Prólogo


Parei de frente para a porta hesitante. Já havia estado ali centenas de vezes, porém, hoje era diferente. Já não me sentia bem-vindo nessa casa, muito pelo contrário, hoje me sentia mais um intruso indesejado do que um convidado.

A porta destrancou ao meu toque e abriu sem qualquer ruído. Entrei devagar pelo aposento cavernoso. De madrugada a decoração que um dia me deleitou, agora apenas me assustava. A única coisa que destoava da sala perfeitamente arrumada era um enorme quadro que pendia acima do sofá.

Eu mesmo havia pintado aquela tela. Usei o preto mais denso, o dourado mais forte e a prata mais leve que havia conseguido achar. Agora já não podia mais ver a imagem, a tela havia sido completamente rasgada. Ela havia deixado a tela ali de propósito. Ela sabia que eu estava vindo.

Aquela visão quase me tirou as forças. Porém não havia mais o que eu pudesse fazer, não havia mais como fugir. Não dela. Ela estava me esperando.

Eu entrei no quarto do pequeno. Era espaçoso e decorado com vários brinquedos e bichos de pelúcia. Os que eu havia dado ainda estavam em seus lugares, porém haviam perdido as cabeças. As paredes pareciam quase negras e a luz que entrava pela cortina aberta deixava tudo muito mais macabro. A noite parecia avançar violentamente sobre mim. Sentia-me um pouco claustrofóbico.

Debrucei-me sobre o berço para vê-lo. Pequeno e indefeso, dormindo despreocupado como se nada pudesse atingi-lo... Ele não entenderia as repercussões desta noite por muitos anos.

“Está atrasado.” Sua voz me arrepiou a espinha.

Olhei para trás e me deparei com ela em uma cadeira de balanço. Olhos ferozes e implacáveis de uma mãe.

“Vim trazer minhas condolências.”

Podia ver que por trás daqueles olhos vorazes haviam os lacrimosos olhos de uma viúva. Seu rosto jazia manchado por lágrimas secas.

“Um pouco tarde para isso.” Deu um sorriso quebrado. “Te esperava no velório, mas nem essa consideração teve comigo. Ou com ele.”

“Eu estava resolvendo algumas pendências...”

“Imagino.”

O silêncio me era insuportável. Conseguia doer em minha pele fisicamente.

“Além do mais, achei que não fosse me querer lá.”

“E como ela está?” Mudou de assunto.

“Agora está bem. Graças a ele.”

Mais uma vez, silêncio. Não conseguia tirar os olhos da criança. Cabelos negros e mãos pequenas. Usava um pijama preto e parecia sonhar. Ajeitei o amuleto que tinha sobre o berço.

“Eu pretendo fazer tudo ao meu alcance para compensar sua perda.” Disse.

Ela pareceu achar graça daquilo. Porém havia dor em seu riso.

“Qual o valor de uma vida?” Ela me perguntou.

“Você sabe tão bem quanto eu que essa não é uma pergunta simples.” Virei-me para ela.

O riso se fechou em uma carranca.

“Você quer me compensar por uma morte... Mas não sabe me dizer o valor dessa mesma vida.” Respondeu ácida.

“Eu sei...”

“Não. Você não sabe. Você acha que sabe o que é morte, mas não sabe. Não para nós.” Se levantou devagar. “Você não me compensará pela perda de uma vida. Não... Você me compensará por três vidas. ”

Ela avançou sobre mim de forma calma e delicada, porém via a violência em seus olhos.

“Três?”

“Claro!” Disse como se fosse óbvio. “A primeira sendo a vida de Carlos que foi perdida a seu serviço. A segunda sendo a vida que eu e ele tínhamos à nossa frente. E por fim... A vida que você roubou dele.” Indicou a criança que dormia no berço.

Engoli em seco. Não era um pedido que pudesse recusar. Não agora e nem para ela.

“Que seja.” Concordei. “Três vidas. E como acredita que essa compensação deva ser feita?”

Ela me afastou do berço com a mão e se debruçou sobre a grade. Acariciou o cabelo do bebê com os dedos. Ele nem se mexeu.

“Tempo...”

“Quanto?”

“Quanto tempo você tem?”