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O Projeto e

Nossa História

Todas as histórias nascem de algum lugar; algumas surgem de experiências pessoais, sonhos delirantes, desejos e até uma ideia racional.  Embora pudesse explicar tudo em poucas palavras, preferi me demorar um pouco mais para que pudesse comentar sobre essa história em sua totalidade.

C.S. Lewis, o escritor de “As Crônicas de Nárnia”, diz que para ele, suas histórias nunca foram planejadas ou criadas a partir de uma fórmula. Segundo ele, suas histórias nasceram de imagens em sua cabeça, tudo que contava, girava ao redor dessas imagens que a princípio não havia muito sentido. 

Em “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, o autor defende que tudo começou com imagens: Um fauno carregando um guarda-chuva, uma rainha em um trenó, um magnífico leão... Lewis afirma que tudo isso surgiu muito antes da ideia de transformar isso em uma história.

Essa teoria se estende ao colega contemporâneo de Lewis, o professor J.R.R. Tolkien, aclamado escritor de “Contos Inacabados”, “Senhor dos Anéis” e “O Silmarillion”; uma das histórias sobre o livro “O Hobbit” conta que toda a aventura começou quando em um simples momento de inspiração, Tolkien escreveu em uma folha em branco ‘Num buraco no chão vivia um hobbit.’.

Depois de tantos anos contando e escrevendo histórias, consigo perceber que meu método de criação é parecido ao de Lewis e Tolkien. Tudo começa com imagens e sentimentos. Tudo começou com poderosos deuses em Auriverde, piadas e citações que só funcionariam em português e guerreiros em Brasília, Boa Viagem e na Paulista. Aventuras do Monte Caburai ao Arroio Chuí, subindo o Pico da Neblina e descendo o Cânion da Fortaleza. Em posse de tais imagens, me faltava uma história.

Tão importante quanto ter uma história é saber como querer contá-la e para quem contá-la. Escolhi não apenas o gênero que mais se encaixava em tais imagens, mas também aquele que mais me divertia e mais me agradava. O gênero de Young Adult sempre foi e ainda é um dos meus favoritos e além disso, ele carrega um número de arquétipos e alegorias que são extremamente importantes para o desenvolvimento de jovens leitores. Sendo tais pontos tão importantes no meu desenvolvimento como leitor, escritor e pessoa, era minha vontade passar isso para outros leitores.

Escolher um gênero no qual se enquadrar foi relativamente fácil, entender o estilo também não foi difícil, tendo lido e estudado os grandes mestres e sucessos do gênero, era necessário apenas fechar a história dentro de tais padrões.

O grande problema era: não existe um grande sucesso brasileiro nesse gênero. Não há um expoente ou um mestre a seguir. J.K. Rowling e Rick Riordan são escritores fenomenais que se tornaram cartas chaves na disseminação do gênero em diferentes pontos e diferentes épocas. Porém, sendo eles estrangeiros, nada poderiam ajudar em uma obra brasileira, mesmo que fosse do mesmo gênero.

Surgiu a necessidade, então, de voltar aos mestres brasileiros para reinventar um estilo que embora seja tão frutífero no exterior, é tão escasso no Brasil.

Mesmo com tão pouca história, o Brasil detém alguns títulos que poderiam facilmente virar clássicos mundiais. As nuances de Machado de Assis em “Dom Casmurro” e a trágica “Morte e Vida Severina” são alguns desses títulos tão poderosos.

Porém, era necessário mais. As características do Young Adult são diferentes, o gênero precisa de um outro tipo de solo para crescer. O período que talvez apresentasse uma abertura favorável era o período inaugurado no século XIX, o Romantismo. Dividido em três fases bem estruturadas, o romantismo brasileiro apresentou como sua primeira geração o período denominado Indianista ou Nacionalismo. Essa fase era baseada no culto a natureza e a pátria, ufanismo e nacionalismo e tinha a ideia de um herói nacional. Parecia ser o caminho certo. Embora houvesse alguns problemas e discrepâncias aqui e ali, era um caminho satisfatório.

Um dos grandes problemas dessa temática é que os heróis do indianismo eram os nativos, mas não eram imagens reais dos nativos. Peri em “O Guarani”, o guerreiro tupi em “I-Juca-Pirama” e Iracema no livro homônimo não estavam nem próximos de uma representação real e fidedigna dos nativos. Eram personagens idealizados e baseados nos mitos clássicos. Nos tempos de hoje, esse tipo de reorientação não tem mais espaço na mídia.

Além disso, era do meu desejo criar algo pessoal, algo com o que eu me identificasse. Conforme essas pesquisas avançavam, fui relembrado, em uma reunião de família, que meu tataravô, o avô do meu avô, havia sido um cacique. Isso alterou as imagens que eu já trazia comigo e botou todas as informações disformes, caminhos desconexos e imagens vazias em ordem.

Embora quisesse fazer algo da minha própria família, fui incapaz. Todos que podiam me dar alguma resposta real havia há muito morrido. Percebi que era um herdeiro sem herança. Não tinha nem tribo nem deuses. Percebi, então, que isso fosse talvez até melhor! Não seria errado imaginar que muitas pessoas se encontrariam na mesmíssima situação. Por que não criar algo para todos nós? Algo que todos pudéssemos nos identificar em igualdade?

O próximo passo era criar esse “algo”. Após alguns anos de construção, criei um sistema mágico e um panteão inspirado nas mais diversas tradições mitológicas. Eram deuses mestiços, para uma nação mestiça e herdeiros mestiços.

Demoraram cerca de cinco anos para todo esse processo se completar. Ao fim, me resta apenas convidar todos aqueles que estão lendo esse texto a aproveitar os frutos de tanto trabalho. Além disso, tanto o livro, quanto o site e as tantas artes desse projeto possuem diversos Easter Eggs e várias menções e referências a nossa cultura e literatura; espero que gostem!

Nota do Autor: Esta é uma obra de ficção e deve ser tratada como tal. Ela não deve ser entendida como um estudo sobre mitologia, teologia, antropologia, linguística ou qualquer outro campo de conhecimento que não a literatura fantástica.