela postura dela. Eu conseguia dizer que aquela pessoa era paz. Ele se sentava ereto sem esforço, respirava devagar e seus gestos eram elegantes. Ele parecia existir sem dificuldade. Habilidade que um saco de ansiedade como eu adoraria ter.

“Allana, minha criança, você cresceu tanto! Tão bela, tão forte. Uma guerreira de verdade. Tem os olhos de sua avó.” A segurou pelo rosto num gesto delicado. “E você, Leo, minha criança... Cirurgião cardiologista?” Riu “Parece que foi ontem que sua mãe te deu sua primeira lança... Quanto tempo faz?”

“Bons quarenta anos, imagino, Dom Caiçara.”

“Que família linda você criou.  Por favor! Se levantem!”

“Muito nos honra.” Ele se levantou e voltou a se sentar em sua cadeira.

Não estava conseguindo conceber a presença daquele... ser. “Criança” e “Leo” não pareciam maneiras corretas de se dirigir a Doutor Leonardo, entretanto, Caiçara conseguia fazer parecer certo.

“E quem temos aqui?” Perguntou olhando para mim.

“Dom Caiçara, esse é Cauã, meu amigo. Achamos que ele é um herdeiro, mas ninguém nunca o iniciou.” Allana se levantou e me pôs de pé, de frente para Caiçara.

Ele pareceu muito feliz.

“Seria meu prazer acender essa chama.” Ele sorriu tomando minhas mãos nas suas. Elas eram surpreendentemente quentes.

Caiçara se ajeitou em seu assento e me encarou por um segundo. Seus olhos foram consumidos por uma intensa chama que se espalhou por suas tatuagens.

Eu senti minhas mãos esquentarem ainda mais. Aquele calor subiu por meus braços e se espalhou por todo o corpo. Era reconfortante. Meu coração desacelerou e toda a ansiedade se dissolveu em um calor agradável.

O fogo em seus olhos se apagou e, junto com a cor original, veio um sorriso.

Ele pareceu um tanto confuso e surpreso, porém, feliz.

“Parece que voltamos ao fim, não é mesmo?” Riu do que parecia ser uma piada. “Cauã Volture de Aguiar.” Ele disse um tanto solene. “Herdeiro da lua... Já era hora de encontrar tua herança.”

Por um segundo fiquei paralisado. Ele riu da minha expressão.

“Por favor, sente-se, essa conversa pode ficar longa!”

Não percebi quanta força estava fazendo para ficar de pé. Relaxei o corpo e sentei de frente para ele.

Seus cabelos negros eram salpicados de branco. Ele devia ser muito velho, porém não parecia ter mais de trinta ou quarenta anos.

“Quem? Ou... O que? Por que?”

“Muitas perguntas boas.” Ele assentiu. “Entretanto, sua herança é complexa. É confusa até mesmo para mim. Mas... Para começar seu caminho nessa jornada, lhe ofereço uma história.”

“Acho que ajuda.” Assenti.

“Imagine que muito tempo atrás, a noite era povoada apenas por vagalumes e estrelas. Os mortais tinha medo da deusa que a governava, pois a noite esconde todo o tipo de monstros e perigos.” Começou. “Os mortais choraram por ajuda e subitamente nasce Jaci. A Mais Bela Joia da Criação, iluminando a escuridão da noite.”

A história dele não parecia ser nova. Na verdade, já havia ouvido em várias ocasiões de vários lugares do mundo, entretanto essa era diferente. Por algum motivo ela fazia meu coração bater mais forte. Aquela história parecia fazer parte de mim.

“Dizem que Jaci é a deusa mais bela entre todas. Mas não é por isso que a adoramos. Sua própria existência é amor, beleza e cuidado. Nunca houve uma única pessoa que ela tenha virado as costas ou negado ajuda.” Ele suspirou com um sorriso encantado. “Jaci é um amor de pessoa. Sempre se preocupando com todos... Ela deu à humanidade incontáveis presentes. Presentes dotados de beleza, encanto e magia. Isso inclui você.”

“Isso... É muito bonito.”

Caiçara sorriu.

“Sinto não poder ajudar mais, entretanto sei quem poderá.” Ele agitou a mão e em seus dedos chamas criaram um cartão de visitas. “Ele poderá te ajudar melhor que qualquer um de nós.” Sorriu

“Muito obrigado.”

“Dom Caiçara...” Allana e Doutor Leonardo se ajoelharam de novo.

“Eu agradeço por terem lembrado de mim.”

“Enquanto houverem Guerreiros de pé, o senhor jamais será esquecido.”

“Sempre tão atencioso...”

Caiçara foi engolfado em chamas e em um segundo, havia desaparecido por completo.

Allana olhou para mim curiosa.

“Então...”

O cartão era azul marinho com letras prateadas. O brasão era uma lua minguante.

Havia apenas um nome e um telefone. Não gostava de falar ao telefone, porém eu ainda sentia a energia de Caiçara comigo e com ele eu sabia que podia fazer qualquer coisa. Eu saquei meu celular e disquei o número ali mesmo. Ele tocou pouco e logo alguém atendeu.

-Quem é você e como conseguiu esse número?- Perguntou ríspido.

“Ora, se você não é grosseiro. Escuta, um cara chamado Caiçara falou que você podia me ajudar. Não estou muito seguro de chamá-lo de deus, mas ele saiu de uma banheira em chamas e sabia demais da minha vida para o meu gosto.”

A pessoa desligou sem dizer mais nada.

“De fato, bastante grosseiro...”

No segundo seguinte chegou uma mensagem. Uma hora, um local e um aviso para que não me atrasasse.